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Da gerência a TV: David Júnior conta como realizou o sonho de atuar

No ar em Bom Sucesso, novela das 7 da Globo, o ator David Junior sabe aproveitar a visibilidade para falar de causas sociais e combater racismo e machismo

Por Isabella D'Ercole Atualizado em 26 dez 2019, 09h00 - Publicado em 26 dez 2019, 08h00

Um dia, o fluminense David Junior atravessou as portas da Rede Globo e disparou: “Eu quero trabalhar aqui. O que preciso fazer?”. Encarando um olhar de “Quem é você?”, ouviu que deveria levar um CD com uma cena gravada e preencher um cadastro. Voltou com o disco em mãos, mas também gravou outra cena, ali na hora. Em um mês, estava no estúdio para sua primeira participação em programas da Globo.

Falando assim, parece até fácil a trajetória que levou o ator de 33 anos ao papel de Ramon em Bom Sucesso, trama das 7 da emissora. David (pronuncia-se Davi) insiste em dizer que difícil não foi, ressaltando a história de amigos que ainda aguardam uma chance. Mas quem o escuta contando da caminhada até ali enxerga obstáculos – e dos grandes.

Filho de pai policial civil e mãe professora, o garoto conseguiu seu primeiro emprego como promotor de vendas em uma rede de lojas de roupas. Ficou pouco tempo, mas fez parte da equipe de maior destaque – num ranking com unidades de todo o país –, entregando os melhores resultados. “Sempre fui obstinado, me dedico até alcançar o meu máximo e enxergo meu potencial. Entendo do que sou capaz”, diz. Essa segurança regeu toda sua vida profissional.

Do comércio, migrou para os bancos. Ouviu de um amigo que pagavam melhor, pediu indicação para uma vaga e conseguiu. Chegou a ser gerente. Abria e fechava contas quando decidiu largar tudo pela arte. “Mas não é que teve uma transição. Era tudo ao mesmo tempo. Ia para os testes de terno e gravata, me trocava no carro, fazia turnos alternativos. Prestei até concurso para ser agente penitenciário porque trabalharia 24 horas seguidas e teria dois dias de folga, quando faria mais testes”, lembra.

A verdade é que David precisava equilibrar a paixão com a realidade. Nascido em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, ele sonhava com estabilidade. Queria conquistar o que os pais tinham conseguido ou mais. “O jovem periférico não escolhe que área seguir. Ele faz o que precisa para sobreviver, para pagar suas contas e, às vezes, de mais pessoas da família”, diz. Assim foi engatando uma experiência na outra até que uma amiga o recomendou para trabalhar como modelo.

Não tinha nada a perder. A agência conseguiu um trabalho para ele – na verdade, um pequeno papel, sem falas, numa peça. Foi a oportunidade de se encantar com a profissão. Ficava ali, embasbacado, vendo o movimento dos atores, o estudo, ensaios. Inspirado, finalmente subiu ao palco. Ainda que mudo, numa única cena David conquistou o público. O diretor sacou que ele tinha talento e lhe deu uma bolsa de estudos em artes cênicas.

Enquanto fazia as aulas, fechava contratos para modelo em comerciais. “Eu não avaliava os personagens, só queria garantir o dinheiro que me manteria por uns três meses para continuar estudando”, conta. A sonhada estabilidade rolou em 2014, quando a Globo lhe ofereceu um contrato fixo em Geração Brasil. “Antes disso, pensei em desistir várias vezes. Ficava sem dinheiro para o aluguel com frequência, faltava para comprar almoço”, admite. Mas seguiu com a crença de que tudo acontece no tempo certo. “Hoje, tenho maturidade emocional e responsabilidade para aproveitar melhor as consequências de tudo isso.”

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Talvez seja essa sensatez que fez com que David rapidamente entendesse e soubesse aproveitar a visibilidade que ganhou com o sucesso de Ramon. Na trama, ele é o ex-noivo de Paloma (Grazi Massafera), com quem tem uma filha. Muitos tempo antes de quando se passa a narrativa, Ramon deixa o Brasil e tenta a carreira de jogador de basquete nos Estados Unidos. Após 16 anos longe, retorna achando que pode simplesmente retomar de onde parou. Claro que não é bem assim que funciona. Mas, dramas e cores da novela à parte, há infinitas discussões sociais que surgem a partir daí.

E foi esse bonde que David fez questão de pegar. “Eu gosto de ser um corpo político. De poder doar meu tempo e imagem para tentar mudar alguma coisa na sociedade. A cada 23 minutos um jovem negro é assassinado, e eu não vou ficar só vendendo sorriso nas redes sociais, fingindo que está tudo bem. Não tem sentido para mim. Essa é a oportunidade que eu tenho de abrir espaço para alguém da periferia falar. Com meu personagem, sinto que estou representando uma figura muito próxima da minha realidade, resgatando a minha história e dos meus antepassados”, explica.

Ele se lembra da infância, de quando o ator Will Smith e outros americanos eram suas referências porque não conseguia encontrar exemplos no Brasil. “Representatividade é muito importante. Hoje, recebo muitas fotos de meninos copiando o cabelo do Ramon e acho isso demais. Eu não vivi o racismo como algo isolado, era recorrente e estrutural. E ainda acontece. Há algum tempo, ouvi de uma amiga: ‘Você é um preto muito bonito’. Chamei-a de canto e expliquei que, do jeito que ela falou, parecia que eu era uma exceção, como se preto não pudesse ser bonito. Entendi a intenção de elogiar, mas precisava avisá-la da repetição de um discurso”, diz.

O ator acredita que é importante, para causar mudança de verdade, darmos mais atenção às crianças. “Elas são o futuro. Não adianta eu ser um bom pai, que quer dar uma ótima educação ao filho, e ensinar que a religião da casa é melhor ou pior para outras pessoas. A religiosidade virou um jogo de egos, onde há uma disputa, e os valores deixaram de ser levados em consideração”, reflete.

Bispo/CLAUDIA

David não é pai, mas viu-se transformado em relação à paternidade durante o laboratório de Bom Sucesso. Ali, conheceu sua filha na trama (e os filhos de Paloma) e apaixonou-se. “Formamos um vínculo real. Quando a Giovanna (Coimbra, que interpreta Gabriela na novela) cai no chão, fico atento aos cuidados pra ela não se machucar. Já o João (Bravo, no papel de Peter) é um espoleta, corre de um lado para o outro. Uns dias atrás, ele pulou tanto que quase derrubou uma poltrona no chão. E a Bruna (Inocencio, que faz Alice) foi um encontro de vida, uma conexão de pai e filha mesmo”, entrega.

Nos laboratórios, se pôs a pensar na vida das mães solo. Afinal, o personagem dele deixa a criança para trás. “Conversei com algumas mulheres e até mesmo com meu pai, que foi embora por um tempo”, relembra. Esse comportamento revela uma característica importante de David: a capacidade de ouvir o outro. A escuta é, para ele, maior do que a fala. “Cada um tem sua opinião e todos querem se manifestar, claro. Mas, se a gente não parar e deixar o outro falar, dando atenção de verdade, vamos ficar estagnados como sociedade. A mudança exige que entendamos o outro para entrar num consenso”, justifica.

A convivência com a namorada, a também atriz Yasmin Garcez, abriu os olhos para outra injustiça social – e, de novo, para a importância de escutar. Refletindo sobre o machismo, concluiu que nenhuma opressão é maior do que a outra, apesar da tendência que temos em ressaltar a mais próxima de nós. “O machismo é estrutural; então, eu aprendi a agir errado. Preciso parar, reavaliar o que disse ou fiz e mudar isso em mim. Voltar algumas casinhas e retificar ponto a ponto. Mas esses insights só vêm quando eu ouço as mulheres, pois esse é o lugar de fala delas”, reconhece. E, se as atitudes dos personagens de David ainda causam certa revolta nos espectadores, é um alento saber que o intérprete está mais do que acordado e pronto para fazer diferente.

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