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Diário De Uma Quarentener Juliana Borges é escritora, pisciana, antipunitivista, fã de Beyoncé, Miles Davis, Nina Simone e Rolling Stones. Quer ser antropóloga um dia. É autora do livro “Encarceramento em massa”, da Coleção Feminismos Plurais.

As crianças crescem

E meus olhos se encheram bobamente de lágrimas quando a vi fazer uma live sobre poesia e poemas infantis

Por Juliana Borges Atualizado em 20 out 2020, 15h31 - Publicado em 20 out 2020, 20h00

Nunca esperei que minha irmãzinha fosse ficar irmãzinha para sempre. E quando me tornei tutora dela, já sabia que estava com uma pré-adolescente, além do aviso que recebi de uma amiga e mãe de que a adolescência chegaria rápido. E chegou. Ao menos, não com uma parte da dor de cabeça que vejo outras pessoas passarem com seus adolescentes. A daqui de casa é tranquila. Gosta de ler e passar o tempo conosco. Mas ela está crescendo.

Já não é possível abraçá-la tanto, o quarto já virou aquele buraco-negro de amontoados, que só um adolescente consegue produzir, os comentários sobre o mundo estão mais sagazes, a observação do entorno também. Mas acho que o golpe mais fundo nesse crescimento foi acompanhá-la no processo de seu primeiro trabalhinho: ser curadora literária infanto-juvenil.

Primeiro que eu nunca vi seus olhinhos brilharem tanto como quando eu a avisei que abriria uma livraria com outros dois amigos. A reação imediata dela foi dizer que trabalharia comigo. E, obviamente, eu tive de ser a voz madura para alertá-la que seu único trabalho na casa, além de cuidar dos bichanos e de algumas tarefas domésticas, era estudar. Mas, a animação era tão grande que ela recebeu o convite para essa oportunidade curatorial.

 Nesse exercício do que tanto ama – pensar, selecionar e ler livros –, eu pude vê-la analisar com cuidado livros, textos, suas recepções e alcance em crianças e outros jovens, se fariam sentido ao projeto curatorial da livraria, qual dos diversos livros ela selecionaria para ter o merecido destaque e porquê faria essas escolhas. E meus olhos se encheram bobamente de lágrimas quando a vi fazer uma live sobre poesia e poemas infantis, sua desenvoltura no ambiente e com o tema.

 A gente sabe, mas é meio doloroso ver crianças crescerem. Pode ser uma dor um tanto egoísta, já que diz respeito ao nosso desejo de tê-los sempre perto de nós e debaixo de nossas asas. Mas, ao mesmo tempo, somos tomadas por uma satisfação imensa quando vemos que esse crescimento tem sido equilibrado, com bases sólidas, com calmaria e amor.

Eu estou dramática, sei. Mas, acho que muitas de vocês me entendem, não é?

PS: mãe, eu achei que não conseguiria dar conta de ser “irmãe”, mas acho que, por enquanto, está tudo certo.

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