A vida dos outros

Devemos cuidar da nossa vida ou, pelo menos em alguns assuntos, patrulhar a vida alheia? Para nossa colunista Liliane Prata, nem sempre é uma decisão simples

Outro dia, minha filha reclamou, do alto dos seus quatro anos e meio, que um coleguinha na escola havia dito a ela: “Cuida da sua vida!”. Segurei o riso (ela fica muito brava quando eu rio durante seus assuntos sérios) e perguntei o que tinha acontecido. O ocorrido: o coleguinha estava colorindo o sol de verde e ela esclareceu que o sol precisava ser pintado de amarelo.

– Hmmm, bom, filha – eu falei. – Realmente, seu coleguinha pode colorir o sol da cor que ele achar melhor.
– Mas o sol é sempre amarelo! – ela protestou.
– Tá bom, mas primeiro que a gente não precisa pintar as coisas da cor que elas são na vida real e segundo que, veja bem, é o desenho dele, você tem que se focar na sua atividade, mesmo. No sol que você estava pintando.
– Por isso ele falou pra eu cuidar da minha vida?
– Pois é.

Mais tarde, pedi que ela fechasse a torneira enquanto lavava as mãos. Motivo: economia de água. Depois foi a minha vez de lavar e ela perguntou:

– Posso falar pra você fechar também ou é pra eu cuidar da minha vida?
– Ah, nesse caso pode sim, porque todo mundo precisa economizar água – respondi, de maneira simples. 

Mas fiquei pensando: de simples, aquela questão não tinha nada.

Boa parte dos conflitos do mundo adulto se dissolveria se a gente soubesse quando é o momento de cuidar da nossa vida e quando precisamos apontar o que o outro está fazendo. Infelizmente, a maioria das questões que concernem à vida em sociedade não tem clareza matemática – bem longe disso. E o resultado é que nos afogamos em um mar de opiniões variadas.

Muitos filósofos diferenciaram opinião de conhecimento – grosso modo, enquanto a primeira é variável, o segundo é verdadeiro. Realmente, há algumas opiniões muito mais bem fundamentadas do que outras. Muita opinião é inconsistente e não dá para ser levada a sério por quem entende da questão sendo discutida. Mas, às vezes, a situação é tão complexa que mesmo especialistas competentes no tema debatido divergem entre si – o que dizer então dos não especialistas… Qualquer questão multifacetada, que pode ser contemplada em diferentes vieses, é assim. O tal do conhecimento verdadeiro caía bem em tempos de verdades absolutas. Mas hoje sabemos que, de irrefutável, a existência tem pouco.

Você teve seus filhos por parto normal e os amamentou até os dois anos de idade, como recomenda a Organização Mundial da Saúde. E aquela mãe que agendou as duas cesarianas e não amamentou nem por uma semana, te diz respeito? Você deve pensar no bem-estar da criança, que, afinal, precisa ser bem cuidada… Ou deve cuidar da sua vida? Você que chora vendo imagens de bois no matadouro vai deixar os outros comerem carne sossegados? Ou de jeito nenhum, já que, afinal, comer carne é errado para todos, mesmo para os que não pensam assim?

Para responder minha filha, fundamentei meu argumento no fato de que a água é um bem comum. Ou seja, não adianta muito se eu fizer minha parte e você não fizer a sua. Mas o bem estar das crianças e dos animais diz respeito a todos, não? E, no caso de um moralista, a moral e os bons costumes precisam ser zelados por todo mundo, correto? Não adianta ele seguir com a vida correta dele se o resto da população está pisando na bola – os radicais religiosos que o digam.

Às vezes, fico pensando: a dificuldade de se chegar a alguns consensos nos mostra como o conhecimento racional tem seus limites. A razão simplesmente não dá conta de todos os problemas. Mas não me pergunte o que colocaríamos no lugar desse conhecimento racional. Quer dizer, no plano individual é fácil: qualquer um já experimentou momentos em que a razão pediu arrego e os sentimentos fundamentaram uma decisão. Mas como deixar que os sentimentos tomem a frente da vida em sociedade?

A ideia de lutar por aquilo em que se acredita é bonita. Mas, na prática, as crenças são várias e vira e mexe entram em choque umas com as outras. “O seu direito de usar um casaco de poliéster verde-chiclete termina onde começam os direitos do meu olho”, diz uma frase que adoro, da escritora americana Fran Lebowitz. Brincadeiras à parte, quando devemos nos meter na vida alheia e quando devemos ficar calados é algo que, muitas vezes, não é muito claro. Os juízes e advogados sempre se viram diante da complexidade desses impasses. E agora, em tempos de Twitter e Facebook, todos nós também.  

Liliane Prata é editora de CLAUDIA e escreve esta coluna toda quarta-feira. Quer falar com ela? Clique aqui!

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