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Stéphanie Habrich Stéphanie Habrich é empreendedora, apaixonada pelo mundo da educação e do jornalismo infantojuvenil. Fundadora do Joca, único jornal para jovens e crianças do Brasil, ela vai abordar aqui na coluna temas que interligam o contato com as notícias desde a infância e a educação, sempre pensando em como podemos ajudar nossos filhos a serem cidadãos com pensamento crítico.

O frio é de todos (mas é mais de algumas pessoas)

Durante as épocas mais geladas, é a população de rua quem sofre as piores consequências

Por Stéphanie Habrich 29 jun 2022, 09h47

Com as quedas de temperaturas sentidas nas últimas semanas, tenho visto muita gente aproveitando o frio para realizar atividades típicas dessa época do ano. Enrolar-se em cobertores para ver filmes ou aproveitar uma xícara de chocolate quente, por exemplo, estão entre os momentos preferidos de quem curte a época gelada. Porém, acredito que, nesse período, é essencial lembrar daqueles que estão vivendo nas ruas e não têm um teto para se aquecer. Aproveitar o frio é um privilégio do qual as mais de 220 mil pessoas que estão em situação de rua não podem usufruir.

O dado, apesar de ser o mais recente, foi divulgado em março de 2020 pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). Isso quer dizer que, mais de dois anos e diversas fases de uma pandemia depois, a tendência é de que ele tenha se tornado ainda maior em 2022. Levar o número das mais 220 mil pessoas em situação de rua para as conversas dentro de casa, com seus filhos, pode ser uma maneira de mobilizar a família a agir para promover mudanças sociais. Isso porque, para os jovens, dados e notícias são importantes para trazer a contextualização dos fatos e se tornar um incentivo para que eles assumam o papel de cidadãos ativos. Assim, reunir peças de roupas e cobertores para doar, por exemplo, pode ser uma forma de levar o calor da sua casa até quem mais precisa.

Na cidade de São Paulo, por exemplo, 31 mil paulistanos estão em situação de rua. Esse número, divulgado pela prefeitura do município em janeiro, representa um aumento de 31% em relação ao mesmo mês de 2020, pouco antes do início da pandemia do novo coronavírus. Foi pensando nessa população que a ONG SP Invisível decidiu criar a campanha Inverno Invisível. Conhecida por contar relatos de pessoas em situação de rua todos os dias nas redes sociais, como forma de conscientizar a sociedade, a associação já assume a função de levar calor a essa população há sete invernos.

Em entrevista ao Joca, jornal para crianças e jovens que fundei há dez anos, um dos fundadores da SP Invisível, André Soler, conta que, todos os anos, a campanha de inverno da ONG tem um mote. Dessa vez, o lema é “Esse ano, não”. “Não queremos que ninguém morra de frio. Esse é o nosso objetivo e é atrás disso que estamos correndo“, afirma ele. Atualmente, a ONG está preparando kits de inverno para distribuir para a população em situação de rua, que contém, entre outros itens, um moletom com capuz, meias e luvas.

Em dias de muito frio, também são distribuídos calçados, cobertores e calças – e, dependendo do kit, um lanche. Os recursos financeiros para que essas sacolinhas sejam montadas provém de doações captadas pela ONG. Ao mesmo tempo, alguns parceiros da SP apoiam o projeto fornecendo itens como sacos de dormir, que são distribuídos para pessoas em situação de rua não apenas nas épocas mais geladas. “Essa ação sempre foi para as ruas no momento de inverno levando moletons novos, que a gente produz. É uma forma de levar um carinho para eles, porque eles gostam muito disso que a gente faz. A gente chega a encontrar uma pessoa em situação de rua no inverno seguinte com o mesmo moletom, esse é o nível de carinho que eles têm, por isso que a gente dá para eles”, conta o fundador da ONG.

Há sete anos, quando a ação começou, 500 moletons foram distribuídos. Já em 2021, 15 mil pessoas em situação de rua receberam a peça. Para este ano, a meta é de 22 mil moletons. Para André, o grande desafio da ação de inverno está sendo alcançar pessoas em todas as áreas da cidade. “Às vezes, eles [pessoas em situação de rua] andam por lugares periféricos onde não tem tanta assistência. A gente tem muitos projetos em São Paulo que conseguem atender regiões onde existem muitas pessoas centralizadas, mas também temos o desafio de atender pessoas que estão em áreas mais periféricas. São essas pessoas que morrem”. 

E os abrigos?

Sei que, para muita gente, é comum se perguntar o porquê de parte da população em situação de rua não buscar abrigos para fugir do frio. Paralelamente à ação de inverno e aos outros projetos que acontecem ao longo do ano, a SP Invisível conta com assistentes sociais que encaminham quem deseja sair das ruas e ir, por exemplo, para essas instituições. “Não é difícil de entrar [nos abrigos], tem alguns que são mais fáceis [do que outros]. Geralmente, o processo é a pessoa ser encaminhada por um assistente social, então tem espaço para elas lá”, explica André.

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Mas, para ele, a grande questão é que nem sempre as pessoas são tratadas com dignidade nesses locais. “As grandes dificuldades do governo, hoje, é fazer com que essas pessoas se sintam cuidadas e tratá-las de maneira humanizada. Elas não têm vontade de estar nesses lugares porque passam por uma desumanização de que os lugares em que elas estão não são dignos. Também é comum elas serem tratadas de forma errada por alguém que está lá dentro”, explica o empreendedor social. Além disso, a chance de contrair doenças, por esses espaços abrigarem muitas pessoas, é algo que as afasta dos abrigos.

André ainda destaca que algumas regras, impostas a quem busca os abrigos, levam à desistência na procura por esse tipo de ajuda. Em alguns, por exemplo, há a exigência de um horário limite de entrada na instalação. E existem muitos que não aceitam animais de estimação – que, especialmente quando em situação de vulnerabilidade, também sofrem com o frio e precisam de calor para enfrentar as baixas temperaturas.

E nós com isso?

Projetos como o da SP Invisível contam com doações financeiras para promover mudanças sociais. Mas também existem outros modos de ajudar a população em situação de rua no inverno. Pedi licença ao André para compartilhar, aqui, as sugestões postadas pela SP em suas redes sociais para quem deseja se mobilizar em prol dessa população:

– Entrega, diretamente, de agasalhos e outros produtos para pessoas em situação de rua;– Doação de recursos para alguma ONG que atue em prol da causa, como a SP Invisível;

– Na cidade de São Paulo, acionamento do Portal 156, serviço da prefeitura que realiza a operação baixas temperaturas e oferece a possibilidade de acolhimento para pessoas em situação de rua;

– Conferir quais instituições estão de portas abertas para receber pessoas em situação de rua, como igrejas, por exemplo;

– Na cidade de São Paulo, informar a população de rua sobre as tendas montadas pela prefeitura. Elas serão instaladas sempre que a temperatura ficar abaixo dos 10ºC e estarão localizadas nos seguintes pontos: Zona Leste (Guaianases – Praça Presidente Getúlio Vargas e Itaquera – Rua Gilberto Gomes da Mota), Zona Norte (Santana – Praça Heróis da FEB e Vila Maria – Praça Novo Mundo), Zona Sul (Santo Amaro – Praça Floriano Peixoto e Capela do Socorro – Praça Escolar), Zona Oeste (Lapa – Praça Miguel Dell’Erba) e Centro (Sé – Praça da Sé – Praça Marechal Deodoro e Mooca – Praça Padre Bento).

Nesse momento, vale também compartilhar ações de inverno com conhecidos. Com a queda das temperaturas, esses projetos vão surgindo cada vez mais. Para se ter noção, meias velhas que estão no fundo do seu armário podem se tornar cobertores quando direcionadas a diversos projetos. Além disso, mesmo ONGs que ajudam animais abandonados podem salvar vidas no frio, já que os bichos também precisam de ajuda nesses momentos.

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