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Kika Gama Lobo Por Atitude 50 Focada na maturidade como plataforma pessoal, a jornalista Kika Gama Lobo escreve sobre as sensações e barreiras que as mulheres de 50 anos vivenciam

O poder da feia

"A maturidade repagina. Confere elegância, altivez, sobriedade e percepção dos nossos melhores ângulos"

Por Kika Gama Lobo 7 nov 2018, 01h44

Eu era popular. Boazuda. Loura e chamativa. Sempre tive mais amigos homens, espécie de fã-clube particular. Era bem avant-garde, atirada. O tempo passou. Tentei me manter razoável, sem o vigor da juventude.

Não sou nenhuma Brastemp, mas tô na média. Rugas, celulite, barriguda. Não há como fugir a menos que se viva em cativeiro da beleza. Tô fora. Mas esbarrei outro dia com uma amiga de escola. Sendo preconceituosa: era daquelas meninas feinhas, magrinhas, escondida atrás de óculos. Perfeita pro bullying que fiz adoidado na era do pré-politicamente correto. E não é que se não fosse ela a me reconhecer, não teria tido o choque do encontro.

A medonha estava linda. Madura e chique. Magra. Cabelos corretamente cortados, vestido impecável, bolsa bacana, sandália moderna (tenho mania de olhar pisantes) e uma cara que sabia que estava com a bola toda. Me olhou com um desprezo que a olhei outrora. Sabia que havia mudado. Sabia que havia desabrochado.

Num minuto, mudei de lugar com ela me sentindo o cocô do cavalo do bandido e ela, a última Coca-Cola do deserto. Num átimo, nosso “ah, quanto tempo” ecoava na minha mente “como ela conseguiu?” e naqueles segundos que nos saudamos, uma eternidade de raiva cobriu meu céu. E voltei pra casa encafifada.

Refleti e desaguei no óbvio. O tempo melhora as pessoas feias. Se nasceram mais ou menos, tem todas as chances de, ao encontrar um estilo mais exótico ou clássico, um guarda roupa que favoreça suas qualidades e escondam as imperfeições, e sobretudo injetem – através da pressão de terem sido chamadas de horrendas a vida toda – aquela dose tardia de autoestima, não terá pra ninguém.

Então, feias, me ouçam: a hora é essa. A maturidade repagina. Confere elegância, altivez, sobriedade e percepção dos nossos melhores ângulos. Já as outrora belas, murcham com o apagar da existência. Bóra então aprender com o patinho-feio? 

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