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Temos problemas maiores? O racismo no clipe de Mallu Magalhães

Porque um clipe não é somente um clipe.

Por Stephanie Ribeiro - arquiteta e ativista feminista negra
Atualizado em 20 jan 2020, 13h10 - Publicado em 30 Maio 2017, 20h10

Muito foi dito sobre o clipe “Você Não Presta” da cantora Mallu Magalhães. Ao que parece, mesmo com bons textos sobre o assunto analisando parte por parte da produção, muitos continuaram discursando que não havia racismo. Entretanto, os argumentos “não vi racismo” e “nem tudo é racismo” são falsas questões. Se você entende racismo como estrutural e estruturante, você entende que isso implica no racismo como fenômeno-estrutura atuante em todos os campos da sociedade. Sendo assim, racismo é um problema sério, inclusive nas suas manifestações mais banais. E, claro, também não é um problema estrutural que pode ser sanado apenas pelo indivíduo que é vítima dessa estrutura.

Leia Mais: Nem todo mundo é negro no Brasil – e não há problema nisso

Como diz a brilhante escritora norte americana Toni Morrison, “Cruel e crasso como grande parte se é, realmente, desinformado como quase tudo que é, o discurso sobre raça é importante. Porém a conversa verdadeira deveria ser feita entre pessoas brancas. Eles deveriam falar entre eles sobre isso. Não comigo. Eu não posso ser doutor e paciente”.

Repito: Eu não posso ser cobrada de ser doutora quando sou a vítima! Coloca-se sempre no próprio oprimido a mazela de resolver as questões que o atingem, e, mais do que isso, caso ele resolva discutir algo que para muitos soa banal, sempre vem a máxima: “temos problemas mais sérios”. Novamente, se esquecem de que, ao partirmos da premissa que a opressão é estrutural e estruturante, os problemas menos e mais sérios estão totalmente relacionados entre si. E como nós negros também somos humanos, cabe a nós discutir todos os assuntos e não ter nossa subjetividade cerceada.

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Estou dizendo tudo isso para afirmar que não podemos e não devemos minimizar a crítica que foi feita ao clipe da Mallu Magalhães, resumindo tal crítica à “loucura da problematização”. Há dois pontos nessa questão. O primeiro: “loucura”, usada para se referir aos questionamentos feitos por mulheres e negros é historicamente um lugar de silenciamento e censura usado pela família, pelo Estado e pela religião. Negros e mulheres foram perseguidos e presos em manicômios por seus questionamentos e existência.

O intelectual Lima Barreto – cuja história será contada em biografia de Lilia Schwarcz a ser lançada em junho – é um exemplo de pessoa negra cerceada em um desses espaços extremamente opressores que são os manicômios, símbolo do higienismo e controle social da sociedade. Então, não há nenhuma piada ou leve mal entendido na atribuição que estamos e somos loucos. A loucura foi usada para nos calar. Não somos loucos quando somos questionadores: somos fora da norma e a norma nos oprime.

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O segundo – e o que vou me estender nesse texto – é: a linguagem estética e a narrativa cultural são formas de poder usados para difundir ideais emancipatórios. Como o que os abolicionistas fizeram no século XIX, a exemplo de André Rebouças que encomendou a peça “O Escravo” para Carlos Gomes, em 1884. Ou, ainda, do lado dos opressores, como a própria ideologia nazista, que fez da narrativa pautada na estética pura e higienista uma das principais formas de reafirmar seus conceitos e ideias.

Leia Mais: Mallu Magalhães pede desculpas após acusações de racismo em clipe

Estética é poder. As narrativas culturais por meio da estética definem que é o Outro que passa a ser o exótico, o estranho, o impostor, o feio. No caso de um ideal eurocêntrico, higienista e racista, o Outro é todo aquele que não se encaixa no corpo do homem branco heteronormativo.

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Portanto, as críticas ao clipe “Você Não Presta” não são direcionadas aos bailarinos que estão ali como profissionais prestando um serviço. Quem deteve poder de escolha e deve ser criticado é o patrão, no caso quem solicitou e pagou por aquele serviço. É a esse patrão que nossas críticas se dirigem, pois toda a composição do clipe é baseada na exotização de corpos negros. O discurso estético racista vai desde a escolha cenográfica com o fundo que remete a um casa sem revestimento, comum em algumas favelas e periferias brasileiras, até a oposição do corpo de Mallu – branco, magro, todo vestido – em relação aos corpos de dançarinos com curvas, negros, semivestidos e com peles brilhando.

Isso é uma construção estética intencional que alimenta a ideia do negro como exótico, oposto à figura do branco como angelical e puro. Esse clipe é exatamente isso, a construção do negro como um Outro, um objeto que, quando se faz necessário, é usado para passar determinada mensagem. No caso, a própria Mallu Magalhães deixou claro que a ideia era algo mais “selvagem”. E você pode até acreditar que não é intencional, mas quando a maioria dos brasileiros fecha os olhos e imagina uma mulher “bela, recatada e do lar”, pensa, sim, em uma mulher branca e com traços angelicais. Já quando fechamos os olhos e imaginamos um corpo sambando como passista seminua, o que geralmente nos vem à cabeça é a figura da negra, precisamente da Globeleza.

São papeis sociais que nos oprimem enquanto mulheres, porém pautados por raça. Então não me diga que teríamos corpos brancos, magros e até mesmo loiros, caso a ideia do clipe fosse a mesma de trazer algo mais “selvagem” e “urbano” como a própria cantora defendeu. Veja as personagens de novelas, ou de romances do século XX. A nossa figura negra é a da pessoa agressiva, boçal, não inteligente, sem delicadeza, com sexualidade aflorada e descontrolada. Vale lembrar que essas construções estéticas não surgiram do nada.

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A arte que explora

Perguntei para a cineasta Sabrina Fidalgo que estudou na Escola de Televisão e Cinema de Munique, na Alemanha, e fez especialização em roteiro na Universidad de Córdoba, na Espanha, a respeito dessa produção de Mallu Magalhães e sua construção estética racista e ela afirmou:

“A estética racista é uma das principais armas do racismo e, de ingênua, ela não tem nada. Não se iludam que basta uma cantora branca, brasileira e de origem abastada resolver, de repente, ‘ilustrar’ o seu novo videoclipe – dirigido por um homem branco português e filmado em Lisboa – com dançarinos negros, cujos corpos estão expostos e besuntados de óleo, para posar de contemporânea. De contemporânea essa imagem não tem nada. Corpos negros besuntados remetem à revenda de negros escravizados nas próprias colônias, quando os feitores decidiam vendê-los como mercadoria e, para ‘incrementar’ o ‘produto gasto’, besuntavam seus corpos com banha de porco para esconder as ‘mazelas’ e embelezar o ‘produto’.

A alemã Leni Riefenstahl criou toda a estética nazi-fascista de Hitler, idealizada pelo marqueteiro nazi Goebbels em vários filmes que exaltavam a superioridade da ‘raça ariana’ perante o mundo. Depois da 2ª Guerra, Leni se redimiu no continente africano, onde passou a fotografar nativos, abrindo caminho para uma estética pós-colonial em que o corpo negro era o objeto ‘exótico’ da lente ocidental e ‘civilizada’. Só nós negros, munidos de conhecimento é propriedade podemos pensar e exaltar uma estética nossa tal qual o cineasta Spike Lee ou o fotógrafo Koto Bolofo, para citar alguns. Temos que descolonizar nossos corpos e nossa beleza e avançar no protagonismo absoluto de uma nova vanguarda.”

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O primeiro filme que vi da alemã Leni Riefenstahl foi “Olympia”. Estava em uma aula de Estética e Política. No debate, é claro que começamos falando que o filme reafirmava um ideal nazista pelas aparições de Hitler em determinados momentos. No decorrer do debate, porém, foi se tornando perceptível para todos que a construção da estética do filme, com corpos brancos e atléticos mesclados por meio de efeitos com deuses greco-romanos, deixava nítida uma das premissas dos ideais nazistas: a exaltação da arte clássica, pois ela representava para Hitler seus ideais higienistas e de pureza. Então ali, na escolha dos corpos, no tempo de filmagem, na construção da estética de todo o filme, temos um recado que parece inconsciente, porém é devastador, pois adentra nosso imaginário e passa a conformar o que é belo, certo, normal. No caso do sistema escravocrata, o ideal colonizador que nos colocou sendo negros como um Outro que não pertence a nós, que é só corpo e não gente, está no clipe de Mallu Magalhães, assim como está na pintura de Tarsila do Amaral em 1923 chamada “A Negra”.

Reafirma-se esteticamente sempre a imagem do nosso corpo negro como fator principal em contraposição à nossa capacidade mental. Somos corpos exóticos, e não mentes. Identificados como intelectualmente incapazes e perigosos, pois não conseguimos controlar nosso instinto e corpos. Para uma cantora que está em terras europeias, a imagem que vende é essa do negro exotizado. Foi nesse continente que corpos negros africanos foram expostos em museus por serem tidos como “diferentes”.

O que é produzido no Brasil e vende para fora é a estética do filme “Cidade de Deus”, do safári na favela, da “mulata exportação” traficada para sexo, do carnaval com foco na nudez negra feminina. O campo da arte tem isso, tem pessoas que ganham dinheiro com cadeira de plástico cheia de furos simulando tiros. A exploração da miséria e do racismo é a arte brasileira que vende para fora.

Então não é uma discussão banal: além do assunto ser sério, ele está extremamente relacionado com a possibilidade do Estado matar negros a cada 23 minutos, já que o genocídio só importa para nós negros. Apenas nós nos vemos como gente em um país que foi construído e existe com a desumanização dos negros.

Finalizo com a frase de Nadiéjda Krúpskaia, um dos nomes da Revolução Russa de 1917, que consta no livro “A Revolução das Mulheres – A Emancipação Feminina na Rússia Soviética:

A arte tem total papel organizador.

E isso pode ser usado para questionar ou para naturalizar as opressões que nos cercam.

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