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Diário De Uma Quarentener Juliana Borges é escritora, pisciana, antipunitivista, fã de Beyoncé, Miles Davis, Nina Simone e Rolling Stones. Quer ser antropóloga um dia. É autora do livro “Encarceramento em massa”, da Coleção Feminismos Plurais.

Queria uma vida só de livros

Há quem ache que eles podem acabar, mas sinto que seguirão resistindo

Por Juliana Borges Atualizado em 16 ago 2020, 16h00 - Publicado em 16 ago 2020, 15h58

Eu sei, o mundo está acabando lá fora. O preço do óleo de cozinha, do feijão e da farinha de trigo não param se subir, fazendo com que cada ida ao mercado se torne uma terrível surpresa. O leite sem lactose foi, por um tempo, colocado em prateleiras com um preço mais “acessível”, apenas para você achar que era possível garantir que sua irmã não vivesse com indisposições. Mas, tão logo você se tornou consumidora fiel, ele também tem mostrado as asas e aumentado a cada mês. O seu leite de amêndoas evaporou e você já está se contentando com o de côco, que também começou a subir e já já você está no de soja, que não fica lá muito gostoso com café. A Fenty Beauty by Rihanna está chegando, mas você já está chorando porque os preços estão às tampas, já que o dólar está cotado acima dos cinco reais, que eu chamo de “cinco golpes”. A cabeça gira, já que aqueles batons são incríveis e as bases também. E, em verdade, você começa a fazer contas para garantir que tudo caiba no seu orçamento, que segue intacto e na mesma, apesar de tudo lá fora não dar a mínima para isso. Ou a solução pouco equilibrada para a sua saúde mental: vou escrever e trabalhar mais. Sim, eu vou fazer isso pela base e pelo batom da Rihanna. Julguem-me.

Mas, no fundo, no fundo, você pensa que seria capaz de mandar tudo isso às favas – não sei se tudo mesmo, porque eu amo um batom vermelho – se a vida pudesse ser só livros. Se você pudesse trabalhar com livros o tempo todo, ler livros o tempo todo, produzir livros o tempo todo. Livros, livros, livros. Eu amo livros. E não consigo muito bem remontar quando e como isso começou porque minhas memórias da mais longínqua infância sempre têm algum livro por perto.

Com minha última mudança, minhas estantes e meus livros ficaram na sala. Mas eu sentia meu quarto vazio. Mesmo na casa anterior, que eu pude ter um escritório todo meu, eu mantinha uma quantidade razoável de livros próximos à minha cama. Talvez, livros sejam meu escudo. Não tem esconderijo e proteção melhores. Quando o mundo está desabando, quando uma série de coisas parecem confluir para piorar os processos de vida, me refugio em livros. E esqueço de tudo ao redor. O que, em algumas ocasiões, acaba até por ser problemático, já que amigos sofrem com isso.

Nesse mundo globalizado, das redes sociais, do Whatsapp notificando a ponto de nos enlouquecer, em que tudo tem ser feito na hora, respondido na hora, o tempo do livro acaba sendo consumido. Há quem ache que o livro pode acabar, mas eu sinto que ele seguirá resistindo. Sempre vai haver um humano que nada contra a maré, que busca o tempo do refúgio, que quer estabelecer outras formas de interação e comunicação. Porque ler é também interagir, é também uma forma de comunicar. Pode não ser com turbilhões de gente, mas algo mais sereno. Ao menos na vista, já que a depender do tema, serenidade é o que não haverá.

Eu gosto das imensas possibilidades que o livro dá. Papéis costurados, cheios de símbolos que dão sentido e forma a tudo o possível que a mente humana pode imaginar. O dia está sendo difícil e é só em livros que eu quero ficar.

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