“Aprendi que não podemos confiar em ninguém”, diz detetive particular

Detetive particular há doze anos, Claudia Cristina mostra seu olhar feminino sobre mentira, traição e comportamento humano

Comecei a trabalhar com isso há doze anos por influência do meu marido, que também é detetive. Esse é um mundo bem masculino, mas encontrei meu espaço. Aprendi muito com o meu trabalho sobre o caráter do ser humano. A cada dia me surpreendo – muitas vezes negativamente – com o que as pessoas são capazes de fazer. Como conseguem olhar nos olhos das pessoas, jurar de pés juntos que são inocentes quando estão mentindo. Amar e mesmo assim trair – apenas por trair. Desviar dinheiro, enganar a empresa em que trabalha há anos, roubar a própria família. Casos como esses fazem parte da minha rotina de trabalho. E são cada vez mais comuns.

Indiscutivelmente, o maior número de casos em que trabalho é relacionado a traição conjugal. E sim, eles (os homens) continuam traindo muito mais do que nós. Sempre fui muito contra o adultério e encontrei, nessa profissão, uma maneira de lutar contra isso: descobrindo a verdade. Tem crescido, também, o número de casos de mães que me procuram para seguir os filhos, com medo de que eles estejam envolvidos com tráfico de drogas.

Mas as mulheres também traem – e muito. Por incrível que pareça, a maior parte dos meus clientes são homens – eles são mais impulsivos na hora de contratar um detetive, e, consequentemente, acabam descobrindo mais. De uma forma ou de outra, parecem ser mais corajosos para descobrir a verdade.

Vejo uma diferença clara entre o comportamento dos meus clientes homens e mulheres. Elas contratam um detetive para fazê-los parar de trair. O homem, quando contrata é porque quer pegar no flagra e dificilmente consegue perdoar. Ainda tem muito machismo envolvido no comportamento dos homens em relação à traição, como aquela velha frase “eu posso, ela não”. Muito mais do que imaginamos. Eles de fato, se sentem no direito. Acham que tudo bem, faz parte da cultura masculina.

Acredite se quiser, mas quase 100% dos meus clientes querem dar o flagrante – precisam ver com os próprios olhos para, somente assim, se convencer daquilo que desconfiam. No fundo, há uma esperança de estarem enganadas. Costumo dizer, para essas pessoas que não lidam bem com a descoberta, que a verdade, por pior que seja, é digna. Mas, apesar disso, fico triste de ver como os valores familiares se perdem em poucos segundos e sem verdadeiros motivos.

O que mais me impressiona é a quantidade de casos envolvendo marido e amigas. E, pior: marido e irmã, esposa e irmão. Uma vez, acompanhei um caso em que as filhas nos contrataram por estarem desconfiando do pai. Quando fomos ver, ele estava traindo a mãe delas com a tia. Fomos até lá e elas o viram saindo do motel. Foi chocante, tadinhas! Ele ficou muito nervoso. Saiu correndo com o carro, quase atropelou as meninas. Pela felicidade da mãe, elas optaram por não contar para ela sobre o que aconteceu e o casal segue junto até hoje.

Apendi, trabalhando diretamente com a mentira, que não podemos confiar em ninguém. As pessoas traem por motivos banais. Os homens, principalmente. Eles são mais capazes de amar, olhar nos olhos, dizer que ama a esposa (e, de fato, amar) e trair. A mulher normalmente trai por motivos mais concretos. O homem pode ter tudo que deseja: família perfeita, esposa linda, amor envolvido, mas, mesmo assim, trair. A mulher ainda sente mais culpa. Pelo menos é o que eu percebo nos casos em que trabalho.

Como mulher – e como mãe – o mais gratificante, nessa profissão majoritariamente masculina, é poder libertar as pessoas que vivem no sofrimento de uma desconfiança, de uma vida regada a mentiras e traição. 

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