48% dos jovens acham que mulher só deve sair acompanhada por seu parceiro, diz pesquisa

Encontro discutiu como os jovens enxergam a violência doméstica e as novas formas de violência na nova geração, com base nos resultados de pesquisa realizada pelo Instituto Avon.

Como o machismo pode ser percebido na geração atual? O que é considerado violência? Como a internet tem influenciado os relacionamentos? Esses foram alguns dos temas discutidos no “Fórum Fale Sem Medo”, realizado para discutir uma pesquisa realizada pelo Instituto Avon, nesta quarta-feira (03).

 Renato Meirelles, presidente do Instituto Data Popular, responsável pela pesquisa, destacou que o machismo está indiscutivelmente presente na sociedade. De acordo com os dados, de 2 mil jovens entrevistados, 48% acham incorreto que a mulher saia com os amigos sem o parceiro, (sendo que 49% dos homens admitiram fazer isso rotineiramente). Além disso, o uso da internet faz com que fotos e vídeos de cenas íntimas de fácil acesso nos celulares se tornem mais um mecanismo de controle dos homens sobre as mulheres.

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 A cantora Negra Li, a pesquisadora da FFLCH/USP Heloísa Buarque e a especialista em pesquisas de opinião e comportamento Vera Aldrighi participaram do painel que discutiu a violência doméstica e o machismo entre os jovens, mediado por Joana Chagas, representante da ONU Mulheres no Brasil. Para Vera, a violência sempre existiu e está crescendo em todas as classes sociais. Ela cita as teledramaturgias, que levantam o tema do machismo em forma de estupro, abuso sexual ou relações possessivas, mas não da forma correta. “Quase sempre o personagem que tem um ato machista é o bonzinho, e não é recriminado”, lembra.

Foi levantado também que jovens que têm contato com a violência em casa tendem a repetir o ato. “Não sabia desses números alarmantes”, disse Negra Li, que é ativista dos direitos humanos. “Fiquei surpresa ao perceber que meu pensamento também é machista, pelo modo que fui criada”. “É a cultura que torna natural o comportamento agressivo do homem”, disse Renato Meirelles. “Para desnaturalizar a violência é preciso informar à sociedade quais são os estereótipos de gênero, afirmou Alessandra Ginante, vice-presidente de RH da Avon do Brasil. “Só assim é possível acabar com eles.”

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Patrícia Zaidan, editora de CLAUDIA, mediou o painel que contou com a promotora de Justiça do Ministério Público do Estado de São Paulo Silvia Chakian, a psicóloga Daniela Rozados, que integra o Grupo PoliGen de Estudos de Gênero da Politécnica/USP e a jornalista Bárbara Lopes, da área de juventude da ONG Ação Educativa, que oferece apoio e capacitação a adolescentes e educadores.

Silvia ressaltou ainda que a tecnologia vem sendo usada para a fiscalização da fidelidade e do sexo em um relacionamento. “Hoje em dia a prova de amor é dar a senha do celular ou do Facebook ao namorado”, afirmou. Muitos exigem como demonstração de amor o envio de fotos sensuais. O que culmina, posteriormente, na divulgação dessas imagens em um ato de “vingança”. A cyber vingança ou pornografia de revanche (último tema discutido) é usada para retaliação. O ex divulga o material com o objetivo de humilhar ou de pressionar a mulher a reatar a relação. A vítima acaba tendo sua vida social, profissional e pessoal prejudicadas com a exposição em sites, emails e redes sociais. O resultado: familiares, amigos e colegas de trabalho — e até mesmo a Justiça – sentenciam a mulher. Atribuem a ela a culpa de ter posado nua. Há inclusive sentenças judiciais poupando o agressor, com a justificativa de que a mulher que se deixou fotografar é corresponsável.

 Foi esse o tema do painel de Beatriz Accioly, pesquisadora do Núcleo de Estudos sobre Marcadores Sociais da Diferença do Departamento de Antropologia da FFLCH/USP e especialista no tema da violência contra a mulher na web, Mario Higuchi, promotor de Justiça do Ministério Público do Estado de Minas Gerais e titular da Coordenadoria Estadual de Combate aos Crimes Cibernéticos do MPMG, e Marta Rodriguez, professora da Escola de Direito de São Paulo da FGV e pesquisadora do Núcleo Direito e Democracia do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

 Para Beatriz, o imaginário da sociedade brasileira ainda impõe que a sexualidade da mulher deve ser exercida de maneira privada – ou até interditada quando ela está ligada exclusivamente ao prazer. Assim, o homem expõe as imagens da intimidade dela para “colocá-la em seu devido lugar”. 

 Em casos como esse, muitas vezes, as mulheres é que vão para o banco dos réus e têm sua conduta questionada. “Perguntam a ela: ‘Se não queria ser abusada, por que usou decote e saia curta?” E também: “O que você fez para ser estuprada?'” Em casa, na rua e no universo digital, lembra Marta, “a culpa  ainda recai na vítima pelo crime cometido contra ela.”

 Não por acaso, “todos os dias, 22 mil mulheres ameaçadas pedem ajuda ao Ligue 180, a central do que informa como se defender da violência doméstica”, afirmou Aparecida Gonçalves, da Secretaria de Políticas para as Mulheres, da Presidência da República, presente no Fórum. Lembrando que o nosso país é o sétimo entre os que mais matam mulheres, ela ressaltou a importância de uma pesquisa como essa para a formulação de políticas públicas de enfrentamento do problema. Lírio Cipriani, diretor executivo do Instituo Avon, observou que a violência doméstica está longe de ser uma exclusividade nossa:  “É uma doença em todo o mundo e precisa ser severamente combatida”. Para ele, a naturalização da violência se combate com educação não sexista oferecida aos jovens, nas escolas, na família e na sociedade. 

 

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