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A cineasta Juh Almeida mostra como o racismo interfere na coloração de fotos e filmes

À frente do projeto RGBlack, a fotógrafa quer romper com as barreiras racistas do audiovisual que influenciam até na produção de equipamentos de imagem

Por Isabella D'Ercole Atualizado em 24 nov 2021, 17h49 - Publicado em 24 nov 2021, 19h00
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oi durante uma aula de fotografia analógica na faculdade que Juh Almeida ouviu falar nos Shirley Cards, cartões de referência criados pela indústria fotográfica, nos anos 1940, para auxiliar na calibração de cor das imagens. Todos eram estampados por mulheres brancas. “A professora não mencionou o viés racista, mas, chegando em casa, fiz uma pesquisa e entendi como isso afetava a comunidade negra”, fala Juh.

 

Junto com uma equipe de mulheres negras, a diretora Juh Almeida recriou os Shirley Cards, cartões de referência usados na calibração da cor de fotos e vídeos. Estampados por mulheres brancas, eles fazem parte do sistema de perpetuação do racismo e da exclusão das pessoas negras no audiovisual.

 

 

shirley card
Fotos:/Divulgação

Muito antes, ela já tinha percebido como a captação de fotos de mulheres negras, especialmente as retintas, não era fiel às cores – Juh fotografa desde os 10 anos –, mas foi ali que as peças se encaixaram. “Fora os cartões de calibração, os equipamentos fotográficos são feitos para a pele branca, inclusive as câmeras. Também há profissionais que não sabem operar a iluminação e fatores como brilho e contraste, deixando o resultado distante da realidade”, explica a diretora.

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Só muitos anos depois da criação dos Shirley Cards a indústria viu necessidade de mudar alguns detalhes técnicos. O motivo? Registrar móveis, chocolates e outros objetos em peças publicitárias. “Para mim, isso é apagamento da identidade. Fotografia é memória e se as pessoas negras não são corretamente registradas, a história delas se perde”, completa a diretora, afirmando que o problema persiste e hoje inclui também celulares e aplicativos de fotos.

Juh
Foto:/Divulgação

Em seus projetos, Juh Almeida trabalha temáticas com recortes raciais, sob o viés da afrocentralidade, e sempre priorizando equipes com profissionais negros

 

“Uma solução é ter mais profissionais negros nas equipes, que tenham um olhar para essa questão”, diz ela. Engajada em mudar a indústria do audiovisual ou ao menos expor a gravidade do uso da pele branca como padrão, Juh aceitou liderar o projeto RGBlack, desenvolvido pela agência AKQA em parceria com a Pródigo Filmes.

Juh Almeida
Foto:/Divulgação

Ela reuniu uma equipe de mulheres negras para recriar os Shirley Cards em diferentes tons da pele negra, permitindo assim um novo referencial. “Quero criar outro imaginário, porque o atual não me contempla.” A produção dos cards – registrada em um lindo vídeo – e mais detalhes do movimento podem ser conferidos em rgblack.org.

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