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Ana Claudia Paixão A jornalista Ana Claudia Paixão (@anaclaudia.paixao21) fala de filmes, séries e histórias de Hollywood

Os 80 anos de uma lenda chamada Barbra Streisand

Como feminista incansável, a atriz “ousou” quebrar as regras e se tornou uma lenda viva

Por Ana Claudia Paixão 22 abr 2022, 14h23

Se há uma mulher que é respeitada e adorada em Hollywood essa mulher é Barbra Streisand. Talvez ela seja um dos melhores exemplos do que chamamos de “lenda viva”. Uma supermulher, um símbolo e um exemplo de força, decisão, uma artista politizada e determinada. Seus recordes em vendagens de álbuns a colocam no patamar de Elvis Presley e os Beatles. Em Hollywood, coleciona Oscars, Grammys, Emmys, Golden Globes e outros prêmios.

Antes dos 30 anos, Barbra já era uma das maiores estrelas mundiais do cinema. Não é surpresa que, por décadas a fio, tenha também ficado conhecida como “diva” ou “difícil”. Como feminista incansável, a atriz “ousou” quebrar as regras, por isso pagou o preço. Seria impossível que no seu aniversário de 80 anos (no dia 24 de abril), ainda na ativa, não fizesse uma homenagem a ela.

Nascida, no Brooklyn, Barbara Joan Streisand, sempre foi especial. Seu pai faleceu quando ainda tinha menos de 2 anos. Portanto, as condições financeiras da família ficaram comprometidas e eles precisaram viver com os avós até que sua mãe se casasse novamente. Por essa razão, a artista diz que as lembranças de sua infância são dolorosas. Para piorar, sua (hoje famosa) timidez não a ajudou socialmente e, juntando o fato de que para os padrões de beleza da época Barbra estava longe do que chamavam de “bonita”, ela sofria bullying na escola e detestava estar em público. Paradoxalmente, ainda menina já sonhava com uma vida no mundo do entretenimento, mas não tinha apoio em casa. Sua mãe, sempre “franca”, a lembrava que – “por não ser atraente”, teria menos chances nos palcos. Parte dessa relação complicada foi relatada por Barbra anos mais tarde, no filme O Espelho tem duas Faces, de 1996, com Lauren Bacall no papel de sua mãe.

Determinada a vencer, Barbra cantava no coral da escola (onde conheceu Neil Diamond, com quem viria a fazer sucesso cantando You Don’t Bring Me Flowers) e chocou a família ao decidir não ir para faculdade, mas começar imediatamente sua carreira artística ainda aos 15 anos. Negociou com Alan e Anita Miller que trabalharia como babá para os filhos deles em troca de uma bolsa de estudos na prestigiada escola de interpretação do casal. Assim que pôde, mudou para Manhattan, onde conheceu o igualmente iniciante ator Elliot Gould, com quem se casou em 1963 e teve seu único filho, Jason. Os dois ficaram juntos por oito anos e são amigos por uma vida inteira.

No início, Barbra queria ser apenas atriz, mas foi encorajada a trabalhar cantando em night clubs para pagar as contas. Foi nessa época que “Barbara” passou a assinar sem o “a” no meio, virando oficialmente “Barbra Streisand“. Segundo contou, a decisão foi tomada para que seu nome se destacasse. Já sabia dos negócios! Também descobriu que era divertida. Isso mesmo, Barbra é intensa e engraçada em igual medida. Mas o lado flamboyant, segundo ela, nasceu para encobrir a timidez, imitando as drag queens com quem convivia nos cabarés.

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Chegar aos palcos da Broadway não foi um passo inesperado. Estreou com tudo no musical I Can Get it For You Wholesale, em 1962, já ganhando o prêmio do New York Drama Critics e recebendo sua primeira indicação ao Tony. Da gravação do álbum, ela foi contratada pela Columbia Records para uma carreira solo e lançou The Barbra Streisand Album no ano seguinte, ganhando dois Grammys (incluindo Melhor Album do ano) e, na época, foi a artista mais jovem a receber esse reconhecimento. O álbum também ficou como um dos mais vendidos de 1963.

Já era um nome forte dos musicais quando estrelou Funny Girl- A Garota Genial, sobre a estrela Fanny Brice. A produção ficou em cartaz por mais de dois anos e Barbra foi mais uma vez indicada ao Tony. A canção People, da peça, foi o primeiro dos Top 10 da carreira da estrela. Hollywood logo bateu à sua porta, especialmente porque ela já era também uma estrela da TV, com o enorme sucesso do programa My Name is Barbra, pelo qual ganhou 5 Emmy Awards. Apesar de nova, ela já mostrou sua força ao exigir, e conseguir, total controle artístico dos shows, nascendo aí a lenda machista de controladora e complicada que a perseguiria por muitos anos.

Com o filme Funny Girl- A Garota Genial, Barbra venceu o Oscar de Melhor Atriz, além de outros prêmios. Sua fala “Hello, Gorgeous” (Parafraseando uma frase do filme Funny Girl) para a estatueta do Oscar é uma das mais famosas citações do show business até hoje. Uma vez no cinema, virou uma celebridade mundial mesclando comédias e musicais, mas mais uma vez mudando os negócios ao abrir sua própria companhia e produzir filmes mais antenados com questões feministas. Sucessos e clássicos, como Nosso Amor de Ontem e a refilmagem de Nasce Uma Estrela, em 1976, com roteiro de Joan Didion e pelo qual ganhou o Oscar de Melhor Canção com Evergreen.

Barbra Streisand
Barbra Streisand no filme Funny Girl- A Garota Genial. Funny Girl- A Garota Genial/Reprodução

A carreira musical se manteve em igual ou maior destaque do que a cinematográfica, com Barbra sendo uma das artistas com maior vendagem de todos os tempos. Flertou com vários estilos musicais, mas o álbum que vendeu mais foi o produzido por Barry Gibb, dos Bee Gees, nos anos 1980s. Quando estreou como diretora, em 1983, com o musical Yentl (como ela mesmo define, um filme que conta a história de uma mulher que “ousou não querer se casar para poder estudar”), gravou um dos seus mais belos álbuns, com seus parceiros amigos e colaboradores, Michel Legrand, Alan e Marilyn Bergman. O filme foi grande sucesso, embora o gênero de musicais estivesse em baixa na época e ela tenha sido esnobada na categoria de direção na Academia.

Aliás, a falta de reconhecimento pela contribuição de Barbra como uma excelente diretora ainda é uma das vergonhas de Hollywood. Ela foi reconhecida em 1991 (a terceira mulher na História), pela Directors Guild Awards pelo filme O Príncipe das Marés, mas nunca ganhou o Oscar nessa categoria. Tentaram homenageá-la ao tê-la entregando à Kathryn Bigelow o primeiro Oscar para uma mulher diretora, mas, como nos últimos anos Barbra tem trabalhado menos e apenas como atriz, ficou essa mancha e injustiça com ela para serem sempre mencionadas. Nesse feriado, vale buscar nas plataformas (estão em várias) seus filmes e shows, só para matar as saudades. Aos 80 anos poderosa, linda e inigualável, seu nome é Barbra Streisand. Como se precisássemos ser lembrados.

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