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Sim, a desigualdade de gênero impede o desenvolvimento da economia

É o que revela o estudo "A autonomia das mulheres na mudança de cenários econômicos", divulgado recentemente.

Por Lucas Castilho - Atualizado em 30 jan 2020, 11h08 - Publicado em 30 jan 2020, 10h01

Tal qual a água é molhada, sim, as desigualdades de gênero são um obstáculo para o desenvolvimento de forma sustentável da economia. É o que revela o extenso informe “A autonomia das mulheres na mudança de cenários econômicos”, divulgado nesta terça-feira (28) pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) durante a 14ª Conferência Regional sobre Mulheres na América Latina e no Caribe. O evento acontece até sexta-feira (31), em Santiago, no Chile.

Segundo o estudo, América Latina e Caribe estão crescendo menos e as desigualdades e a pobreza só aumentam. De acordo com a Cepal, a solução seria acelerar os compromissos assumidos pelos governos para atingir a tão sonhada igualdade de gênero e a autonomia das mulheres na região. “As desigualdades de gênero são um obstáculo para desenvolvimento, e as mudanças no cenário são uma manifestação da urgência de avançar decisivamente em direção a estilos de desenvolvimento que contemplem a igualdade de gênero e a autonomia das mulheres e a garantia dos direitos de todas as pessoas, sem exceção”, diz o relatório.

O documento observa que, apesar do surgimento de movimentos feministas liderados por uma nova geração de mulheres, nos últimos anos, aconteceu – e a gente sabe bem disso! – um ressurgimento de práticas e discursos discriminatórios na região, uma situação que limita o exercício pleno dos direitos da mulher e a progressão das políticas de igualdade. O informe segue: “A situação das mulheres da América Latina e do Caribe é heterogênea; é necessário garantir que avanços alcancem essa diversidade de mulheres e que as desigualdades de gênero sejam tratadas em uma perspectiva interseccional, reconhecendo as diferentes experiências de opressão ou privilégio existentes”.

Divisão do trabalho

Um dos desafios também é a divisão do trabalho: mulheres passam três vezes mais tempo do que os homens dedicadas ao trabalho doméstico. Além disso, são as principais responsáveis pelo cuidado de idosos na região. Nesse sentido, o Brasil é visto como um exemplo positivo por, desde 2002, reconhecer institucionalmente a atividade assistencial como um trabalho profissional. Segundo a Cepal, é preciso olhar de uma nova forma para o cuidado, já que, nesse “filão”, está uma das chaves para erradicar a desigualdade de gênero.

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“Se os cuidados forem articulados com políticas trabalhistas que melhorem a qualidade desses empregos, eles poderão reverter as discriminações que ocorrem no mercado de trabalho e gerar melhores condições nesse setor, que na maioria dos países é precário. Promover o treinamento e a profissionalização deste setor de trabalho, bem como a participação nos mecanismos de diálogo e negociação coletiva, teriam um impacto diretamente na qualidade do emprego”, afirma o estudo.

Um dos resultados diretos desse tipo de política seria uma melhora nas oportunidades e condições de emprego, maior autonomia feminina e, consequentemente, um incentivo para a participação dos homens no trabalho de cuidar.

Outros dados

Um terço das mulheres da região depende completamente de outros para sua subsistência. De acordo com o relatório, apesar da diminuição do número de mulheres sem renda própria de 41,0%, em 2002, para 27,5%, em 2018, esse percentual ainda é mais que o dobro de homens na mesma situação (13,1%).

Mulheres também são a maioria da população em situação de probreza: em 2002, eram 105 mulheres para cada 100 homens. Já em 2018, esse índice subiu para 113 mulheres para cada 100 homens.

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Mas, se elas não estão em situação de pobreza, também encontram dificuldades para adentrar em certos campos de atuação, como ciência, tecnologia, engenharia, e matemática. O relatório conclui ser urgente a criação de mecanismos (políticas públicas) para a participação delas nessas áreas. Só assim, será possível vislumbrar uma resolução para o problema, além de criar mais empregos em novos setores econômicos.

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