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Sofia Menegon é feminista, idealizadora da podcast Louva a Deusa e consultora em relacionamento e sexualidade
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Há um “nós” entre a gente

Me vi dissolver a cada novo encontro. Um novo “eu” era escrito para cada namorado

Por Sofia Menegon
10 nov 2022, 09h50

Nunca estive só. Eu comigo mesma, as minhas vontades e a minha profunda solitude. Outro dia, me peguei questionando se gostava mesmo de vinho ou se era só algo que fazíamos juntos, eu e meu ex parceiro. Ainda não tenho muita certeza. Também não sei se gosto de assistir a televisão, quais músicas são minhas ou se eu sou mais do dia ou da noite. Não sei.

Eu olho para a minha estante e não me reconheço naquela bola de rugby, nos discos, na escultura que eu sempre achei que gostasse. Não sei quem é aquela menina das fotos, o que a fazia sorrir e se aquele sorriso era mesmo dela. Não sei.

Comecei a namorar aos 14 anos e, desde então, engatei um relacionamento no outro. Me vi dissolver a cada novo encontro. Um novo “eu” era escrito para cada namorado. Uma versão perfeita de outrem, mas nunca minha.

Abdiquei de mim para dar espaço ao “nós”. Ao que nós faríamos, ao que nós gostávamos, aos nossos amigos, aos nossos lugares, aos nossos programas. Nós incômodos, mas que pareciam necessários para nos mantermos em ordem, juntos, estáveis, no lugar. Nós que simulavam uma segurança que nunca existiu. Nós bem atados, apertados, entrelaçados. Nós.

A gente escuta desde cedo que casais precisam ser centrais na estrutura social. Aprende que nada pode ser mais importante que o relacionamento romântico-afetivo. Que precisa-se dedicar todo tempo disponível para que o amor prevaleça, porque amar exige sacrifícios, dor, suor e lágrimas. Amar dói, dizem.

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E, então, os nós aprisionam. O “nós” engole os “eus” e ninguém mais sabe o que é apenas ser. Insistimos inertes nessa dinâmica porque é a única que conhecemos. Chamamos “nós” de laços e deixamos de enfeite na porta de casa. E quem passa admira, comenta, se inspira. Todo mundo quer o seu nó disfarçado de laço. 

Mas vínculo não é sobre apagar quem somos. E ser quem se é não deveria diminuir nenhuma relação que se pretende livre. É preciso desatar o “nós” para amar. Porque amar os nós não é o mesmo que amar o outro e a si. É apegar-se a impossibilidade de ser livre, porque amar livremente parece uma ideia longínqua e boa demais. A gente tem medo do que pode ser bom e fica onde está, ainda que esteja doendo.

Mas, enquanto escrevo, vejo minha desordem pela casa vazia. Sinto o cheiro do almoço que preparei porque deu vontade. Deixo a música tocar sem fones de ouvido. Tenho resgatado a mim. Tenho me desvencilhado de todos os “nós” e finalmente começo a andar pela vida com a mobilidade que ela merece ser vivida. É possível ser no coletivo, mas, parafraseando Aza Njeri, nossa individualidade é inegociável. 

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