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“Aquele cabelo era a minha conquista, minha identidade. E eles cortaram”

Expulsa de casa por ser gay, Fernanda depois se percebeu transexual e viveu momentos de terror na rua e na prisão. Hoje é coordenadora estadual de políticas afirmativas para travestis, transexuais e bissexuais em Recife.

Por Aline Takashima (colaboradora) Atualizado em 22 out 2016, 16h14 - Publicado em 17 ago 2016, 13h29

Fernanda Falcão se apaixonou pela primeira e única vez no dia da formatura do ensino médio, em 2009. Chegou em casa com o coração ainda palpitando. Tinha que contar para a sua mãe aquele sentimento que nunca sentira antes. “O que eu faço com todo esse amor dentro de mim?”, perguntou. A matriarca festejou a felicidade da filha. “Traga ela para casa”, sugeriu. Fernanda revelou que estava apaixonada por um rapaz. “Eu tinha a forma física e fisiólogica masculina. Não tinha coragem de dizer que eu realmente gosto de homem até o meu primeiro beijo”, conta.

Após a revelação, Fernanda desceu para o inferno e viveu por muitos anos uma espiral de terror. Sua mãe a trancou dentro de casa e chamou o pastor e o grupo de jovens de uma igreja evangélica que frequentava. “Ela dizia que um espírito mal tomou conta de mim”, revela. Quando percebeu que a filha não iria mudar, expulsou-a de casa. “E agora? Para onde eu vou?”, pensou desesperada. Ligou para Riberson Antônio Domingos, o rapaz de 18 anos por quem havia se apaixonado. Ele não hesitou em buscá-la e oferecer abrigo em sua casa, onde vivia com os pais e sete irmãs. “Todos me aceitaram muito bem. Nunca tive dificuldade em conviver com a família dele”, explica Fernanda, que namora com Riberson há sete anos.

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Como não contava mais com o apoio da mãe, o jeito foi se virar sozinha. Deu aulas de reforço de português e matemática para as crianças do bairro enquanto estudava com afinco para o vestibular de medicina. “Sonho em ser médica e trabalhar na área da saúde.” Não conseguiu a vaga na universidade federal e ainda perdeu os alunos das aulas particulares. “Os pais perceberam que eu era diferente e foram desistindo das aulas. Eu não tinha como pagar as minhas contas.”  

As mudanças do corpo e os gestos delicados acentuaram-se quando conheceu Paulinha e a Nicole, duas travestis. “Toma esse remédio que tu vais ficar com características femininas”, recomendaram. Assim como elas, Fernanda trabalhou como prostituta e morou na casa de uma cafetina. Apesar do consumo de drogas e roubos frequentes no meio que circulava, não desistiu dos estudos. Pagou a faculdade de enfermagem com os programas. 

A propina para policiais também era uma prática comum. Ela revela que, em uma avenida larga e movimentada de Recife, no bairro da Boa Vista, as garotas de programa eram obrigadas a pagar diariamente R$ 50 para os agentes. Rebelou-se contra a tarifa e começou a articular para que as outras meninas não pagassem mais aquele valor. Como castigo, teve os seus longos cabelos crespos cortados por uma policial. “Aquele cabelo era a minha conquista, minha identidade, eles cortaram e me humilharam”, revela. 

Divulgação
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“Sonho em ser médica e trabalhar na área da saúde” 

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Apesar das ameaças, decidiu agir. Ajudou a criar um grupo de prostitutas da região metropolitana de Recife, o Damas, e contou com o apoio da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). O protagonismo de Fernanda incomodava. Ela conta que, certo dia, policiais a sequestram enquanto trabalhava. Após uma sequência de espancamento, foi levada para a delegacia. Foi presa. “Eu descobri por um papel que tiraram a minha dignidade. No documento estava escrito que eu tinha oito pedras de craque na bolsa. O que é uma mentira”, conta. 

O último relatório do Grupo Gay da Bahia (GGB), de 2015, revela que 318 pessoas foram assassinadas, naquele ano, vítimas de homofobia. A cada 27 horas ocorre um crime de ódio no país. De acordo com o GGB, que há 30 anos denuncia casos de preconceito no Brasil, as travestis e transexuais correm mais risco de serem mortas que os homossexuais . No ano passado, cerca de 119 travestis brasileiras foram assassinadas. 

Fernanda não chegou a ser morta, mas esteve perto da morte e algumas vezes até desejou morrer. Conheceu o sistema penitenciário aos 18 anos. Dividiu uma cela com 100 homens e duas travestis. Quando escureceu, escutou a sentença de um preso: “você vai dormir comigo”. Ele fumou uma pedra de crack e a atacou com uma faca. “Fui estuprada por vários dias”, revela. Só conseguiu sair de lá por conta do curso técnico em enfermagem e dois anos de faculdade. Começou a trabalhar na enfermaria do presídio. Contou em detalhes o ocorrido para a enfermeira chefe e descobriu o pior: o estuprador tinha HIV. “Fiquei desesperada. Queria fazer os exames, tomar os remédios para a profilaxia. Mas foram adiando. Fiquei definhando por dias. Queria morrer.”

Foi então que conheceu Maria Clara de Sena, finalista do Prêmio CLAUDIA na categoria Políticas Públicas. Ela atua no Grupo de Trabalho e Prevenção Positiva (GTP+). A ONG dá suporte para os portadores de HIV, em Recife. “Eles me apoiaram muito, faziam visitas rotineiras”, explica Fernanda. Maria Clara é a única transexual no mundo no cargo de Mecanismo de Prevenção e Combate à Tortura, órgão recomendado pelas Nações Unidas. A candidata inspeciona os locais onde as pessoas estão privadas de liberdade como prisões e asilos e assegura que os direitos humanos da população homossexual seja respeitada. “Por não sermos aceitas na sociedade somos marginalizadas. Muitas amigas ainda estão na prostituição, nos presídios e outras foram mortas, e enterradas de terno e gravata”, lamenta.

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Após três anos e três meses, Fernanda finalmente saiu da prisão. Processou o Estado pelos estupros e por ter contraído HIV e não perdeu uma oportunidade de contar a sua experiência na cadeia. Começou a ser perseguida. Estava em liberdade condicional quando policiais bateram na sua porta e a prenderam novamente. “A tua sorte é que a gente não quer te matar. Você é uma bandida, uma preta, um frango”, relata sobre o tratamento que recebeu dos agentes. No presídio de Igarassu, em Pernambuco, trabalhou na enfermaria. “Eu sofria muito ao ver que as transexuais e travestis eram torturadas”, diz.  Com a ajuda da ONG GTP+ e o Ministério Público, o presídio ganhou um pavilhão para os gays, transexuais e travestis. “Na prisão você encontra pedreiros, médicos, engenheiros. Há diferentes tipos de pessoas. Muitos ajudaram a construir o prédio. Todo o dinheiro que eu ganhava na enfermaria era para comprar os materiais”, conta.  

Quando inauguraram o espaço Sem Preconceitos, no pavilhão E, em novembro de 2014, aqueles que ocupariam a ala fizeram uma festa. A construção conta com oito celas decoradas com desenhos feitos pelos próprios presos e frases contra a homofobia. Fernanda comemorou em dobro. Foi o dia que saiu da cadeia. “Após 11 meses, tendo os meus direitos violados, fui solta por falta de provas e testemunhas.”

Hoje, aos 24 anos, ela é coordenadora estadual de políticas afirmativas para travestis, transexuais e bissexuais, em Recife, e faz especialização em enfermagem com foco em saúde da família. “Este ano vou prestar vestibular para medicina novamente. Sinto que estou mais preparada”, revela confiante em um futuro melhor. 

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