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Por trás da moda

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Renata Brosina é jornalista, host de podcast e editora de moda com foco em luxo e sustentabilidade. Com 15 anos de carreira e alguns títulos internacionais no currículo, ela é curiosa, gosta de entrevistar e vestir pessoas, e analisar as transformações que vêm acontecendo no mercado.
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O legado de Vivienne Westwood na moda, na arte e na cultura

Ela foi responsável por rasgar o livro de regras da vestimenta para uma nova geração desiludida e ajudou a desenvolver o punk

Por Renata Brosina
Atualizado em 3 jan 2023, 13h56 - Publicado em 31 dez 2022, 19h58

“Quando você entender sobre o trabalho de Vivienne Westwood, saberá o verdadeiro significado da moda.” Essa foi a frase que Claire Wilcox, a curadora da exposição da estilista inglesa no Victoria & Albert, disse no dia da visita guiada. Isso aconteceu em 2004 e eu tinha 14 anos – até então, para mim, a moda era Dior, Chanel e Louis Vuitton. Simples assim, até cair acidentalmente nesta exibição no museu (meu preferido até hoje) e, curiosa, lembro de ficar muito próxima da turma da frente, que pegou as explicações sobre as peças que estavam ali. Entre elas estava a icônica camiseta do Sex Pistols vestida por Johnny Rotten em 1976 e os sapatos azuis altíssimos usados por Naomi Campbell em 1993 (e que fazem parte da imagem da modelo caída na passarela rindo). Novata, eu não entendia o porquê do nome da banda preferida do meu irmão estar estampada em uma camiseta de malha branca. Só parecia mais uma camiseta de banda, não? Inocente.

Na verdade, desbloquear essa badge foi uma grande forma de entender que, nada do que estava ali, era sobre desejo ou consumo. Aliás, Vivienne era contra essa ideia de que a moda fosse resumida ao fluxo de entra e sai de produtos das prateleiras. Nos anos 1970, ela fazia parte da geração de jovens faminta pela anarquia, fetichista e rebelde britânica – com forte influência da tribo Teddy Boys. Por isso, na entrada da exposição, tinha um relógio marcando 13 horas, com ponteiros indo contra o tempo, que ficava em sua boutique na King’s Road. Dame Westwood era desinteressada pelo ciclo simplista de tendências em constante mudança que impulsiona a moda moderna. Ela queria ir mais rápido que isso. Mas por que ela fazia roupas?

Vivienne foi responsável por rasgar o livro de regras da vestimenta para uma nova geração desiludida e ajudou a desenvolver o punk, tanto estilo quanto movimento, na década de 1970. Por essa razão, Vivienne foi batizada como “Mãe do Punk” ou “Rainha do Punk”. Missão vista como fácil nos dias de hoje, mas foi ela que abriu as portas para a oportunidade de se rebelar usando roupas provocadoras – não confunda com sensuais. Quando uso a palavra “provocadoras”, quero trazer o significado de “incômodo” e “desconforto”. Mexer na estrutura social da época não era papel fácil para uma mulher. Mas ela era uma genuína guerreira contra o conservadorismo. Na boutique Sex, ela e seu parceiro na época, Malcolm McLaren, eram conhecidos por fazer roupas à mão e vender mensagens sensíveis de rebeldia, dando fortes cutucões na estrutura social monárquica da época. Inclusive, foi nos domínios da boutique que nasceu o Sex Pistols, banda de punk britânica, administrada por McLaren e vestida por Westwood. Moda e música foram duas formas de expressão muito conectadas nesse período (sempre foi, mas ganhou diferentes proporções). O top de musselina com o retrato da Rainha Elizabeth II desgastado foi lançado em paralelo com o single famoso “God Save the Queen”, que foi banido pelas rádios britânicas – mas seguia tocando na sua loja. Óbvio, nada assustava Vivienne.

Como previsto no single “Anarchy in The UK”, o punk alcançou o mainstream. O movimento que carregava tanta simbologia perdeu sua força e ficou resumido aos kilts, calças desgastadas e camisetas puídas com estampas aleatórias de bandas que vieram a aparecer – nem todas de punk. Neste momento, Vivienne embarcou em uma nova missão – criar a sua marca homônima, com sua ideologia e suas roupas, mantendo todo seu olhar revolucionário e ativista. Sua passarela não era sobre a pré-venda da coleção – tudo sempre foi coordenado com seus ideais que, ao longo do tempo, nunca se perderam. Nunca mesmo. Ela foi disruptiva tanto na construção dos espartilhos quanto no desenvolvimento da modelagem que saísse do padrão. E esse estudo sobre estruturas foi visto no seu primeiro prêt-à-porter, Pirates, em 1981. Essa série de peças foi vista no V&A, ao lado de outros itens emblemáticos das suas criações para sua grife, como o tartan, mini-kilts rasgados, boinas com mil alfinetes e vestidos assimétricos volumosos, com frases bordadas repelindo as tradições da indumentária britânica que encontravam os espartilhos inspirados na sua obsessão pela França do século XVIII. E, mesmo sendo uma retrospectiva há 18 anos e tendo parceria do marido Andreas Kronthaler na criação das passarelas, não tiveram mudanças gritantes na sua estética. Menos ainda modernizações relacionadas aos “novos tempos”.

É preciso alavancar a importância de Vivienne para a moda do restante dos nomes da indústria – a primeira a abolir o uso de pele, em 2007, e questionar a durabilidade das roupas. Até o fim dos seus dias, a estilista britânica escreveu seus próprios cartazes, foi às ruas (ou até o fim da sua passarela) para manifestar suas insatisfações com as decisões tomadas na política, relacionadas às mudanças climáticas ou por grandes líderes no geral, principalmente locais. Ela, frequentemente, destacava sua posição antinacionalista. Pena que Vivienne sempre esteve errada com uma de suas grandes colocações. Certa vez, disse que a única vez que o Reino Unido foi interessante foi no período da rainha Elizabeth I e Shakespeare. O impacto cultural de Westwood transcende a moda, principalmente relacionada às ruas, e a música. Essa composição de elementos do punk pode ser visto à exaustão nas coleções de diversas grifes tradicionais, incluindo Chanel e Dior, seja na beleza ou na roupa em si, de forma comercial e de fácil assimilação. Talvez, a grande dama, que nos deixou na última quinta-feira, dia 29 de dezembro, não entendesse que, nesta frase, só falta ela.

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