Eduardo Moscovis: “Nunca vivi o presente com tanta intensidade”

Depois de quase dez anos longe dos folhetins, Du Moscovis topou o desafio de recomeçar em horário nobre, na pele do falsário Orlando. É difícil tirar os olhos da tevê

Du está sentado em um daqueles carrinhos de golfe que levam de um cenário a outro do Projac, o centro de produção da Rede Globo, no Rio de Janeiro. “Talvez eu nunca tenha vivido um momento com tanta intensidade”, diz. E mostra que está mesmo ligado ao agora. Esbanjando gentileza e jogo de cintura, ele comanda a cena, está presente. Ao perceber uma mudança repentina no roteiro das gravações, pergunta se esta entrevista pode ser dividida em “pequenas doses”. Enquanto a fotógrafa prepara os equipamentos, ele pede para começar. De longe, presta atenção na movimentação dos colegas de núcleo, ajeita o próprio figurino e checa se está tudo pronto para os cliques. E então toca a falar sobre a sua volta à novela das 9, como o vilão oportunista Orlando, de A Regra do Jogo.

Por um período recente, ele se viu motivado pelo desejo de experimentar e aprofundar seus conhecimentos como ator, dedicando-se ao teatro, ao cinema e a novos formatos, como a versão masculina do Saia Justa, no GNT. “Minha imagem estava vinculada à televisão, mesmo tendo feito muito teatro”, lembra referindo-se ao fato de ter praticamente emendado as atuações em novelas como Alma Gêmea (2004) e Senhora do Destino (2005). A parceria entre o autor João Emanuel Carneiro e a diretora Amora Mautner foi decisiva para que ele topasse o desafio de voltar.

Du já havia trabalhado com Amora em O Cravo e a Rosa (2001), quando nasceu uma amizade bacana. Desde então, bastava encontrarem-se para que ela insistisse em um novo projeto juntos. Foi assim que surgiu a oportunidade de fazer um teste para o personagem do ex-vereador Romero, protagonista da trama. “Pô, claro que topei. É ilusão achar que a gente não faz mais testes, que não é reprovado. Você coloca o pé no chão, dá um frio na barriga e vê aquilo também como uma disputa, uma concorrência.” Nessa competição, quem levou a melhor foi o ator Alexandre Nero, escolhido para o papel. Mas Du encarou o resultado com tranquilidade e prefere olhar para o lado positivo da coisa. “Depois de tanto tempo afastado, está sendo bom ter um volume menor de cenas e uma história que não vai chegar até o fim da novela.” Interpretar o cientista Orlando, medíocre e sem escrúpulos, também serve para desenferrujar. “Bateu aquele sentimento de reaprender algo que eu fazia facilmente, como jogar bola, pedalar ou pegar onda”, compara.

Diferentemente da maioria dos atores, que anseia por um vilão para exercitar o talento, ele afirma que nunca teve essa vontade. Pior, não curte as maldades de Orlando – quando precisa matar alguém em cena, por exemplo. “Mesmo depois que acaba e o cara levanta, fica algo impresso ali. Gostaria que não acontecesse na vida real, mas as pessoas matam as outras porque um é Flamengo e o outro Fluminense, porque um é PT e o outro não. É uma pena estarmos nesse lugar”, lamenta. O mau agouro do script é compensado pelos colegas. “Para onde eu olho, só vejo atores brilhantes. Estou muito bem acompanhado.”

Du Moscovis precisou rever hábitos e horários para adaptar-se aos roteiros de gravações. “Eu deixei todos os outros compromissos profissionais para ficar disponível.” A vida só deve voltar ao que era em 2016, quando ele retoma a peça Um Bonde Chamado Desejo e, possivelmente, a terceira temporada da série do GNT Questões de Família, em que encarna Pedro, um juiz da vara de família. Esse vaivém, de entrar na rotina e sair dela, aliás, é algo que o carioca curte. “Do mesmo jeito que o trabalho aprisiona por um tempo, sei que estarei livre daqui a pouco. E depois vou me comprometer novamente com algum outro estudo ou investigação.”

DIVIDIDO POR QUATRO

Os afazeres familiares, no entanto, têm espaço garantido em sua agenda de marido e pai de quatro filhos. Há 13 anos, quando ainda nem existia uma legislação sobre guarda compartilhada, Du Moscovis deixou claro seu desejo de não abrir mão da convivência com Gabriela e Sofia, hoje com 16 e 14 anos, ao fim de seu casamento com a diretora de tevê Roberta Richard. “Quando eu e Beta decidimos nos separar, expliquei que meu perfil não é o de pai de visitas. Penso que a decisão foi boa para ela, para as meninas e para mim”, diz ele, que tem visto mais e mais pais separados cumprindo esse papel, ainda que cada um a seu jeito. Ele conta que, na semana anterior à entrevista, marcara presença na reunião da escolinha do caçula, Rodrigo, 3 anos, da união com a nutricionista Cynthia Howlett (com quem também tem Manuela, 8 anos). “A proposta do encontro era pensar no grupo todo, mas sempre tem aquela mãe que quer falar do filho dela. Acho bonitinho, mas confesso que, nessa hora, converso baixinho sobre futebol”, diverte-se. Até 2012, quando Rodrigo nasceu, o ator era o único homem da casa. “A aproximação com o universo feminino foi reveladora. Percebi que a sedução e a estratégia feminina começam no berço. Já o menino é mais tolo, aprende com a vida”, afirma. A chegada do pequeno trouxe o reencontro com seu lado moleque. “Ele é supercarinhoso, fofo, mas marrento: “Ah, é assim que você diz que ama o papai, dando um socão na barriga?” Vejo nele o garoto que eu fui um dia.” Com exceção da idade dos filhos, que acerta sempre, Du Moscovis costuma se confundir com datas, incluindo a do próprio aniversário, e se surpreende ao ser corrigido. “Não tenho 48 anos? Então tenho mais três anos para chegar aos 50? Que ótimo! Quero viver muito e acho que vou mesmo. Meu lado Capricórnio é forte, sou precavido. Meu estilo de vida é moderado, sem grandes loucuras. Que venham os 50! Acho que vai ser lindo!”