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Júlia Warken Burburinho, polêmica e reflexão. Jornalista e editora digital de CLAUDIA, Júlia Warken foca o olhar em questões contemporâneas que inquietam as mulheres.

Todo homem trai e não há o que fazer? Não é bem assim

Com depoimentos corajosos, Manu Gavassi e Xuxa Meneghel reacenderam o debate sobre a naturalização da infidelidade masculina.

Por Júlia Warken - Atualizado em 14 fev 2020, 09h25 - Publicado em 13 fev 2020, 13h34

No intervalo de uma semana, duas mulheres famosas ganharam as manchetes por conta de desabafos similares. Manu Gavassi e Xuxa Meneghel abriram o coração sobre ex-namorados infiéis e disseram, sem meias palavras, que os ditos cujos se valeram da naturalização da infidelidade masculina para justificar as (muitas) traições. 

Xuxa tocou no assunto durante uma descontraída entrevista ao youtuber Matheus Mazzafera. Junto com Cleo Pires e Isis Valverde, eles brincaram de “eu nunca” e o assunto traição virou pauta em dado momento. Xuxa falou sobre o assunto com muita naturalidade e citou o nome de Pelé. “Eu fui traída de cabo a rabo. Muito, mas muito. A ponto de eu olhar para ele e ele estar de batom… uma vez ele veio com batom vermelho e eu fiz assim pra ver [faz gesto, tocando nos próprios lábios e olhando para os dedos em seguida] e ‘ué, eu não tô com batom'”.

Ela não parou por aí, e continuou o depoimento, falando sobre como o jogador se justificava. “Era uma atrás da outra. Era normal para ele. Ele falava assim ‘as mulheres querem ficar com o Pelé’. E eu tinha que aceitar isso. Eu era muito novinha, não tinha experiência nenhuma. O que ele falava para mim, eu achava que era verdade”. Xuxa namorou Pelé dos 17 aos 23 e os dois tem 23 anos de diferença.

Segundo a apresentadora, ela passou a acreditar que era normal o homem trair. “Todas nós. No início a gente acha isso, porque a gente é completamente manipulada”, emendou Cleo.

Chocando a todos, Xuxa chegou a relatar situações em que o ex citava o nome das mulheres com quem havia ficado, se gabando do acontecido. “Ele chegava em casa e falava assim ‘O Pelé ficou com fulana de tal. Guarda bem esse nome, que vai ser uma pessoa muito conhecida'”. Essa não é a primeira vez que a apresentadora fala sobre a infidelidade de Pelé, mas já fazia algum tempo que ela não tocava no assunto.

Manu Gavassi, cantora que está confinada na cada do BBB 20, deu menos detalhes sobre suas experiências pessoais e não chegou a citar nomes. Mesmo assim, deixou muito claro que também passou por um relacionamento marcado pela naturalização da infidelidade masculina.

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“Eu fui traída várias vezes e ele falava que isso é coisa de homem. Ele falava que todo homem que você namorar vai te trair, porque é coisa de homem”. Logo depois, deu uma pista bem específica sobre quem seria o dito cujo. “Um cara que depois, Deus me perdoe, mas foi endeusado pelo Brasil, tá? Endeusado. E eu? A Manu, coitada. Manu recalcada por anos”. Não demorou para a internet apontar que Chay Suede seria o ex-namorado em questão.

Histórias como as de Xuxa e de Manu fazem parte da trajetória de inúmeras mulheres. E precisamos ter clareza para ver as coisas como elas são: relacionamentos em que o homem trai, sob a justificativa de que isso é “coisa de homem”, são relacionamentos abusivos.

E isso não significa que a gente esteja ignorando o fato de que muitas mulheres também traem seus parceiros. Homens traem. Mulheres traem. O arrependimento e o perdão podem fazer parte dessa equação e há muitas variáveis envolvidas. Mesmo assim, não dá mais para passar pano na naturalização da infidelidade masculina, como se isso fosse algo da natureza dos homens.

Também precisamos frisar que desabafos de Xuxa e Manu são carregados de coragem, pois muitas mulheres morrem de vergonha de assumir que foram sistematicamente traídas. “Mas porque você continuou com ele?”, “Eu, se fosse você, teria terminado há muito tempo”, “Ah, mas ela continuou sendo corna porque quis, ninguém a obrigou a permanecer com o cara”. Quantas vezes a gente já ouviu comentários desse tipo?

Além de passar pela dor das traições, as mulheres ainda precisam lidar com o julgamento. Com isso, muitas escondem a sete chaves suas histórias e sofrem sozinhas – o que contribui muito para que a naturalização da infidelidade masculina continue firme e forte.

Precisamos quebrar esse ciclo. Além de acabar com a misógina ideia de que traição é “natural para os homens” também temos que, de uma vez por todas, acolher e apoiar as inúmeras mulheres que passam pelo sofrimento da infidelidade sistemática.

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