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5 passos de Comunicação Não Violenta para um relacionamento mais feliz

Abordagem utilizada em zonas de guerra e pela polícia do Rio de Janeiro defende uma comunicação genuína que pode ajudar a melhorar suas relações interpessoais: livre-se de rótulos, escute (de verdade) e não tenha medo de dizer o que sente

Por Aline Takashima (colaboradora) Atualizado em 22 out 2016, 20h11 - Publicado em 13 jul 2016, 07h47

A psicóloga Sandra Caselato e o Mestre em Relações Internacionais Yuri Haasz consideram-se jogadores de frescobol desde que conheceram os conceitos de Comunicação Não Violenta (CNV) em 2009. Antes disso, jogavam tênis. O casal utiliza essa analogia para explicar a técnica desenvolvida pelo americano Marshall Rosenberg. Enquanto no tênis um tem que vencer o outro, o objetivo do frescobol é não deixar a bola cair. O método consiste em escutar atentamente a si mesmo e os outros e estabelecer uma comunicação genuína. “Nós tentamos entender e expressar mais o que estamos sentindo”, resume a psicóloga.

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Além de vivenciar a Comunicação Não Violenta na vida pessoal, Sandra e Yuri dão cursos e treinamentos sobre o método, tanto para empresas quanto em grandes zonas de conflito, como é o caso de um encontro anual que ocorre em Israel e reúne cerca de 150 pessoas, dentre elas ex-soldados israelenses e ex-guerrilheiros palestinos. “O outro se sente acolhido e baixa a guarda quando alguém oferece escuta profunda e acolhimento. A CNV provoca este efeito de se enxergar e enxergar o próximo”, explica Yuri. 

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Sandra e Yuri oferecem curso de Comunicação Não Violenta em Israel e utilizam o método no próprio casamento

A fonoaudióloga Mônica Azzariti, finalista do Prêmio CLAUDIA na categoria Trabalho Social, apresentou o metódo para mais de três mil policiais em Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) no Rio de Janeiro. Ela defende que a técnica reduz os riscos de erros e mortes em ocorrências policiais. “Não é só tiro, porrada e bomba. Os policiais também querem se comunicar e conversar com a população”, defende. O Tenente Coronel André Luiz de Souza Batista, co-autor dos livros Tropa de Elite 1 e 2, explica que a CNV tem efeitos práticos nos trabalhos dos policiais. “Nosso público interno é exigente. As instruções da professora Mônica revelam que mesmo diante de críticas e circunstâncias assustadoras você está no comando das suas ações.” Ele foi negociador do Bope no caso do sequestro do ônibus 174, no ano de 2000 – em que 10 pessoas foram reféns e uma foi morta -, antes de ter conhecido os métodos da CNV. 

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Fonoaudióloga Mônica Azzariti ensina técnicas da Comunicação Não Violenta para policiais, advogados e fonoaudiólogos

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Os resultados deram tão certo que a fonoaudióloga prepara o curso de Negociação de Reféns do Bope. Embora adaptado para o trabalho e a realidade do Rio de Janeiro, as técnicas também são utilizadas na vida pessoal do batalhão. O Tenente Coronel Batista acredita que os seu casamento de cinco anos poderia ter um desfecho diferente da separação se tivesse utilizado as técnicas de Comunicação Não Violenta. O co-autor dos livros Tropa de Elite explica que os policiais sentem-se constantemente ameaçados. “As técnicas da CNV ajudam a entender que as ações podem ocorrer sem intolerância e incompreensão. Em momento de ruptura de relacionamento não é necessário mágoas ou agressões, afinal, tudo passa.”

Confira alguns pontos sobre a Comunicação Não Violenta que pode aplicar no seu relacionamento – e como fazê-lo:

1. Assuma as próprias responsabilidades 
“Jogo do culpado” é um combate clássico entre casais, diz Sandra. Neste padrão, um coloca a culpa no outro ao invés de dizer com clareza quais são as suas necessidades. “O que a CNV propõe não é dizer de quem é a culpa, mas assumir a responsabilidade pelos próprios sentimentos, necessidades e ações.” As concessões seguidas de cobrança são prejudiciais para o casal. “Quando você faz algo que odeia para agradar o outro e depois diz no meio de uma briga ‘olha, você tá me devendo’ é uma relação onde um ganha e o outro perde.” A corda não pode pender mais para um lado do que para outro. Um relacionamento não deve ser jogo de forças. 

2. Esqueça a famosa DR e converse (de verdade)
Engana-se quem pensa que a Comunicação Não Violenta é uma fuga das discussões. Ao contrário, ao expressar aquilo que sente e do que realmente precisa, os conflitos ocorrem com mais frequência. A questão é como lidar com as divergências. Sandra explica que o debate é importante e positivo para o casal, quando se sabe aproveitá-lo. E é muito diferente das discussões infrutíferas onde o diálogo é banalizado e ninguém está disposto a ouvir. “A maior parte das brigas ocorrem porque a gente não consegue compreender o outro e se expressa por meio de julgamentos e culpa. Ao conversar de maneira genuína, escutando a outra pessoa e dizendo o que ocorre comigo em vez de culpar o outro, muita coisa muda. E isso traz mais alegria e vida para os dois.” 

3. Escute mais
Quando Sandra e Yuri percebem que estão no meio de uma briga, sabem que é hora de respirar. Logo, o casal dá dois passos para trás. Ou seja, recomeçam a conversa, mas, dessa vez, buscam entender e escutar o parceiro de maneira mais profunda. “A maior parte das brigas acontece porque um diz algo e o outro tem uma interpretação errada do que foi dito. Acha que entendeu, mas na verdade nem está escutando. Por isso é muito importante confirmar com o outro se o que estou entendendo é realmente o que o outro quis dizer. Esse simples ato transforma e evita muitos conflitos”, explica a psicóloga. 

4. Diga o sente
As mulheres têm mais dificuldade em falar e aceitar as suas próprias necessidades que os homens, pontua Sandra. “Na nossa cultura, deixamos as nossas vontades de lado e atendemos as expectativas do marido e dos filhos.” A instrutora revela que ainda realiza um certo esforço para se colocar em pé de igualdade com o companheiro. “Via esse padrão na minha avó, um pouco menos na minha mãe e algum resquício em mim. É um exercício constante”, relata. 

5. Livre-se de rótulos
O que é certo e o que é errado? Quem é bom e quem é mau? Em uma cultura em que certas pessoas julgam-se superiores que outras, a categorização justifica a dominação – tanto em relacionamentos familiares até mesmo entre povos – defende Marshall Rosenberg, criador da Comunicação Não Violenta. “O que eu espero de mim como bom marido e o que eu espero da Sandra como boa esposa? Esses hábitos de pensamento limitavam diversas situações no nosso relacionamento”, relembra Yuri. Ao invés de pré-suposições e check lists automáticas, o casal preocupa-se em compreender as próprias necessidades e as do outro. “Nós abrimos espaço para co-criação. Pensamos: ‘Que outras maneiras existem para atender as necessidades de nós dois e não somente um de nós?’ Esse espaço de criatividade não existe no modo convencional de agir.” 

Se os ensinamentos soam óbvios, a prática é bem desafiadora. Yuri defende que o foco não deve estar na dificuldade, e sim nos resultados que a Comunicação Não Violenta pode trazer. Para a mudança acontecer basta que alguém comece. “Pare de contra-argumentar e escute. Esse ato de acolhimento legitima o que o parceiro está sentindo.”

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