Estudante se transformou em empreendedora após roubo

Stephanie Bevilaqua, 25 anos, perdeu todo o dinheiro que pagaria mais um semestre de seu mestrado. Mas encontrou uma forma de criativa de recuperar o valor

“Se alguém me dissesse que um assalto faria bem a uma pessoa, eu nunca acreditaria. Quando trabalhava como jornalista, já ouvi e contei histórias inspiradodas – como a do Fradinho, um restaurante fundado pelo joalheiro Rodolfo Penteado, depois de ser baleado, para ajudar jovens marginalizados. Mas comigo? Seria clichê demais acreditar na história de que também há luz na escuridão.

Janeiro havia sido um mês complicado. Tive um celular queimado e uma perda em um HD, que é um disco rígido de armazenamento de dados. É muito importante pra quem precisa guardar arquivos para trabalhar, como no meu caso, que tinha um filme inteiro para edição. Os dois eletrônicos são caros, pior ainda se os gastos não são planejados.

Apesar das supostas férias no Brasil, trabalhei muito. Saldo positivo, apesar de tudo. Graças a um emprego temporário que caiu do céu, eu teria a quantia certa para pagar os meus próximos três meses de mestrado em Buenos Aires, na Argentina, onde estudo cinema.

Fiquei muito contente, afinal, acabava de receber o dinheiro. Saquei tudo e troquei pela moeda local na volta pra casa. Eram 16 250 pesos argentinos, o equivalente ao que precisava acrescentar à bolsa de estudos para liquidar o trimestre.

Na volta para casa, de carro, ouvi um barulho. Era o vidro quebrando. Liguei para o meu pai, ainda tremendo. A adrenalina era tamanha que não havia percebido que tinham levado a minha mochila: um  garoto estourou a janela do carro no farol e roubou  absolutamente todo o meu dinheiro.

‘Por que comigo? Logo eu? Que ajudo as pessoas, que sou generosa’, comecei a me questionar. Eu não me conformava. Não podia acreditar. Voltei no dia seguinte na região do Glicério, em São Paulo, carregando um bloco de notas com o número do meu telefone anotado. Saí distribuindo no caso de que alguém encontrasse a minha mochila ou ouvisse uma história de câmbio. Caminhei muito. Conversei com gente em situação de rua, em situação de lixo. Sentia um cheiro horrível que ficou impregnado na minha memória. Voltei pra casa e pensava: ‘por que com ele? O que leva alguém a se submeter a quebrar o vidro de um carro, se machucar’. Não acredito que seria capaz de fazer um dia algo parecido, mas também não imagino o que seja viver naquela desgraça.

Fiquei mal. Eu já não podia mais levantar da cama. Minha mãe chegou e me incentivou a dar um limite ao meu luto. ‘Você é nova. Dinheiro vai e vem. Você tem as duas pernas, os dois braços. Vai conseguir tudo de volta. Diferente da pessoa que fez isso com você que pode perder a vida a qualquer momento’.

Levantei no dia seguinte e coloquei um lenço colorido na cabeça. ‘Pronto, vou vender essas faixas’, pensei. Saquei 100 reais no banco, comprei tudo em produtos.

Fiz um vídeo contando a minha história e criei perfis de venda nas redes sociais: Las Vinchas. Fotografei todas elas, publiquei e comecei a espalhar entre os meus amigos para que compartilhassem. Levei também na redação de CLAUDIA, onde já trabalhei, e todo mundo fez posts para me ajudar.

Poucos dias depois, estava refazendo os documentos roubado, quando a produção do Encontro com Fátima Bernardes, da Rede Globo, entrou em contato comigo. Eles souberam da minha história pelo Instagram e me convidaram para participar da atração, que é transmitida do Rio de Janeiro. Então eu fui! Por coincidência ou não, acabei perdendo minha viagem de Carnaval, justamente para a Cidade Maravilhosa, por conta do assalto.

Foi uma experiência incrível! Eu recebi muito carinho dos convidados, como os atores Rafa Vitti e seu pai, João Vitti. A apresentadora Fátima Bernardes também foi muito atenciosa! Não estava combinado que ela provaria a faixa de cabelo, mas ela não só vestiu, como passou a manhã toda de “vincha”.

Não deu outra: recebi uma enxurrada mensagens de telespectadores nas redes sociais. Muitos pedidos, mas também muitos recados de incentivo, outras mulheres dizendo que se inspirariam na minha história.

Pode parecer mesmo clichê, mas acredito cada dia mais que colhemos aquilo que plantamos. Se isso deveria ou não acontecer comigo, eu não sei. E também não desejo que aconteça com ninguém e espero que cada vez menos o ser humano se submeta a tirar algo do outro. Porém, todos os sorrisos que eu distribui voltaram com força.

O volume de trabalho aumentou tanto, que precisei montar uma rede de apoio. Eu revi todo mundo que eu queria e sentia saudades. Ex-colegas de trabalho, ex-chefes, companheiros de faculdade, de colégio, parentes distantes, amigos de amigos dos amigos.  conheci pessoas iluminadas. Cada um me ajudou do jeito que pôde: um troco que não pediu de volta, uma foto que compartilhou, uma carona, um abraço, uma mãozinha na administração das vendas.

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já falei e vou repetir: muitas pessoas em processos de quimioterapia me procuraram muito felizes e animadas com as vinchas! uma mãe me ligou semana passada e disse que viu com a ju, filha dela, o programa lá do hospital. a ju já se recuperou de um câncer e agora está fazendo químio só por precaução 😊 ela me disse também que a ju abriu um sorrisão quando viu as vinchas e já tá apaixonada por poder variar com a peruca 🤪 eu chorei bastante de emoção e felicidade! e resolvi ajudar tbm – já que tá todo mundo tá me ajudando muito 💕 o frete é grátis pra quem tiver fazendo químio tá bem? e as compras serão exclusivas comigo! chama no direct, chama no whats! mais vinchas hoje no mercado livre!!! (agora o frete lá é mais barato, é mais seguro, é mais organizado) 🙏🏾✨💘😊 #lasvinchas

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Isso sem falar no time de costureiras experientes,  com mais de 40 anos de profissão, que me forneceu as faixinhas e ficou orgulhoso de ver seu trabalho ganhar o Brasil – e o mundo! As vinchas já foram vendidas para todos os estados tupiniquins e cidades ao redor do globo, como Londres, Paris, Nova York…

A moral da história é que a vida, às vezes, dá dessas mesmo, mas sempre pode ter algo bom nos esperando. Já consegui comprar um lote de duas mil Vinchas. Estou com um batalhão de amigos reunidos ajudando a responder as mensagens que não param de apitar no meu celular. Fiz uma lojinha virtual (aqui) e já estou planejando a nova coleção.

Ficou o aprendizado: jamais desistir de sorrir! Eu nasci para ser feliz e para brilhar. E isso, ah, ninguém me tira!”

Stephanie Bevilaqua, dona da marca de acessórios Las Vinchas, em depoimento a CLAUDIA.

 

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