Atentado à maternidade deixa 24 mortos e bebês órfãos no Afeganistão

Entre as vítimas estão pacientes, funcionários e dois bebês recém-nascidos

Um ataque a um hospital em Cabul, capital do Afeganistão, deixou ao menos 24 mortos e 16 feridos na última terça-feira (12). Entre as vítimas estavam mães, bebês e enfermeiras que trabalhavam na maternidade da instituição. O hospital fica localizado em um bairro onde vivem muitos membros da comunidade Hazara, uma minoria muçulmana que, no passado, já foi alvo de ataques do ISIL (Estado Islâmico do Iraque e do Levante). Porém, até o momento nenhum grupo terrorista reivindicou a autoria do ataque.

De acordo com informações do Al Jazeera, três homens vestidos com uniformes da polícia invadiram o hospital e começaram a atirar e lançar granadas contra pacientes e a equipe médica. Estima-se que cerca de 140 pessoas estavam no local no momento. Zainab, de 27 anos, era uma delas. Moradora da cidade de Bamiyan, ela havia ido a Cabul para ter seu primeiro filho, após sete anos tentando engravidar. Naquele dia, deu à luz um menino que chamou de Omid, palavra para esperança em Dari, uma das línguas oficiais do país. Zainab se preparava para voltar para casa e estava no banheiro quando o ataque aconteceu. Ao ouvir a comoção e os gritos, voltou desesperada para onde estava Omid, mas já era tarde demais. O menino foi um dos dois recém-nascidos mortos no atentado.

Outra paciente, Hajar Sarwari, estava em trabalho de parto quando foi alvejada no abdômen pelos atiradores. Ela e a criança morreram na hora e ambos foram enterrados em uma colina nos arredores de Cabul na manhã da quarta-feira (12). “Não existe mais humanidade neste país”, disse Mohammad Hussain Yaqoobi, esposo de Sarwari, durante o enterro, segundo o Washington Post. “Os atiradores não tinham consciência. Como eles podem justificar o assassinato de recém-nascidos inocentes e de suas mães?”, completou.

Seis bebês que perderam as mães e mais 12 sobreviventes foram transferidos para um outro hospital da capital. Destes, 11 já foram devolvidos para suas famílias após terem suas identidades confirmadas. Outros, por questões de documentação, permaneceram no hospital. Em um caso que ilustra bem a força do patriarcalismo na sociedade afegã, a irmã de uma das mães assassinadas não conseguiu resgatar o sobrinho por não estar acompanhada de um homem.

O choque do atentado tem abalado também os funcionários do hospital, que já passavam por grande estresse emocional por causa da pandemia do novo coronavírus. Para alguns, o retorno às funções parece impossível. “No mês sagrado do Ramadã, vi pacientes serem mortos mesmo após implorarem por suas vidas. É muito difícil voltar a trabalhar agora”, declarou uma enfermeira cuja identidade foi mantida em segredo pelo Al Jazeera.

O país está vivendo uma onda de violência. Ainda na terça, um homem-bomba a serviço do Estado Islâmico matou 32 pessoas e deixou 132 feridos durante um funeral na província de Nangarhar, ao leste do Afeganistão. Ambos os ataques foram repudiados pela Anistia Internacional, pelas Nações Unidas e pelo secretário de Estado norte-americano Mike Pompeo. “Os inescrupulosos crimes de guerra no Afeganistão hoje, alvejando uma maternidade e um funeral, devem despertar o mundo para os horrores que os civis continuam enfrentando”, declarou a Anistia.

Para Ashraf Ghani, presidente afegão, os dois ocorridos são de responsabilidade tanto do Talibã quanto do Estado Islâmico. Ele convocou as forças de segurança do pais a retomarem sua ofensiva contra os talibãs, que, em resposta, disseram estar prontos para contra-atacar. “A partir de agora, a responsabilidade por uma maior escalada de violência e suas ramificações recairão diretamente sobre os ombros do governo de Cabul”, afirmou comunicado divulgado pelo grupo na quarta-feira.

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