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Do lar, com orgulho

As novas Amélias: mulheres que decidiram ser mães e donas de casa em período integral contam suas experiências

Por Redação M de Mulher Atualizado em 15 jan 2020, 22h15 - Publicado em 18 jun 2013, 21h00

Diferente das donas de casa de antigamente, a mulher hoje em dia tem o poder de escolher
Foto: Getty Images

Sandra tomou a decisão de ficar em casa com o marido, mas chegou até a se separar, pois, apesar de decidida, se sentia desvalorizada no papel de mãe. Ana Carolina largou a carreira ainda no começo para ter mais tempo para os filhos, jamais se arrependeu e, agora que as crianças cresceram, ensaia uma volta ao mercado. Pérola se sente privilegiada por poder se dedicar à casa e aos filhos.

O poder de escolher é uma das grandes diferenças das mulheres de hoje em relação às “Amélias”, as donas de casa de antigamente, que não tinham outra opção de vida. Hoje, se a situação financeira permitir, é possível, sim, tomar essa decisão. “Que delícia de mundo ‘novo’, em que podemos optar. Não há certo ou errado. Há escolha e consciência!”, diz Pérola.

Segundo a psicóloga Tatiana Gardellini, especializada em gestantes de alto risco, esta decisão é muito diferente dependendo da classe social. As mulheres que ela atende na Santa Casa de São Paulo, por exemplo, são, em sua maioria, de classes D e E. “Para elas, que não tiveram muito estudo, a realização pessoal está totalmente ligada à maternidade e aos cuidados com a casa e a família. A maioria delas trabalha por necessidade – se pudesse escolher, ficaria em casa”, diz Tatiana. Já com as pacientes da psicóloga que pertencem às classes A, B e C, o conflito é o oposto, pois para elas a realização pessoal está também ligada à carreira. “O dilema delas está em como conciliar maternidade e vida profissional”, explica.

Na história

Em 1967, a revista Realidade, publicada pela Editora Abril, fez uma pesquisa com suas leitoras. Ela queria saber se a mulher poderia se sentir realizada sendo somente esposa, mãe e dona de casa. A grande maioria das leitoras respondeu que sim: 81% delas acreditavam que a realização da mulher estava dentro do lar e somente nele. Quase meio século depois, em 2010, a Revista Veja fez a mesma pesquisa com suas leitoras. O resultado? Exatamente o oposto: 81% delas responderam que não se sentiriam realizadas se não tivessem uma carreira

Mães em tempo integral

“Eu trabalho dentro!” – Ana Carolina Hassenpflug, 32 anos

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“Trabalhei desde os 17 anos – primeiro como recepcionista de eventos, para ajudar a pagar a faculdade de propaganda e marketing, depois já como estagiária e contratada em empresas. Quando me casei, aos 22, cuidava do relacionamento com clientes de uma seguradora e amava meu emprego. Sempre quis ser mãe e, depois de 4 anos de casada, achamos que era a hora. Já pensava em não voltar ao trabalho depois da licença, mas confesso que é uma decisão que eu dificilmente teria tomado sozinha. Eu e o meu marido vimos que o meu salário não faria tanta diferença no orçamento familiar, principalmente se tivéssemos que pagar uma babá ou uma creche em período integral. Acredito que isso aconteceu porque eu estava no começo da carreira e ainda ganhava pouco – talvez minha decisão tivesse sido outra se meu ganho mensal fosse mais alto. Durante os primeiros anos da Helena, tive várias propostas para participar de seleções de novos trabalhos. Até balancei, mas neguei um a um, pensando no que iria perder. Logo veio o Heitor, e eu decidi que proporcionaria a ele o mesmo que eu proporcionei à Helena: queria participar da vida dele, educar… ao menos nos primeiros anos. Agora estou começando a ensaiar uma volta ao mercado, mas sei que será difícil depois de oito anos afastada. Ainda assim, não me arrependo da minha decisão: me sinto realizada no meu papel de mãe, o que para mim era o mais importante. Quando alguém insinua que eu ‘não faço nada’ porque não trabalho fora, respondo que trabalho – e muito – só que dentro!”.
 

“É maravilhoso poder optar” – Pérola Boudakian, 35 anos
 

“Quando engravidei da minha segunda filha, decidi me despedir do formato tradicional de 40 horas semanais como psicóloga de uma empresa, com chefes, reuniões, sair às 6h da manhã e só voltar às 7h da noite. Aos poucos, fui voltando a atender no consultório e hoje também faço um trabalho artesanal com produção de alimentos saudáveis, mas estou 70% do tempo cuidando de perto das crianças, gerindo a casa e me atualizando. Achava muito angustiante permanecer mais de oito horas por dia longe das crianças e isso não me deixava bem para trabalhar. Amo estar com elas, hoje com 7 e 4 anos, e amo cuidar da minha casa. Me sinto privilegiada por poder viver tudo isso. Sei que as oportunidades profissionais estarão por aí se eu desejar me aventurar de outra forma e tenho encontrado muito prazer em trabalhar da forma como estou neste momento. Acho que existem muitos protocolos para o que é ser mulher: tem que estar malhada, maquiada, bem vestida, sexy, bem sucedida, etc, etc, etc. Hoje em dia, penso que devemos estar felizes com nossas escolhas e que sejam funcionais para cada uma. Temos o poder de escolher, de tomar consciência e de arcar com as conseqüências. É maravilhoso poder optar!”.

“Eu virei só mãe” – Sandra Novak, 36 anos

“Sou fisioterapeuta e já saí da faculdade empregada. Trabalhava 6 horas por dia em hospital e ainda atendia em consultório, além dos plantões de feriados e finais de semana. Quando casei, resolvi diminuir o ritmo e ficar só com o consultório para ter mais tempo para o meu marido. Veio a nossa primeira filha e tive que deixar os atendimentos até quando ela completou um ano. Só podia atender nas horas em que ela estava na creche, e as contas acabavam empatando. Naquela época, o trabalho acabava sendo só um jeito de arejar a cabeça, de sair de casa. Quando engravidei pela segunda vez, decidi abandonar o consultório de vez para cuidar da família. Eu estava feliz com essa decisão – tomada em comum acordo com o meu marido –, e não me arrependo. Mas acho que errei em algumas coisas. Passei a não cuidar mais de mim e do meu casamento – eu não me arrumava mais, até porque não dá para ficar correndo atrás de crianças maquiada e de salto alto, né? Virei só mãe e ficava ressentida porque o meu marido não valorizava a minha rotina – ele achava que eu ficava em casa vendo televisão. Isso acabou gerando uma crise no relacionamento e nos divorciamos. Decidi, então, voltar a trabalhar e passei a cuidar mais de mim. Ele pegava as crianças para passar o fim de semana e não demorou muito a perceber o quanto de trabalho eu tinha… em seis meses, nos entendemos de novo e voltamos. Agora, atendo pacientes em casa no horário em que as crianças estão na escola. Mesmo que a grana não seja muita, não vou abrir mão disso. Como também não vou abrir mão de estar com os meus filhos, de cuidar da educação deles de perto. O problema hoje é a sociedade – e nós mesmas – exigir que sejamos super-mulheres: mães, profissionais, esposas, amigas perfeitas. Isso é impossível. Aprendi a não me cobrar tanto e a balancear melhor todos os meus papeis”.

 
 

 

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