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A caminhoneira que cruza o país de norte a sul por 3 mil km

Finalista do 21º Prêmio CNT de Jornalismo, esta reportagem especial da editora Patricia Zaidan levou CLAUDIA para dentro do caminhão de Viviane de Sá Soares, que cruza as rodovias do Brasil há quase 10 anos.

Por Patrícia Zaidan Atualizado em 28 out 2016, 05h51 - Publicado em 2 out 2014, 22h00

Um bitrem desce com voracidade pela BR-153. Parece um ente indomável comendo o asfalto gasto antes da divisa de Minas com Goiás. Com dois semirreboques que levam até 57 toneladas, está no encalço do Scania branco e amarelo, carregado com 11 toneladas de fogões e dirigido pela goiana Viviane de Sá Soares, 26 anos, a Vivi. Ela acelera e se sente só um pouco mais potente: “Estou vigiando esse bitrem. Pode ser que eu tenha que sair da frente”, diz. “Ninguém segura um monstro desses quando toma embalo para aguentar a subida aí na frente.” Vivi tem um olho nele e o outro no tráfego intenso no contrafluxo da pista simples. Não dá para apelar para a faixa da esquerda nem existe escape à direita nessa tripa de asfalto que liga o Norte ao Sul. Nascida no governo Kubitschek, famosa por acidentes, roubos de carga e pelos desafios no trecho Belém-Brasília, a 153 é uma das quatro rodovias mais importantes do país, indispensável para escoar a produção de grãos, eletrônicos, carnes, combustíveis, defensivos agrícolas.

“Segura. Segura firme!”, avisa a mulher, decidida a entrar com tudo em um buraco da pista. Em velocidade ascendente, ela deixa, finalmente, o adversário comendo poeira. Tem uma impressionante destreza ao volante. Perto dos 17 anos, pegou a chave do caminhão com que trabalhava o pai, Miguel, e saiu pelo Setor Rio Branco, em Goiânia, onde vive com a família. “Ninguém me ensinou a dirigir. Nasci num caminhão. Só desci aos 7 anos para ir à escola, mas, de saudade dele, tinha febre todo dia.”

A aventura está na alma dessa motorista de mãos miúdas, porte esguio, aparelho nos dentes, riso franco – que ela abre para poucos -, sempre de camisetas leves e shorts, que revelam as coxas claras. “Faz calor, a cabine não tem ar-condicionado”, justifica. Seus pés, descalços, acionam os pedais, e as sandálias Havaianas servem apenas para descer nos postos. Vivi emenda um frete no outro; demora até 20 dias para voltar para casa. “Preciso trabalhar, quero conquistar muitas coisas, ter independência, uma pequena frota.” Ela toca um dos dois caminhões de Miguel. Em breve, entrará em um financiamento para comprar o próprio cavalo mecânico. “Terá de ser no nome do meu pai”, queixa-se. “O BNDES não negocia com quem está começando, o que me atrapalha.” Vivi está crescendo. Foi babá, auxiliar de limpeza, costureira industrial e fez o começo de administração de empresas. “Abandonei. A faculdade é teórica, não ensina a organizar uma empresa e a lidar com pessoas.” Sua trajetória ajuda a entender o Brasil, o que ele oferece para o avanço das mulheres e quanto se exime da responsabilidade de garantir educação de qualidade, saúde, direitos reprodutivos, segurança, condições de trabalho e civilidade. Pegar carona por cinco dias no caminhão de uma mulher do Centro-Oeste é o começo da imersão que nossa equipe faz nas cinco regiões para sentir o impacto de tudo isso na vida das brasileiras.

Quinta-feira: preconceito, lua e liberdade

São 5 horas da madrugada, um friozinho confirma a chegada tardia do outono a São Paulo. A carreta de 15 metros de extensão e 4,40 de altura está engatada no cavalo. Vivi terá que entregar os fogões em Belém, a 3 mil quilômetros, na terça, sem atraso. Tinha feito as unhas e guardado o esmalte no armário da cabine, coberto de pelúcia vermelha, onde mantém remédios, café, macarrão instantâneo, laptop e DVDs, que assiste na TV a bordo. Ao alcance da mão, deixa balas e chocolate, que adora, e um garrafão térmico com água. A cama para duas pessoas fica atrás do banco, e sobre ela vai a mala. “Trago 25 pares de bermuda e blusa.” Dispensa pijama (dorme vestida para o dia seguinte), nunca esquece do biquíni: “Posso ir a uma praia de rio me banhar”. No painel, coloca a Bíblia evangélica, lanterna e carregadores de celular. “Tenho três. Sinal de telefonia na estrada é um horror”, afirma.

Não existe facilidade para caminhoneiros. No Brasil, eles são 1,2 milhão, transportam 58% da carga, o equivalente a 16 bilhões de reais em frete, segundo o IBGE. A atividade é perigosa, mata 8 mil por ano, deixa 100 mil feridos em assaltos ou acidentes nas vias arrebentadas do país. Isso leva a um déficit de 100 mil profissionais e ao aumento de mulheres no setor – muitas, aliás, viúvas dos vitimados. São 176 mil habilitadas para todo tipo de caminhão. Apenas 13,7 mil delas para carreta; 12% vivem no Centro-Oeste, como Vivi. Se a estrada é árdua para homens, imagine para elas. Há postos sem sanitário feminino. O banho é invariavelmente frio, os pátios onde a motorista estaciona para dormir são escuros, ocorrem estupros e o preconceito é o de sempre. “Acham que sou auxiliar do caminhoneiro ou prostituta”, explica.

Em Barretos (SP), quatro homens deixam o balcão do bar e correm para ver aquela mulher com jeito de menina manobrar a enorme carreta em um espaço mínimo. No Posto Marajó, em Aparecida de Goiânia (GO), onde prostitutas não podem trabalhar, um funcionário suspeita de Vivi: “Como entrou aqui?” Ela conta. Ele desdenha: “Você? Dirigindo uma carreta? Ah, vá. Conta outra”. Viviane nem se estressa: “Pensam que sou de engolir caroço”. A gíria significa errar a marcha, o que é vexame. “Vou mandar escrever no para-brisa: ‘O seu preconceito é o seu fracasso e a minha vitória’.”

A goiana assumiu o Scania em dezembro de 2013. Por cinco anos, tinha sido assistente do pai. Parou de dirigir porque Leonardo Soares, 31 anos, com quem se casou em 2010, preferia que ela levasse vida de cidade. No dia seguinte à segunda separação deles, Viviane assumiu o volante. Em março, reatou com Léo. Deu a ele um prazo para tirar habilitação na categoria E, de motorista de carreta. “Ele vem trabalhar comigo. Mas avisei: ‘Se der mole, desce do meu caminhão.'” A goiana vai criar a própria empresa, confirmando a tendência no Centro-Oeste, onde 56% dos negócios abertos têm uma mulher na proa, conforme o Sebrae. Há algo que incomoda essa empreendedora: perder dinheiro. Às vezes, fica cinco ou seis dias com o caminhão parado na porta do galpão de uma rede de lojas onde descarregará a mercadoria. “Precisa ter uma lei para mudar isso.”

É na estrada que se solta: “Quer vida melhor? Ontem peguei uma lua cheia linda. Desliguei o farol, ela iluminou o asfalto. Eu namorei a lua”. O vento sopra o rosto e alguns fios dos seus cabelos, presos em um rabo de cavalo. Ela se sente a mulher mais livre do Brasil. “Faço o que quero. Se não tenho vontade de conversar, fico calada. Se me sinto só, converso comigo, arrumo os pensamentos.” Quase 17 horas depois da partida, às 21h35, Viviane chega exausta a Goiânia. Vai dormir em casa.

Sexta: A família que decidiu mudar de rumo

Entre as hortênsias lilases do quintal, Viviane beija Idelça, 67 anos, sua avó. A mãe, Maria, 44 anos, uma morena de cabelos pretos e longos, se aproxima para um abraço a três. Recordam a matriarca, Rita, morta no ano passado. As quatro gerações da família ilustram o esforço da brasileira para mudar a ordem patriarcal. Elas forçaram a porta para ter acesso a direitos que o Estado demorou a providenciar. Rita, mãe de Idelça, teve 14 filhos na zona rural. “Quando meu bisavô bebia, ela, com medo de morrer, se escondia no mato com as crianças”, diz Vivi. Idelça, mulher meiga e esperta, deu um breque à fecundidade depois da quinta filha.

Eram os anos 1960. Ela e o marido haviam perdido o que conseguiram na roça e se mudaram para a capital. “Para meus filhos não passarem fome, virei lavadeira”, relata. Engomava até 400 toalhas de mesa de um clube. “Eu queria parar de ter crianças, mas os médicos não ensinavam, os maridos mantinham a gente quase trancadas em casa.” Então, soube que uma conhecida usava um comprimidinho todo dia para evitar gravidez. Por sua conta e sem receita, passou a comprar anticoncepcional. Seis anos depois, em uma pausa, teve um menino. Da sua prole, ninguém lhe deu mais do que dois netos. Maria ligou as trompas assim que teve Amanda, 18 anos, uma universitária bonita que corta o bairro de moto. Vivi usa contraceptivo injetável e vai adiar a maternidade. “Não está nos meus planos descer do caminhão nos próximos anos para ter um bebê”, afirma. “A vida vem melhorando para nós”, comenta Maria. “Não pude estudar. Era doméstica de dia e, à noite, sem ônibus no bairro, eu não podia ir à escola.” Aprendeu sozinha a administrar os caminhões do marido, ex-frentista de posto. Maria compra peças, paga impostos e prestações. “Sou o escritório da firma.”

Idelça gosta de ver como as filhas e netas enveredaram por outro caminho: “Na minha época, a gente sabia que o marido se engraçava com mulheres, tinha amantes. Eu reagia do meu modo, mas não podia falar nada. Hoje, elas não toleram tudo caladas nem apanham”. Debora Diniz, professora de pós-graduação em política social da Universidade de Brasília, confirma que a violência doméstica na Região não é a mais alta do país, embora as mulheres do Distrito Federal sejam as que mais teclam 180, o telefone da central do governo que informa onde buscar socorro em agressões. Ela aponta outro problema grave: a morte materna. “O aborto clandestino e inseguro ainda provoca muitas vítimas.” Contra isso, uma das coisas a fazer é flexibilizar a lei que criminaliza a interrupção da gravidez indesejada, o que o Congresso Nacional tem rejeitado.

A taxa de fecundidade da Região é de 1,92 filho por mulher, enquanto a do país é de 1,90. A capital federal se destaca com a menor, 1,74. Analisando a família de Vivi, Debora explica: “Elas são uma representação autêntica do Centro-Oeste: não migraram para cá, vêm de família extensa, rural, provavelmente de origem indígena, acompanham o perfil demográfico local e chegaram a isso pelas escolhas que fizeram”. Ressalta que a figura da caminhoneira é forte, redescreve o feminino e confirma a tendência local de busca por um trabalho cada vez mais urbano e tradicionalmente masculino. Os salários seguem os do Sudeste, com Brasília, o maior holerite do país, puxando a média para cima. O ganho de Vivi, entre 2,5 mil reais e 3 mil, está além da média local. Com o caminhão próprio, faturará de 8 mil a 10 mil reais, mas arcará com muitas despesas. Só de diesel, o trecho São Paulo-Belém consome 2,5 mil reais. Mulheres negras e índias com menor escolaridade e baixa empregabilidade são a ponta frágil na Região e, sem ajuda do poder público, não poderão bancar escolhas como as das herdeiras de Idelça, reflete a professora. Mesmo assim, o país conseguirá reduzir em 75% a morte materna até 2015, cumprindo uma das oito metas estabelecidas no programa Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODMs), traçado pelos países-membros da ONU. “Nos anos 1990, morriam 141 mulheres em 100 mil nascidos vivos. Em 2010, eram 68 mortes”, diz José Eustáquio Diniz Alves, professor da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE. “O número ainda é alto. Países desenvolvidos e com aborto livre praticamente eliminaram a morte materna”, pondera ele. Os outros sete ODMs são: diminuir a miséria, dar educação básica de qualidade, promover a igualdade entre os sexos e a autonomia feminina, reduzir a morte infantil, combater a aids, a malária e outras doenças, garantir sustentabilidade ambiental e estabelecer parcerias para o avanço das nações.

Sábado: O amor é tudo e nada

Na manhã de céu azul sem nuvens, Viviane retoma a estrada; quer chegar à divisa com o Tocantins antes da noite. Pela mesma Belém-Brasília que ela corre, passa a maioria das 33 rotas de tráfico de mulheres, mapeadas pela CPI da Câmara dos Deputados sobre o tema. A rede é mais complexa no Mato Grosso do Sul pelas ligações com o Paraguai e a Bolívia. No livro Tráfico de Pessoas – Quanto Vale o Ser Humano na Balança Comercial do Lucro?, Priscila Siqueira e Maria Quinteiro denunciam o turismo sexual em barcos que navegam nas águas do Pantanal, oferecendo a estrangeiros garotas de 14 e 15 anos.

As árvores baixas, de galhos retorcidos e beleza incomparável que pontuam a BR-153 lembram que o compromisso do país em preservar os biomas sofre ameaças. A produção agrícola e principalmente a pecuária têm provocado alterações na flora e na fauna; Goiás, com 90% do bioma alterado, enfrenta os maiores riscos. “Metade do cerrado já está devastado”, afirma José Eustáquio.

Sobre saúde, Viviane comenta que o vírus HIV é uma preocupação em casa. “No bairro, ouço falar de casos novos.” Todo ano, ela se submete ao exame e leva Léo para fazer também. “Na estrada, postos como um no Cariri do Tocantins dão camisinhas de graça”, conta espetando o pendrive no rádio, de onde saem modas de viola como Cabocla Tereza, sertanejo universitário, o funk do beijinho no ombro, de Valesca Popozuda, Caetano, Gal, Elis. Agora, toca Adriana Calcanhoto, com quem Viviane canta: “Que é pra ver se você volta/ Que é pra ver se você vem/ Que é pra ver se você olha pra mim”. O que é o amor? Ela responde: “O amor é tudo. E nada ao mesmo tempo. É bom demais. Mas tem que ser com a pessoa certa”. Vivi não recolocou a aliança no dedo, mantém um pé atrás: “Para reatar, Léo não trouxe sequer uma flor”. A psicanalista paulista Rose Galacini observa: “A mulher pode tornar-se independente, assumir o poder, ter o dinheiro, a decisão. Mesmo assim, ainda chora pelo homem”.

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A goiana gosta de dançar, mas o tempo de diversão anda curto. Para esta noite, havia planejado estacionar num lugar com mais estrutura. Como se atrasou, tem que pernoitar onde não há nada para comer além de biscoitos. O jantar se restringe a suco de polpa de abacaxi. Em quase todas as mesas, cerveja e cachaça; afinal, é sábado. Vivi tomou um porre aos 17, em uma festa, e o seu celular sumiu. “Detesto perder o que compro com sacrifício.” Fez uma promessa: se o achasse, não beberia mais. Também não usa o estimulante dos carreteiros, o rebite. Além do remédio tarja preta para emagrecer, vendido até na bomba de óleo e que deixa o motorista ligadão, a cocaína está em alta. Ela mostra os locais em que a “farinha” é oferecida. “Eu não sabia o que era. Quando me disseram ‘Ali você pode comprar farinha’, eu perguntei: ‘De mandioca ou de milho?’ “

Os homens miram os shorts de Vivi e ela não dá bola. Impõe respeito com um olhar duro e distante; eles nem se atrevem. Sexo na cabine, fetiche que povoa o imaginário dos usuários da estrada, passa longe. “Só transei aqui com o meu marido”, diz. Queria ser modelo na adolescência, sabe que é bonita, mas não correspondeu a elogios sinceros e bem-intencionados quando estava separada. “Eu me senti muito bem, mas não deixei rolar.”

Retrato da mulher brasileira: 3.000 km com Vivi, a caminhoneira que cruza o país de norte a sul

Depois de dias tomando banho gelado, Vivi encontra em Belém uma banheiro com água quente
Foto: Marcio Scavone

Domingo: Quem segue a lei?

Vivi pula da cama e brinca com ela mesma: “Não vou tirar leite da vaca. Por que acordar tão cedo?” Detesta deixar as cobertas. São 5h50, e ela tem que tirar – isso, sim – o atraso da véspera. Carga fora do prazo gera multa de 800 reais. Confere os 19 pneus, tocando neles com uma marretinha, e segue. Se um deles furar, e não for dianteiro, ela pode rodar 100 quilômetros até um borracheiro. Já no Tocantins, carimba a papelada no posto fiscal. Para cada dez caminhões, transitam ali dois ônibus e um carro de passeio. É o trajeto mais pesado; não dá para piscar. “As leis existem. Mas quem cumpre?”, critica. Vivi se refere à lei do descanso do caminhoneiro, em vigor desde 2012, que determina meia hora de relax a cada quatro horas de estrada. “Parar como? No meio do nada? Devia ter pontos de acolhimento. Eu abriria a rede debaixo da carreta ou numa árvore.”

Quando está com carga mais valiosa, é rastreada – ou até escoltada por homens armados – e não pode interromper a viagem sem permissão da empresa, que vigia à distância. Outro embaraço é com a carta-frete, proibida em 2010, mas vigente no submundo da estrada. Assinada pela transportadora, é um vale para comida e diesel. Obriga o motorista a trocá-la em determinados postos, que em geral cobram ágio de até 30%. Hoje, um cartão magnético ou o adiantamento na conta do motorista substituem a carta. Vivi não carrega dinheiro para não perdê-lo em assaltos; roda até um posto que aceita o cartão. Araguaína, Figueirópolis Miranorte, Barrolândia, Gurupi, Fátima e Talismã. Tantas paradas, quantas histórias. Ela narra episódios vividos nessas cidades tocantinenses e em outros estados com os quais tem aprendido como funciona o Brasil, como agem os homens, como eles se comportam com as mulheres. Nas andanças, só não se sentiu segura no Nordeste. “O motorista é mais machista. Joga o caminhão em cima quando tem mulher no volante.” Em Ibó (PE), viu um posto com a parede inteira crivada de balas.

Segunda: Poeira, acidente e peixe frito

A barreira fiscal do Maranhão é a quarta; tem mais uma no Pará. O dia está lindo, quente, um naco de areia no Rio Tocantins enfeita a BR-153, entre Aguiarnópolis (TO) e Estreito (MA). Ela gosta de água; tem sérias intenções de fechar o caminhão por uma tarde e se deleitar ali ou no Parque Aquático Freitas, mais à frente, em Imperatriz (MA). Há um movimento enorme de pedestres, mulheres cozinhando, gente comprando frutas e bebidas nas barracas alegres que se espicham à beira do caminho. E um desvio chato também: a erosão levou parte da estrada entre Imperatriz e Açailândia. A via está coberta de poeira. “A chuva pesada de sábado – recorda Vivi – podia cair agora.” Estava muito escuro, não se via um palmo à frente do nariz; ela franziu a testa e meteu a cara na tempestade. Chamou Jesus e emendou ao apelo alguns palavrões. “Faz parte. A gente chora e ri do que diz.” Ela enumera os caminhões quebrados. Um, envolvido em acidente feio: cheio de galinhas mal acomodadas na carroceria, atropelou três operários que trabalhavam na margem. Há penas pela pista toda. Os operários morreram. Vivi buzina, puxa o microfone do rádio faixa cidadão para avisar dois caminhoneiros que passam. São agregados, como ela, à Supersonic, empresa de logística com sede em São Paulo com quem fecha seus contratos de trabalho. É a única mulher entre os 120 profissionais que transportam as 450 carretas da firma, arrecadando cerca de 10 milhões de reais por mês.

Os marmanjos apelidaram a colega de Bailarina. Um dia, Vivi acordou brava, então virou Garotinha do Mal. “Por fim, me chamam de Penélope. Isso eu curto.” No almoço, novidade: tambaqui frito, na Vila Arco-Íris. Na rodovia, o hit é o bife a cavalo com cebolas puxadas na frigideira. À noite, sob trovoadas, raios, pingos grossos, o Scania P-94, de 310 cavalos de potência, ano 2006, entra em Belém. É tarde, Vivi não pode descarregar. Ancora no Posto Marajó, encontra o primeiro banho quente, em banheiro claro, e mais de 700 caminhões no pátio bem escuro.

Terça: o fim e o começo

A Baía de Guajará brilha ao sol das 12 horas. No Porto Passarão, a goiana apoia o equipamento hidráulico embaixo do caminhão e desce os pés da carreta. Com as mãos sem luva, solta as quatro mangueiras e liberta o cavalo. Não se suja na operação. Oficializa a entrega da carga, que, posta na balsa Jeany Saron, com outras 44 carretas, seguirá rumo a Manaus. Em horas, Vivi zarpará para Campo Grande com 20 toneladas de ar-condicionado, no seu cotidiano apaixonante e sem rotina. “Quer saber meu maior sonho?”, pergunta para ela mesma revelar: “Ouvir um concerto da Orquestra Sinfônica de São Paulo, na Sala São Paulo. Qualquer dia, paro o caminhão por lá.”

Centro-Oeste

A vida nos estados de Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul e no Distrito Federal

Número de mulheres: 7,486 milhões

Matriculadas na graduação: 390,5 mil

Média Salarial: o rendimento delas por hora trabalhada é de 10,10 reais, enquanto o dos homens é de 13 reais

Campeãs em atividade física: 15,6% fazem exercícios por mais de 30 minutos, cinco vezes por semana. A média nacional é de 11,7%

Taxa de fecundidade: 1,92 filho por mulher

AIDS: A cada 100 mil habitantes da Região, 11,5 mulheres são portadoras de HIV

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