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O que pensam as jovens evangélicas que somam seguidores na internet

Dos estádios lotados ao Instagram, quem é nova geração de mulheres está ressignificando as experiências na religião em tempos hiperconectados

Por Isabella Marinelli Atualizado em 7 Maio 2020, 15h20 - Publicado em 15 abr 2020, 11h30

Foram quase 12 horas em pé acompanhando apresentações e cantando. Ao final, o pedido ao público ali presente para que participasse de um ato profético. As pessoas deveriam tirar os sapatos e erguê-los no ar. O gesto refere-se à passagem da Bíblia conhecida como “A Grande Comissão”, em que Jesus, ressuscitado, dá a última instrução. “Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho e fazei discípulos”, diz a mensagem sagrada. Na carta do apóstolo Paulo aos efésios, povo de uma das maiores cidades do Império Romano, essa passagem é simbolizada por um par de sandálias. Ao levantar os calçados, os fiéis estão dizendo ao mundo que foram enviados por Deus a todas as nações para pregar – e que estão dispostos e disponíveis para isso. No Estádio do Morumbi, na capital paulista, onde aconteceu o festival cristão The Send Brasil, em fevereiro, 80 mil pessoas imitaram o gesto nas arquibancadas e no gramado lotado. Sinalizavam que aceitavam o desafio como fiéis.

Não foi só show nem só culto. No line-up, missionários internacionais e líderes religiosos se revezaram entre palestras, pregações, músicas e orações, com a missão de incentivar a plateia a levar a palavra de Deus para não evangélicos. A história começou nos Estados Unidos, em 2016. Durante o encontro Azusa Now, no estádio Los Angeles Memorial Coliseum, o pregador fez o mesmo chamado para os presentes. Então diferentes organizações de missões se uniram com o objetivo de “fazer o que fosse necessário para ver a reevangelização da América e a conclusão da Grande Comissão”, de acordo com a descrição oficial do movimento.

A cantora Priscilla Alcantara é um fenômeno musical na internet e organiza o próprio festival, Até Sermos Um (ASU) Divulgação/CLAUDIA

A cantora brasileira Priscilla Alcantara participou da versão norte-americana e, mais recentemente, da edição brasileira. Aos 23 anos, a jovem que começou a carreira como apresentadora do Bom Dia & Cia, no SBT, é o ícone pop de uma geração que procura músicas pautadas em amor e fé. Apesar disso, não se coloca na caixinha do gospel. “Acredito que minha liberdade e honestidade são mais importantes”, defende.

Ela soma quase 6 milhões de seguidores no Instagram, mais 2 milhões no YouTube e incontáveis visualizações. A força digital de Priscilla é um impulso para ações que conectam pessoas também no ambiente físico, como seu festival Até Sermos Um (ASU), outro fenômeno musical entre os jovens cristãos. A quinta edição do festival anual aconteceria em agosto. “Senti a necessidade de promover um ambiente de unidade, algo que anda tão difícil”, explica. O espetáculo, que mistura shows com encenações – o último foi no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo –, não está sob a égide de nenhuma igreja específica. Aliás, essa fluidez é notada por Priscilla na relação entre as novas gerações e a religiosidade. “Quem entende que Jesus é uma pessoa a ser seguida consegue trocar com o cristianismo melhor do que quem chega à religião só pelos dogmas. E os jovens têm facilidade em perceber isso”, argumenta a artista.

INDIVIDUALIDADE CONTA

A ativista Amanda Costa frequenta os culto da Bola de Neve Acervo Pessoal/CLAUDIA

A estudante Amanda Costa, 24 anos, sofria com a inadequação, com a sensação de que ela era uma garota nas ruas e outra completamente diferente no culto – onde eram restritos cabelos soltos, acessórios, peças curtas e maquiagem. Criada na religião evangélica, estudara a vida toda em colégio adventista. Quando entrou na faculdade, partiu para uma fase de descobertas completamente diferente de tudo que já havia vivido até então. Gostava de se arrumar e ir a festas, beber e paquerar. Não compreendia os motivos de tantas restrições comportamentais. Certa vez, durante uma balada, foi abordada por um rapaz que perguntou por que ela gostava de álcool. A resposta foi rápida: “Me sinto feliz”. Ele questinou se ela precisava mesmo daquilo para encontrar a felicidade e citou uma passagem bíblica. “Naquele momento, era como se Jesus estivesse falando comigo”, descreve a paulistana. Impactada com a situacão, procurou uma amiga que a orientou a rezar em casa mas também deixou um convite para que conhecesse o culto da neopentecostal Bola de Neve.

Ao chegar ao espaço, a primeira imagem que Amanda viu foi a de um homem com os braços cobertos por tatuagens, com alargadores nas orelhas, adorando a Deus. “Parei de beber porque quis, mas continuei me arrumando porque isso faz com que eu me sinta bem. Na mesma medida em que eu usava coisas de que gostava, me confrontava. Entendi que o que está por fora não importa, vale o que tenho no coração”, argumenta.

Há dois anos, o tempo da jovem é dividido entre as tarefas religiosas, como grupos de leitura da Bíblia e meditação relacionada aos salmos, e as atividades da ONG EngajaMundo, de apoio a ações sustentáveis, e do Global Shapers, rede de conexão entre jovens do Fórum Econômico Mundial. Não abre mão do papel de ativista, que tem grande importância em sua vida, bem como dos recentes processos de autoconhecimento enquanto mulher negra e periférica. “Por estar inserida numa sociedade patriarcal e racista, preciso levantar essa bandeira e ocupar esse espaço. Às vezes, é difícil falar sobre isso dentro da Igreja porque tem pessoas que não entendem a necessidade da discussão. Quando Jesus estava na Terra, homens não falavam com as mulheres. Se você era saudável, não podia conversar com quem tinha hanseníase – entendia-se que era pecado. Mas Jesus ia até o doente, tocava na pessoa. Ele dava rolê com as prostitutas. Imagina isso há 2 mil anos. Ele quebrava paradigmas. É por isso que eu me apego à figura da Bíblia, não necessariamente àquela que um líder prega. Para discutir temas assim, deixo de olhar para as estruturas conservadoras”, argumenta.

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Um dos espaços que ela e o grupo de jovens de que participa, o Flame, utilizam para levantar tópicos e demonstrar que cabem todas as singularidades dentro desse contexto é a internet. “Usamos como uma vitrine. A ideia é que a pessoa interessada na instituição saiba mais sobre ela antes de entrar. As redes sociais servem não só para a transmissão de cultos mas também para expor ideias, mesmo para quem não frequenta templos. Tem espaço para a patricinha e para a ativista preta, como eu”, defende.

WEBCRENTES?

Sara Fabiane, “webcrente”, frequenta a Igreja Batista da Lagoinha, em São Paulo Acervo Pessoal/CLAUDIA

A forte presença digital da juventude evangélica ganhou até termo específico. A estudante de marketing Sara Fabiane, 22 anos, garante que cunhou o neologismo webcrente. “Ele já era utilizado desde 2018, mas bombou quando o site de notícias G1 usou para falar sobre o The Send”, conta a jovem paulistana com bom humor. Frequentadora da Igreja Batista da Lagoinha, em São Paulo, ela explica que, seja no textão ou na hashtag, a palavra conecta jovens com as mesmas ideias. “Colocamos algo como: ‘E aí, webcrentes?’ antes de um tweet para nos localizarmos”, exemplifica. Rende frutos. Ela já fez muitas amizades online, oportunidade que teria sido mais rara num mundo sem internet, já que os colegas são de outras igrejas e até de outros estados.

“A rede é uma grande aliada. É por meio dela que encontramos a nossa tribo. Podemos compartilhar ideias, formar grupos de estudos, assistir a pregações de outros pastores. Quando eu estava no ensino médio, sofria deboche caso dissesse que era crente. A internet me mostrou que podemos encontrar aqueles que pensam parecido com a gente”, garante. As dicas trocadas vão desde bons estudos para leitura, números musicais, louvores emocionantes ou apps para ler a Bíblia.

Rapha Gonçalves fala sobre religião e compartilha experiências pessoais com seus mais de
130 mil seguidores
no Instagram Eli Reagh/CLAUDIA

Recentemente, a artista Raphaela Gonçalves compartilhou um planejamento anual para a leitura da Palavra. Numa sequência de Stories, no Instagram, mostrou a funcionalidade do aplicativo e pediu para que quem acompanhasse a marcasse para “criar um agito” em torno da leitura. É com leveza que ela fala sobre religiosidade em suas redes sociais, que já somam mais de 130 mil seguidores, e joga por terra a velha imagem do evangélico com palavras difíceis de entender e trajes sérios. Ela faz parte do Dunamis Movement, organização evangélica que busca permear nas universidades para atrair mais pessoas para o pensamento cristão. Essa organização, inclusive, foi uma das responsáveis pelo The Send, que, em São Paulo, lotou o Morumbi e mais dois estádios e aconteceu, simultaneamente, em Brasília. Além de estar envolvida nos bastidores, Raphaela cantou nos shows das duas cidades.

“Começamos com grupos de orações nas faculdades e crescemos muito. Hoje temos uma plataforma missionária, com escola e uma fazenda para cursos. Os retiros chegam a ter 200 alunos, que, ao final dos seis meses de aula, partem para uma experiência fora do país. Já levamos para Filipinas, Suíça, Nepal”, relata a paulistana de 30 anos. Essas incursões são pagas pelo aluno. Há também o curso de inverno, mais curto, que dura o mês de julho. Quem não consegue viajar pode optar pelos cursos online à distância.

“Plataformas como o YouTube e o Instagram aproximaram as pessoas. A Igreja não é mais um lugar chato. Tem banda boa, uma mensagem de incentivo. Não vemos alguém entrando e sendo massacrado. Seguimos uma moral, mas ela não é imposta. Se não concordamos com uma conduta, não expulsamos a pessoa. Deus ama da mesma maneira. Não somos nós que vamos apontar erros e defeitos”, argumenta Raphaela. Homossexualidade e sexo antes do casamento, por exemplo, ainda são searas delicadas. E a conversão recente de famosos, como os cantores Kanye West e Justin Bieber? A célula de louvor foi parar até no Big Brother Brasil. Virou moda? “Nós abrimos as portas para todos, porém, mais do que moda, queremos que a pessoas sejam realmente transformadas”, garante a artista.

MOVIMENTO HETEROGÊNEO
Não há palavra melhor para descrever o contexto, segundo a socióloga Silvia Fernandes, professora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e estudiosa da juventude religiosa do Brasil. “Os movimentos de renovação religiosa no Brasil não seguem uma única direção. São complexos, pois têm uma veia modernizante, com atualização da liturgia para trabalhar mais a emoção, e, ao mesmo tempo, a linha conservadora, que quer manter o campo moral. O que sabemos é que há uma falência do modelo verticalizado, em que a pessoa só chega para ouvir uma palestra”, explica. Outro viés que aponta para a falta de homogeneidade do campo são os grupos dissonantes que surgem dentro dos tradicionais. “É o caso das Feministas Evangélicas ou das congregações voltadas para o público homossexual”, exemplifica.

Em outra vertente, há ainda a tendência da autoconstrução de uma religiosidade fluida, que pinça crenças em diferentes tradições, mas não necessita caber numa única caixa. “É até uma atitude de experimentação, uma nova cognição que vem muito da dinâmica de um mundo globalizado. É o mérito de uma sociedade pluralista”, destaca Silvia.
Para ela, o grande motor da atração continua sendo a busca por afeto e conexão ou, ainda, por um espaço de convivência social. “Nas minhas pesquisas, quando perguntava o motivo de uma mudança de igreja ou de religião, ouvia muito: ‘Lá não me sentia acolhido e, agora, o líder me ouve, senta do meu lado, escuta as minhas questões’”, finaliza

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