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A maior parte dos sentimentos habita um terreno onde palavra alguma jamais pisou

Nossa editora e colunista Liliane Prata fala sobre a decepção de não conseguir se expressar direito – e como nos aproximarmos dos nossos sentimentos

Por Liliane Prata 14 out 2016, 18h12

“A maior parte dos sentimentos habita um terreno onde palavra alguma jamais pisou” – a frase é do poeta tcheco Rainer Maria Rilke e me lembrei dela esta semana, assistindo a O Homem Irracional, do Woody Allen. No filme, o professor de filosofia interpretado por Joaquin Phoenix frisa que o raciocínio não dá conta nem da confusão que todo mundo carrega dentro de si, nem da que a vida lá fora carrega com ela. Precisamos pensar e falar menos e agir mais, ele frisa, desencantado com a pequeneza do raciocínio perante a vastidão do mundo. Quem poderia discordar? Acho que quase todo mundo sente esse descompasso. Estamos o tempo todo jorrando palavras nos almoços com os amigos, com os colegas de trabalho e, claro, nas redes sociais. Cada um dos nossos silêncios luta para sobreviver nos nossos banhos e encontros sociais – na nossa cabeça ou com um interlocutor à nossa frente, ou, o mais frequente, na nossa cabeça e com o interlocutor à nossa frente. Mas, no fundo, a gente sabe bem do que Rilke estava falando.

Sabemos que, quando estamos naqueles momentos de reconciliação com a vida – sentindo o prazer de nadar no mar, ou abraçando nossos filhos não aquele abraço automático, mas aquele abraço do tipo plenitude absoluta… A gente sabe que a sensação que nos invade por inteiro é completamente inalcançada pelas nossas frases. Que adjetivo dá conta desse transbordamento todo? Que legenda no Instagram?

Por exemplo, nas férias, quando a gente chega ao destino tão desejado e caminha por aquela cidade onde tudo é novo: o ar, o semblante das pessoas, a arquitetura, os cheiros… A gente pega o celular e manda no WhatsApp para quem quer que seja: “Estou amando aqui” ou “Que lugar incrível!”. O que a gente sente naquele lugar é tão mais vasto do que esses comentários, é tão mais esmagadoramente forte, pelo menos se você ainda conservar essa vulnerabilidade, esse encantamento pelo vivo… Que a fala chega a ser decepcionante.

Quanto mais lemos, quanto mais vocabulário acumulamos, e quanto mais refletimos e nos abrimos para a nossa sensibilidade, mais nosso discurso fica longe dos clichês, mais ele fica afinado com a riqueza sensorial das experiências que vivenciamos. As palavras não alcançam a experiência, não no sentido de traduzi-la, mas, se conseguirmos melhorar nossa capacidade narrativa, nossa sensibilidade é melhor transposta para o plano da linguagem. E que prazer é conseguir falar, para os outros e para nós mesmos, de um jeito que corresponda mais ou menos bem ao que se passa dentro de nós!

Não à toa a literatura e a poesia nos tocam tanto – a autora ou o autor, com frases elaboradas e certeiras (não necessariamente difíceis, rebuscadas!), consegue fazer com que acessemos um novo plano de consciência em nós. Nós elaboramos melhor nossa vivência, nos abrimos ao mundo de sempre com um olhar tão novo que nem parece o mundo de sempre. É o que mais gosto ao ler. É o que mais gosto depois de escrever: quando um leitor me fala que nunca tinha visto o mundo, a vida, ele mesmo dessa forma.

Sem palavras, a gente não consegue arrumar o que tem dentro, como diz Graciliano Ramos no seu lindo Vidas Secas. Mas que a gente não se esqueça do que Rilke nos lembrou: as palavras não abarcam a magnitude das nossas sensações. É uma percepção tão maravilhosa e forte, que diz respeito a tantas coisas, mas que, ao vir à minha mente durante o filme, me fez lembrar do poder da literatura, da palavra bem cuidada, bem pensada. Em tempos de notícias rápidas e digitação frenética no celular, é sempre bom lembrar por que vale a pena arranjar tempo para ler textos que demandam uma pausa maior – e que nos presenteiam com um universo novo que revigora nossa vida de todo dia.

Liliane Prata é editora de CLAUDIA e escreve semanalmente aqui no site. Para falar com ela, clique aqui.

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