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Ana Claudia Paixão A jornalista Ana Claudia Paixão (@anaclaudia.paixao21) fala de filmes, séries e histórias de Hollywood

O olhar apaixonado de Rosalie O’Connor para a dança

A ex-bailarina compartilhou com CLAUDIA seu ingresso na dança e outros detalhes sobre a sua jornada profissional

Por Ana Claudia Paixão Atualizado em 23 out 2020, 20h37 - Publicado em 23 out 2020, 17h00

Fãs de balé conhecem bem as fotos de Rosalie O’Connor. A ex-bailarina do American Ballet Theatre começou a fotografia quase que simultaneamente ao balé. As primeiras aulas de dança foram aos quatro anos, para fortalecer as pernas. Aos seis, já brincava com sua câmera. A rotina de exercícios virou paixão e a dança sua profissão, mas a fotografia ainda era apenas um hobby.

Aos 17 anos, entrou para uma das maiores companhias de balé do mundo, o ABT, na época dirigido por ninguém menos que Mikhail Baryshnikov. Rosalie circulava entre lendas e estrelas e, em meio aos ensaios e apresentações, começou a fazer fotos. Por diversão. Logo suas fotos foram publicadas no site da companhia, com registros e ângulos de beleza singular, até que uma lesão a forçou afastar-se do balé nove meses. Nesse período, Rosalie passou a fotografar em tempo integral. Quando a Movado escolheu uma foto sua para uma campanha publicitária, as sapatilhas ficaram em segundo plano. Seu trabalho foi publicado no New York Times, na Dance Magazine e em vários outros jornais e revistas.

A seguir, confira a entrevista exclusiva que Rosalie O’Connor deu a CLAUDIA:

Como você começou a fotografar dança?

Desde muito nova eu amava fotografia de dança e acumulei um volume significativo de livros, revistas e programas de apresentações que guardei como souvenir. Eu comecei a fotografar com seis anos e, muito tempo depois, passei a fotografar dança. Na verdade começou no outono de 1996, depois que ganhei uma competição de fotografia da revista Danceink, usando bailarinos do American Ballet Theatre e do New York City Ballet.

Quando deixou de ser apenas um hobby?

Muito rapidamente. Por longos seis anos eu dançava e, quando não estava dançando, fotografava! Depois de 15 anos com o ABT, me aposentei em 2002 e criei a Rosalie O’Connor Photography, me tornando oficialmente uma fotógrafa freelancer em tempo integral.

A ex-bailarina Rosalie O’Connor reúne suas paixões: o balé e a fotografia Foto: Rosalie O’Connor/Divulgação

Ser bailarina ajuda a saber o melhor momento de capturar a imagem?

Sim! Eu comecei a dançar aos quatro anos, em Nova Orleans, passei meu primeiro verão em Nova York com 12 anos, e com 15 me mudei para estudar na escola do American Ballet. Entrei para a companhia logo depois, com 17 anos. Fui contratada por Misha [apelido de Mikhail Baryshnikov] e dancei no ABT por 15 maravilhosos anos. Ser uma bailarina profissional faz toda a diferença no meu trabalho e, especialmente, em como me relaciono com a dança. É uma longa história de amor! Tudo que sei, vivi e vi como bailarina está em cada imagem que capturo. Eu tenho em mim uma sensibilidade da fração de segundo, como dos momentos que consegui registrar durante o Festival Internacional de Ballet, em Havana. [Em um deles, Rosalie fotografou Alicia Alonso, a grande bailarina cubana, que faleceu em 2019, sendo aplaudida de pé]

 

[INSERIR AQUI DUAS FOTOS. A DO CASAL DANÇANDO DON QUIXOTE E DE ALICIA ALONSO, NA PLATÉIA], créditos e legenda abaixo. Por favor, a legenda é parte do crédito (fotos: Rosalie O’Connor)

Anette Delgado e Dani Hernández, do Ballet Nacional de Cuba, em Don Quixote, Festival Internacional de Ballet, 2016. Rosalie capta o momento exato de Annette no ar. Foto: Rosalie O’Connor/Divulgação
A lenda do balé, Alicia Alonso, emocionada com os aplausos de pé que recebeu no Gran Teatro de La Habana Alicia Alonso, em 2016, durante o Festival Internacional de Ballet. Foto: Rosalie O’Connor/Divulgação
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Como foi fotografar alguns de seus ídolos?

No outono de 2006 eu tive a chance de ir ao apartamento de Freddie Franklin [um dos mitos do balé clássico, que dançou com Michel Fokine, Georges Balanchine e Frederick Ashton, entre outros] e pude fazer uma foto espontânea dele enquanto um amigo o entrevistava. Foi uma honra conhecer esse bailarino lendário e dançar no mesmo palco que ele quando ele já estava nos seus 90 anos! E ainda mais registrá-lo em foto. Ele seria o primeiro a concordar que fomos abençoados.

O lendário bailarino Freddie Franklin, fotografado em seu apartamento, em Nova York, no ano de 2006. Foto: Rosalie O’Connor/Divulgação

E qual seria o “truque” para fazer uma foto maravilhosa de dança?

Estar sempre atenta, o que significa sempre estar pronta. Se você vê o momento, então já está atrasada, já perdeu. As experiências mais satisfatórias que tive foram os momentos em que me senti em sincronia com o bailarino. Conseguir registrá-lo na maior altura de seu salto, ou de esperar um segundo a mais antes de capturar a bailarina flutuando em ponta, em um equilíbrio que alonga até o fim, aquele alcance extra. É mágico poder experimentar isso. De alguma maneira, eu danço com eles enquanto os fotografo.

As redes sociais ajudaram a dançarinos a expandir horizontes e a compartilhar fotos. Como você vê esse momento de popularização da dança através de redes sociais como TikTok e o Instagram?

É muito empolgante, porque eu sinto como se o mundo todo estivesse fotografando e amando! Dito isso, eu sou agradecida de ter começado antes de existirem iPhones [risos]. Eu amei trabalhar com filme de 35mm em 1996 e depois passar para digital em 2003. Quando comecei a documentar o ABT, era mais privado. Hoje em dia, há pouquiíssima privacidade. Imagens e pensamentos são postados initerruptamente por bailarinos em todas as companhias. Eu não posso falar muito do TikTok, que parece tão popular, porque estou apenas no Instagram.

E você poderia dividir com CLAUDIA um momento divertido que você tenha registrado?

Em 30 maio de 2017, numa performance espetacular do ABT em sua temporada anual no MET Opera House. Nessa noite, o ABT estava celebrando 20 anos de um de seus mais versáteis e incríveis talentos, Marcelo Gomes [bailarino brasileiro que dançou com o ABT até 2017]. Marcelo tinha dançado Albrecht, em Giselle. Durante os aplausos, consegui registrar o momento em que seus amigos o jogaram no ar, consegui captar a expressão de surpresa dele enquanto olhava para a plateia aplaudindo.

Marcelo Gomes, celebrando 20 anos no ABT e surpreendido pelos amigos, no MET Opera House, em maio de 2017. Foto: Rosalie O’Connor/Divulgação

E alguma foto favorita?

Essa de 1999, de Julie Kent e Keith Roberts. Você os vê um pouco antes deles fazerem o glissade [movimento em que um pé desliza antes do outro] e a suspensão no pas de deux de O Corsário. O estúdio número 5 do American Ballet Theatre é o meu favorito porque a luz na parte da tarde entra como se estivesse em câmera lenta. A luz fez o tutu de Julie parecer que estava pegando fogo. Eu amo a simetria dos bailarinos nas pernas à frente, o alcance idêntico das mãos enquanto se preparam para mover. Você sente que algo empolgante está para acontecer. E um bônus inesperado é que o perfil de Julie está refletido na janela atrás dela, acariciado pela mão de trás. A atmosfera criada pelos canos aparentes, aquecimentos, barras e grandes janelas contribuem para fazer dessa uma das minhas imagens favoritas.

 

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