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Mulheres se reúnem para falar de cerveja e celebrar o feminismo

O coletivo, liderado pela sommelier Beatriz Ruiz, cria rótulos homenageando mulheres inspiradoras

Por Isabella D'Ercole - Atualizado em 28 ago 2018, 19h14 - Publicado em 28 ago 2018, 18h50

Em uma varanda iluminada por varais de luzinhas, cerca de 40 mulheres brindam. Elas seguram copos de cerveja coloração intensa, âmbar,  e sabor marcante, chamada Kitty. O encontro é da Goose Island Sisterhood, uma confraria de mulheres criada em 2017. “Nosso objetivo é desmistificar o universo da cerveja para mulheres de várias realidades e com interesses diferentes”, explica a sommelier e fundadora da confraria, Beatriz Ruiz. Formada em letras, Beatriz é gerente de conhecimento cervejeiro da Ambev, gerente de marca da Goose Island no Brasil e a primeira brasileira a obter o título de Certified Cicerone, certificado internacional que confirma a capacitação de profissionais de toda a cadeia cervejeira. “Eu comecei a trabalhar nesse mercado em 2012 e percebi que as plateias de eventos eram, normalmente, formadas por homens. Queria trazer mais mulheres para esse mundo.”

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Ela conseguiu. Naquela noite, o agito era grande. Uma DJ tocava músicas suaves, cantadas por mulheres e a animação era palpável. Seria lançado ali a Kitty, o sexto rótulo criado pela confraria, que tem, além de três mestras-cervejeiras, arquitetas, jornalistas, professoras… Foram quatro cervejas no ano anterior, uma por trimestre. Todos os rótulos homenageiam brasileiras que tiveram relevância nas áreas em que trabalharam. “E o lucro da venda é doado para diferentes instituições de caridade que trabalham com empoderamento feminino”, diz Beatriz. No dia em que CLAUDIA esteve presente, a instituição escolhida foi a Associação Beneficente Fraternitas Nosso Lar, que auxilia mulheres grávidas e idosas sem apoio familiar.

Para Beatriz, a cerveja é um objeto social, que reúne pessoas em casa, no bar, com o par ou com os amigos. “É a bebida mais democrática do mundo, que chega a diferentes pessoas, de diferentes classes sociais, religiões, localizações. Acho que fala com todas essas pessoas, então pode passar uma mensagem.”

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As cervejas femininas e feministas

A primeira cerveja criada foi para a escritora Carolina Maria de Jesus, nascida em 1914. Moradora de favela em São Paulo e catadora de lixo, ela retratava o cotidiano em cadernos. Foi uma das primeiras autoras negras do pais e expôs de maneira crua e realista a luta para melhorar a condição financeira e conquistar respeito por ser mulher e negra. Depois, Enedina Alves Marques foi a homenageada. A curitibana foi a primeira negra a se formar engenheira no país. Em seguida veio Nísia Floresta, a precursora do feminismo brasileiro. Educadora, fundou a primeira escola do país que ensinava ciências e línguas para as meninas. Essa cerveja foi criada em parceria com a ONG feminista Think Olga. A quarta foi Luz Del Fuego, dançarina capixaba que cavou os direitos das mulheres. Quem se juntou ao projeto desse rótulo foi o Maravilhosas Corpo de Baile, grupo feminino e feminista de dança paulistano.

Beatriz Ruiz e Kitty Balieiro: sommelier e homenageada */Divulgação

Este ano, as homenageadas foram a ensaísta e escritora Heloisa Buarque de Hollanda e a jornalista esportiva Kitty Balieiro, a primeira a entrar para a equipe de esporte da TV Globo em São Paulo. Kitty reuniu amigas, contou histórias e relembrou vitórias nessa trajetória em que lutou para abrir espaço para outras mulheres. No evento, placas destacavam chamadas de jornal machistas e ofensivas do esporte –  e permitiam que as pessoas presentes reescrevessem as chamadas para torná-las mais igualitárias. “É uma área em que a mulher tem que se provar cinco vezes mais do que os homens. Hoje vemos movimentos como o ‘Deixa ela trabalhar”, mas antes isso não existia, era difícil ultrapassar barreiras”, diz Beatriz.

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O mito de mulher não gostar de cerveja

Para o paladar brasileiro, cerveja, no geral, é muito amarga. Preferimos o doce. Por isso, muita gente estranha quando bebe pela primeira vez”, conta Beatriz. As mulheres, culturalmente, são afastadas da cerveja. Criou-se o mito de que nós não gostarmos da bebida pelo sabor. “Poucos sabem, mas as mulheres foram as primeiras a produzir cerveja. Na idade média, elas dominavam esse conhecimento. Depois, os monges, os únicos que tinham acesso à educação, começaram a fazer cerveja. E quando aconteceu a revolução industrial, e os homens passaram a manusear máquinas, elas foram fazer outros serviços e perderam de vez esse espaço”, explica Beatriz. Para ela, era uma maneira da mulher ter independência. “E podemos suspeitar que, por isso mesmo, foi afastada dessa habilidade.”

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Com o passar dos anos, a publicidade manteve a mulher afastada da cerveja fazendo propagandas machistas. Nós nunca aparecíamos bebendo ou produzindo, só servindo e em roupas sensuais. “Um estereótipo que a maioria das marcas está superando agora”, diz Beatriz. Esse é um dos motivos da confraria, mostrar que mulher pode beber cerveja, falar sobre, ir ao bar sozinha. “Muitas vezes, em viagens, vou sozinha a bares e as pessoas olham, como se estivessem se perguntando:’O que essa mulher está fazendo sentada aí sozinha?’. E logo pensam que estamos esperando alguém ou que tomamos um bolo.” Para acabar com isso, desmistificar é o caminho. E isso começa quando nos unimos para aprender, discutir e disseminar informação, mudando a cultura de exclusão desde a base. 

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