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A primeira enfermeira do Brasil

Anna Nery aprendeu enfermagem para não se afastar dos filhos e salvar vidas

Por Ana Claudia Paixão - Atualizado em 20 Maio 2020, 09h30 - Publicado em 20 Maio 2020, 09h00

Anna Nery é a referência histórica para enfermagem no Brasil. Nascida no interior da Bahia, de uma família abastada e com longa ligação com o Exército brasileiro, ela se casou com Isidoro Antônio Nery, capitão-de-fragata da Marinha, aos 23 anos. Infelizmente o casamento durou apenas 6 anos, pois ele morreu enquanto estava a trabalho, no Maranhão.

Viúva aos 29 anos com 3 filhos, ela cuidou da educação deles até que, quando eles já estavam adultos se alistaram e foram convocados para lutar na Guerra do Paraguai. Aos 51 anos, ela não quis se afastar dos filhos e por isso se apresentou como voluntária para cuidar dos feridos enquanto o conflito durasse. “Como brasileira não podendo ser indiferente aos sofrimentos de meus compatriotas e como mãe, não podendo resistir à separação dos objetos que me são caros, e por uma tão longa distância, desejava acompanhá-los por toda parte, mesmo no teatro da guerra, se isso me fosse permitido”, escreveu ela  ao presidente da província da Bahia, Manoel Pinto de Souza Dantas, em agosto de 1865.

O pedido foi aceito, apesar de Anna não ser uma enfermeira, mas sim uma mãe preocupada. Irmã e mãe de médico, ela tinha as noções básicas da atividade que viria abraçar. Quando chegou no Rio Grande do Sul, aprendeu noções de enfermagem com as irmãs de caridade de São Vicente de Paulo e foi incorporada ao Décimo Batalhão de Voluntários.

No Hospital de Corrientes, onde ela começou seu trabalho, Anna encontrou cerca de seis mil soldados internados e poucas freiras vicentinas atendendo a todos eles. As condições de higiene eram pífias, faltavam materiais e remédios e o número de feridos só crescia. Doenças como cólera, febre tifoide, disenteria, malária e varíola ameaçavam a saúde dos soldados mais do que os ferimentos. Anna criou uma enfermaria-modelo em Assunção com seus próprios recursos e organizou os hospitais de campanha, estabelecendo regras para organizar os trabalhos. Apesar de acabar perdendo seu filho caçula no conflito, tratava igualmente os feridos dos dois lados da Guerra, o que irritava o Comando do Exército Brasileiro.  

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Quando a guerra acabou, em 1870, Anna voltou ao Brasil com três órfãos de guerra para criar.

A dedicação e coragem de Anna Nery foi reconhecida pelo então imperador do Brasil, D. Pedro II e passou a receber uma pensão vitalícia do governo. Ela também foi condecorada com as medalhas de prata Geral de Campanha e a Medalha Humanitária de Primeira Classe.  

Ela foi considerada a primeira enfermeira brasileira e faleceu, no Rio de Janeiro, há 140 anos, no dia 20 de maio.

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Em 2009, Anna se tornou a primeira mulher a entrar para o Livro dos Heróis e das Heroínas da Pátria, depositado no Panteão da Liberdade e da Democracia, em Brasília. Sua história está documentada no Museu Nacional da Enfermagem, fundado em 2010 pelo Conselho Federal de Enfermagem em Salvador, na Bahia.

Os pontos em comum com a trajetória da inglesa Florence Nightingale, que fundou a enfermagem moderna durante a Guerra da Crimeia, são claros. A primeira escola de enfermagem no Brasil foi em 1923 e adotava o modelo de ensino de enfermagem científica criado na Inglaterra. O nome da escola, porém, foi dado em homenagem a Anna Nery. Hoje, quase 100 anos depois, a Escola de Enfermagem Anna Nery forma cerca de 140 profissionais por ano.

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