“É duro ser alvo de críticas, mas passei a ser meu próprio juiz”

O alemão Michael Fassbender volta ao cinema com "A Luz Entre Oceanos" - e foi durante as gravações do longa que engatou o romance com Alicia Vikander

Pessoalmente, Michael Fassbender, 39 anos, tem uma presença muito mais suave do que sugerem seus intensos e inquietantes personagens. Para relembrar os mais marcantes: o executivo viciado em sexo de Shame (2011), o violento senhor de escravos de 12 Anos de Escravidão (2013) e a versão rude de Steve Jobs no filme homônimo (2015). O encontro com CLAUDIA para falar de seu novo trabalho, A Luz entre Oceanos, foi no terraço de um bar em Veneza, durante o festival de cinema da cidade italiana, em setembro. Horas depois, o filme teria sua estreia mundial – no Brasil, chega no dia 3 deste mês.

“É bom estar aqui novamente e com outro título do qual me orgulho”, disse Fassbender, dono de olhos azuis impressionantes. Baseado no best-seller homônimo de M.L. Stedman, o longa, dirigido por Derek Cianfrance, conta a história de Tom (Fassbender) e sua mulher, Isabel (Alicia Vikander), na Austrália dos anos 1920. Ele é um ex-soldado abalado pela Primeira Guerra Mundial que agora trabalha cuidando de um farol; ela, uma jovem dona de casa, espirituosa e cheia de vida. Depois de sofrer dois abortos espontâneos, Isabel encara como um sinal a chegada de um barco carregando um homem morto e um bebê à ilha em que vivem. O casal opta por adotar a criança sem revelar a ninguém sua origem – uma escolha que seguirá assombrando os dois. “É um filme sobre pessoas lidando com decisões e consequências. Não há heróis nem vilões”, sintetiza o ator. “Ele trata de questões importantes, como o aborto natural – que, embora seja uma tragédia bastante comum, ainda é um tabu na sociedade – e o perdão”, conta. Tudo isso, com uma história de amor ao fundo.

Ou duas: foi durante as filmagens – mais especificamente, a imersão que a precedeu, em 2014 – que o romance entre Fassbender e Vikander extrapolou as telas. Isolados na deslumbrante cidade de Cape Campbell, na Nova Zelândia, os atores e o restante da pequena equipe passaram dias sem sinal de celular, fazendo jantares ao ar livre e acordando às 3 horas da manhã com o barulho do vento. O contexto era propício ao romance, ele mesmo concorda. Os dois apareceram juntos publicamente pela primeira vez no Oscar deste ano, quando ele concorreu a melhor ator por sua atuação como o criador da Apple e ela levou a estatueta de melhor atriz coadjuvante por A Garota Dinamarquesa (2015) – a comemoração incluiu um selinho ao vivo.

“Somos muito comprometidos com o nosso trabalho, mas também com nossa privacidade”, Fassbender tenta disfarçar, porém continua: “Nós nos demos bem desde o início. A Alicia é uma atriz muito forte e corajosa. Sua sede de atuar e sua vontade de aproveitar o momento me assustaram um pouco a princípio. Tive de elevar meu nível”, brinca, relembrando que, na época das filmagens, a sueca, que estudou balé na prestigiosa Royal Swedish Ballet School (escola real de balé da Suécia), em Estocolmo, e na School of American Ballet (escola americana de balé), em Nova York, ainda não havia estourado em Hollywood.

A história dele também é de muitas batalhas até o estrelato. Nascido na Alemanha, Fassbender cresceu em Killarney, na Irlanda, onde seus pais tocavam um restaurante (o pai dele é chef de cozinha). Aos 19 anos, trocou a cidade pela capital inglesa, seu endereço até hoje. Estudou interpretação no Centro de Drama de Londres – que formou atores como Colin Firth e Tom Hardy. Ali, aprendeu o chamado método Laban, baseado em estudos de Carl Jung – que, curiosamente, ele interpretaria anos depois em Um Método Perigoso (2011). Trabalhou como bartender, carregador de malas e agente de telemarketing até conquistar seu primeiro papel como protagonista. Para viver o militante irlandês Bobby Sands, que lidera uma greve de fome coletiva em Hunger (2008), precisou perder 16 quilos. A partir dali, a carreira deslanchou. “Uma das coisas que aprendi no Centro de Drama é que sou meu único parâmetro. É muito duro ser alvo de críticas, mas passei a ser meu juiz.”

Tem funcionado bem: com duas indicações ao Oscar (além de Steve Jobs, ele concorreu à estatueta de ator coadjuvante por 12 Anos de Escravidão, em 2013) e três ao Globo de Ouro, Fassbender é considerado um dos melhores atores de sua geração. “Muitos astros constroem, de alguma maneira, uma barreira entre eles e o público. Mas ele tem uma fragilidade que o permite se relacionar com o espectador sem escalas”, disse Steve McQueen, cineasta que dirigiu o ator três vezes. Não é de surpreender, portanto, que o alemão esteja trabalhando sem parar há dez anos e ainda tenha seis filmes inéditos a ser lançados, incluindo o blockbuster baseado no videogame Assassin’s Creed, que estreia em janeiro.

Nas brechas da agenda, Fassbender curte fazer programas de aventura. Recentemente, viajou com o pai por todo o continente europeu em uma moto, comprovando a fama de amante de velocidade. “Sou workaholic, amo meu trabalho. Esperei na coxia por muito tempo – até meus 30 anos. Mas lógico que, às vezes, tudo que eu quero é surfar.”