“Precisamos acreditar e nunca desistir”, aconselha DeeDee Trotter

A medalhista olímpica falou com CLAUDIA sobre passagens marcantes da vida de atleta que a motivaram a seguir nas pistas de corrida

Acreditar em seu potencial sempre foi o principal incentivo da medalhista olímpica DeeDee Trotter, 34 anos, ao longo de sua vida como atleta. Essa é a principal mensagem que a velocista norte-americana tenta passar a cada palestra que realiza pelo mundo.

Nos encontros, a dona de duas medalhas de ouro no revezamento 4×400 (Atenas 2004 e Londres 2012) e uma de bronze pelos 400 metros rasos (Londres 2012) incentiva o público a ter autoconfiança e acreditar que é capaz de atingir seus objetivos.

Em passagem pelo Brasil, DeeDee conversou com CLAUDIA sobre sua carreira no mundo dos esportes e contou passagens importantes que a motivaram a seguir nas pistas de corrida, como a grave lesão no joelho de 2008 que a fez lutar contra a dor para seguir nas Olimpíadas de Pequim e a motivou a subir no pódio de Londres.

CLAUDIA: Por que você decidiu ser uma velocista

DeeDee Trotter: Eu costumava praticar esportes até os 10 anos de idade, quando comecei a jogar basquete. Nunca, em minha vida, havia cogitado me tornar uma atleta das pistas. Eu era rápida, mas amava o basquete. Aos 15 anos, comecei a correr como competidora. No ensino médio eu praticava as duas modalidades, mas o basquete era o meu esporte preferido.

Tudo mudou aos 18 anos, quando precisei decidir em qual faculdade iria estudar. Acabei escolhendo instituição com programa para corredores, já que eu não tinha muitas oportunidades nem ofertas para jogar basquete na época.

Do ensino médio ao primeiro ano da faculdade, eu corria provas de 100 e 200 metros; posteriormente, passei a competir nas de 400 metros. Foi assim que eu comecei meu longo relacionamento com as pistas de corrida e deixei para trás o basquete.

CLAUDIA: Você se lembra de alguma passagem marcante de sua vida como atleta?

DeeDee: Uma de minhas lembranças mais marcantes dos tempos de atleta diz respeito aos Jogos Olímpicos de Pequim. Eu era parte da equipe olímpica e estava com uma lesão grave em meu joelho esquerdo – que poderia ser permanente. Mesmo assim, eu não desisti, não desabei e corri com um buraco em meu joelho tecnicamente.

Depois de Pequim, acreditei que as coisas iriam dar certo. Afinal, eu tinha feito parte do time das Olimpíadas, lutei contra a lesão e as expectativas para correr bem estavam altas. Mas aconteceu o contrário.

Eu estava correndo lesionada desde abril e os Jogos foram em agosto. Ou seja: eu corri lesionada por muito tempo. Porém, durante as Olimpíadas a lesão me deu o sinal de que eu não estava apta para correr.

Esta história pode ser pouco triste, mas eu estava muito animada porque até então eu tinha conseguido correr apesar da lesão, tinha feito parte do time olímpico dos EUA. E esta jornada não deu certo. Mas ela se tornou a minha motivação para subir no pódio quatro anos depois, nos Jogos de Londres.

CLAUDIA: Você acredita que correr lesionada em Pequim foi uma boa escolha?

DeeDee: Acredito que era a única escolha que eu tinha na época. A alternativa era não correr e fazer uma cirurgia que colocaria o fim a minha carreira.

Então eu ponderei: realizar uma cirurgia que impossibilitaria de correr com a mesma performance que eu tinha e de participar de uma Olimpíada novamente ou me permitir uma última tentativa de participar dos Jogos. Se eu fizesse a cirurgia depois de Pequim, pelo menos havia tentado.

Eu não me arrependo da minha decisão. Este esforço me motivou após a cirurgia [feita logo após as Olimpíadas]. Eu sentia que tinha muitas provas a correr.

Porém, eu nunca imaginei que teria que me esforçar muito não só para uma temporada, mas para as próximas três. Eu perdi todas as corridas em 2009, 2010 e 2011. Anos de derrotas. Não acho que eu acreditava que seria possível continuar se eu não tivesse me forçado a persistir e passado pela experiência de 2008.

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CLAUDIA: Qual foi o sentimento ao ganhar os Jogos de Londres de 2012?

DeeDee: Foi muito recompensador. Especialmente porque muitas pessoas não acreditavam que eu seria capaz de estar lá. Eu posso contar nos dedos das mãos quem realmente me apoiou e acreditou – mesmo comigo competindo extremamente bem em 2012.

O que acontece é que se você não ganha, as pessoas não reconhecem que você está melhorando. Em uma das corridas de 2012, um comentarista fez o seguinte comentário depois que eu cruzei a linha de chegada em uma das minhas provas: “Que corrida maravilhosa da DeeDee Trotter! Ela não correu bem durante a temporada, mas veio aqui e vai fazer parte da equipe olímpica pela terceira vez!”

Eu refleti por um momento sobre o que ele havia dito. Por onde este homem andou durante a temporada? Pelos meus resultados, tudo o que fiz foi correr bem durante a temporada – a melhor da minha carreira, por sinal.

Na primeira corrida de 2012 eu fiz 50.94 segundos nos 400 metros – a marca mais rápida do mundo naquele ano. Ninguém havia corrido mais rápido do que eu até então. E eu nunca tinha feito isso antes. Nem mesmo antes de minha cirurgia. Eu nunca tinha marcado 50 segundos em minha primeira corrida do ano.

Portanto, eu tive três grandes vitórias: quebrei a barreira dos três anos de derrotas, quebrei um recorde de minha carreira e ainda marquei o melhor tempo do ano. E a cada corrida eu ficava cada vez mais veloz.

Tempos depois, chegou a época do time norte-americano ser formado para as Olimpíadas. E tudo o que eu precisava era me manter entre as três primeiras colocações em competições para poder fazer parte da equipe. Em uma delas eu cheguei em segundo lugar com a marca de 50.02 segundos.

O comentarista pode ter dito que eu fiz uma temporada ruim, mas ele o fez porque não me acompanhou ao longo do ano; para mim, 2012 foi a melhor temporada de minha carreira. Definitivamente.

CLAUDIA: Em seus discursos você fala bastante sobre a importância de tomarmos as escolhas certas. Em sua vida, você se lembra de alguma escolha certa que tenha sido marcante?

DeeDee: Acredito ter acertado em ter escolhido a pista de corrida [em vez do basquete], de me mudar para a Califórnia para acompanhar minha técnica e de finalizar meus estudos em sociologia.

Muitos estudantes, depois de assinarem seus contratos, largam os estudos já que o objetivo da maioria é se tornar um atleta profissional. E este não era o meu propósito, mas conseguir um diploma.

Assim, depois de assinar meu contrato, voltei direto para a faculdade. Porque a vida de um atleta dura até os 35 anos. E depois? O que fazer no restante da vida sem uma graduação? Para mim, parecia loucura frequentar a faculdade por três anos e não concluir o curso.

CLAUDIA: E quanto às escolhas erradas? Alguma marcou sua vida?

DeeDee: Algumas das escolhas que eu fiz na vida tem a ver com sacrifícios. Eu me arrependo de ter perdido alguns funerais.

Em 2015, minha avó faleceu próximo ao feriado de Ação de Graças. Na época, eu sabia que estava em minha temporada de aposentadoria. Em dado momento eu me perguntei “Devo voltar para casa e ver minha avó no fim de semana?” E a resposta foi “não”. Eu acreditava que precisava seguir com minha rotina, com meus treinos e na terça-feira da próxima semana eu voaria até Phoenix como sempre. Mas alguma coisa em minha mente me avisava: “Volte para casa e vá ficar com sua família. É o fim da jornada mesmo.” Ela morreu na segunda-feira. Este é apenas um exemplo, porque houve outras situações parecidas.

CLAUDIA: Qual é o conselho que você dá para as mulheres que desejam aprimorar sua vida profissional e pessoal?

DeeDee: A vida é muito rígida para as mulheres. Logo, precisamos estar dispostas a lutar – principalmente daqueles que zombam de nossa independência e força.

Precisamos seguir lutando pela evolução [da sociedade], por mudanças, para que possamos dar o nosso melhor. Mulheres devem estar em posição de liderança de comunidades, de escolas, de nações, de empresas. Não porque queremos roubar o lugar de alguém, mas porque podemos ser igualmente incríveis nesses postos como qualquer pessoa. É uma questão de se permitir mostrar o seu melhor. É preciso acreditar em si mesmo. O medo é o desafio mais difícil que as pessoas precisam lidar diariamente. Ao ponto delas deixarem de se conhecer, de acreditarem que são capazes de realizar atos incríveis; de começarem a se sentir fracassadas, desapontadas, perdidas e por não atingirem seus objetivos. Isso tudo as leva a deixar de tentar. Precisamos acreditar e nunca desistir.

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