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Ana Claudia Paixão A jornalista Ana Claudia Paixão (@anaclaudia.paixao21) fala de filmes, séries e histórias de Hollywood

Na conclusão de ‘Grace e Frankie’, minha saudade é de Brianna Hanson

Personagem interpretada por June Diane Raphael pode ganhar spin-off

Por Ana Claudia Paixão Atualizado em 7 Maio 2022, 14h50 - Publicado em 7 Maio 2022, 09h51

A leitora me perdoa? Sei que é fim de semana do Dia das Mães, mas dedico essa coluna a uma personagem que chamamos de complicada apenas porque se recusou a abraçar a maternidade. Em sua defesa, ela faz parte de uma família de egoístas, com exceção de sua irmã, e foi apresentada por sete anos como uma mulher insensível, que serviu para hilárias tiradas cômicas na série da Netflix, Grace e Frankie. Estou falando de Brianna Hanson, filha da igualmente nada maternal Grace Hanson (Jane Fonda). Para quem acompanhou, Brianna era tudo na série!

Interpretada pela atriz June Diane Raphael, que na vida real é mãe de dois filhos, Brianna é a filha mais velha de Grace e Robert Hanson (Jane Fonda e Martin Sheen).  Cínica como os pais, cruel, poderosa e “assustadora”, tem 40 e poucos anos, é independente, bem-sucedida e não cede às expectativas alheias. Em outras palavras, a típica “mulher difícil” em tempos machistas. Vale ser revista.

Primeiro, Grace e Frankie foi uma das séries originais e exclusivas com grande longevidade dentro da Netflix, o que é um marco duplo, porque a plataforma investe mais em conteúdos de vida curta. Mesmo com elenco que começou septuagenário, a série teve nada menos do que 7 temporadas, ou seja, sete anos, com as atrizes principais terminando a série já octogenárias. Os autores, que também criaram Friends, lançaram o projeto em 2015, trazendo o tema da terceira idade e seus desafios para as telas com humor e sensibilidade. No meio de tudo isso, quem frequentemente roubava a cena e ganhava espaço, foi Brianna Hanson, uma mulher que “é assumidamente poderosa e realmente possui sua sexualidade e força”, como a própria atriz descreveu com perfeição em uma entrevista para Hollywood Reporter.

brianna grace and frankie
Mesmo cedendo de vez em quando, Brianna se mantém fiel ao seu desejo de não ter filhos. Netflix/Divulgação

Quem acompanhou, viu que o arco da personagem foi incrível, com a executiva totalmente insensível levemente se abrindo para o amor em uma relação de cumplicidade com Barry (Peter Campbell), que, SPOILER ALERT, chegou a um impasse final que passou a ser justamente a semente para um merecido spin-off, algo que pode acontecer. June, que além de excelente comediante também é roteirista, assinou o filme Noivas em Guerra (Bride Wars), ganhou a benção dos showrunners e já apresentou o projeto para Netflix, que está avaliando a possibilidade.

A atriz gostou da solução que Marta Kauffman e Howard Morris encontraram para Brianna na temporada final. Segundo contou, a ideia do spin-off surgiu ainda na 4ª temporada, quando a transformação da personagem ficou mais evidente. Para June, que, como disse, é mãe na vida real, ainda há um estigma em torno das mulheres que não têm filhos, uma bandeira defendida por Jennifer Aniston, por exemplo, e que tem potencial de ser aprofundado. Um sinal claro do preconceito veio pelo ato falho da própria intérprete, que em outra entrevista, para Vanity Fair, brincou que Brianna faz parte de um grupo de “personagens dementes”, que é um julgamento implícito por suas escolhas. Porém, como também elogiou, Brianna evoluiu sem necessariamente se comprometer com as regras impostas às mulheres.  Por isso a proposta do spin-off é a de justamente começar onde nos despedimos de Brianna em Grace e Frankie, que se uniu à irmã, Mallory, para recomeçar um novo empreendimento.

Minha defesa à Brianna é conceder que embora não tenha sido nunca uma personagem simpática, teve sorte de ter uma atriz inteligente lhe dando vida. Porque ela facilmente poderia ter sido apenas um alívio cômico, na sua sociopatia como consequência da falta de carinho e atenção que sofreu quando criança. Apenas com Frankie (Lily Tomlin), ela chega perto de baixar a guarda. A verdade é que a autenticidade e a força de Brianna estavam sempre a olhar as coisas com objetividade. Mesmo sendo contrária, tentou um relacionamento monogâmico com Barry, desistiu da carreira e até conseguiu mostrar alguma vulnerabilidade, mas, no final das contas, ao admitir não querer ser mãe, “perdeu” o namorado. Tá, eu sei que Brianna era um monstro com horror a crianças, nem dos sobrinhos gostava, mas seu exagero cômico não esconde o preconceito que uma mulher sofre se escolhe não procriar. E mais, para atriz e roteirista, aos 40, Brianna representa um modelo relevante, pois, em suas palavras, “na nossa cultura a moeda das mulheres é desvalorizada à medida que envelhecemos” e o fato de Brianna escolher fazer isso – envelhecer – sem marido ou filhos, ainda é visto como ousado e “louco”.

O piloto do spin-off foi escrito durante a pandemia e está aguardando a resposta da Netflix. Com a conclusão de Grace e Frankie, fico na torcida que essas mulheres fortes nos deixem com uma continuação. Na torcida pelo spin-off de Brianna Halson!

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