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Love bombing: entenda a prática do amor excessivo

O amor em excesso vai muito além de uma relação apaixonante, podendo ser um ciclo de manipulação e abuso

Por Adriana Marruffo
11 jul 2023, 09h49

Presentes fora de ocasiões especiais, declarações românticas diárias, mensagens carinhosas e buquês de flores no trabalho podem parecer sinônimo de um sonho de romance, mas esse exagero merece atenção. Demonstrar que se ama alguém não é um problema, mas quando a frequência do afeto é exorbitante, ela pode estar configurada como love bombing (explosão de amor, em tradução livre).

A prática é caracterizada pelo excesso de atenção, admiração e afeto com o objetivo – proposital ou não – de fazer com que o destinatário se sinta dependente dessa pessoa, normalmente no início do relacionamento. Esse comportamento aparentemente romântico pode fazer parte de um ciclo de abuso psicológico, no entanto, pode ser difícil identificar os sinais entre o abuso e uma simples paixão no início de um romance. Desvendamos tudo a respeito da prática, e conversamos com Vanessa Gebrim, psicóloga clínica, e a advogada Mayra Cardozo. Veja só:

Love bombing: o que é e seus problemas

Nosso cérebro está programado para garantir que situações que tenham causado uma sensação de prazer, como presentes e carícias, sejam constantemente repetidas, sendo um sistema que permite o apego. “O love bombing é uma técnica de manipulação frequentemente usada por narcisistas para sobrecarregar a vítima com gestos românticos, fazendo-a se sentir mais do que lisonjeada. A pessoa que pratica acaba usando muito de exageros no romance com o objetivo de controlar a situação e moldar a narrativa para que ele pareça o parceiro perfeit”, e ganhe vantagem sobre isso”, explica Vanessa Gebrim, psicóloga clínica. 

Mas então, em um segundo momento, o autor do bombardeio corta do parceiro aqueles presentes e aquela paixão, dando início aos sinais de desprezo e desrespeito ou, também, podendo levar a um ghosting, sendo “uma forma de controlar a outra pessoa, afastando ela de tudo com o objetivo de manipular”, contou Gebrim. 

Em todo caso, “toda essa dedicação pode se tornar moeda de troca para obrigar a pessoa  a agir de acordo com suas vontades ou fazê-la se sentir culpada  por não responder à altura”, contou a psicóloga. Assim, uma pessoa submetida ao ciclo de love bombing pode, por exemplo, concordar em cancelar planos prévios com amigos e familiares ou se desfazer de outros relacionamentos para se sentir especial e amada pelo parceiro. 

Com o tempo, o relacionamento passa a se tornar um ciclo, de forma que quando o agressor sente que está perdendo o poder sobre o parceiro, retoma as demonstrações excessivas de afeto para reconquistá-lo e voltar ao abuso. “O love bombing pode ser visto de diversas maneiras, mas em casos mais extremos ele pode levar a uma grande violência psicológica, a um relacionamento abusivo e até ao crime de violência psicológica contra a mulher”, contou Mayra Cardozo, advogada com perspectiva de gênero e mentora de feminismo e inclusão. 

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Porém, pode ser difícil entender a diferença entre a paixão verdadeira do relacionamento e a possibilidade de estar sofrendo love bombing. A principal diferença se encontra exatamente no exagero, além do constante desejo de domínio sobre a vítima, o que não ocorre na paixão. É claro que existem pessoas que são cuidadoras e se doam ao outro, mas Vanessa Gebrim conta que o apaixonamento pode acontecer de forma rápida e cada um tem sua forma de demonstrar: “A questão é que o amor é uma construção. Então, se a pessoa está te amando muito cedo, há muitas chances de ter algo errado nessa história. Por trás desse bombardeio de amor pode estar escondido um narcisista. Isso não acontece na paixão normal”.

Atenção às red flags: sinais de love bombing

É possível identificar alguns sinais de alerta no início do relacionamento, então fique atenta às red flags. O primeiro sinal é que o comportamento do parceiro é desproporcional à conexão real entre as pessoas. Por exemplo, dizer “eu te amo” na primeira semana ou indícios precipitados de uma necessidade de compromisso.

Além disso, situações nas quais o parceiro insiste em ficar junto o tempo todo podem ser um indício de love bombing, como estratégia de isolamento da vítima, com o intuito de ganhar poder e controle. E, é claro, se de um dia para o outro seu parceiro deixa de ser a pessoa mais amorosa do mundo e começa a te tratar de maneira seca ou indiferente, é provável que ele esteja manipulando você.

“Desconfie do excesso de presentes e elogios no começo do relacionamento, conheça sobre suas carências para não ser enganada e saiba identificar um comportamento narcisista”, recomenda a psicóloga Vanessa Gebrim

Consequências do love bombing

love bombing
A tentativa de controlar o próximo mostra que não confiamos em ninguém; muito menos em nós mesmos. (Malte Mueller (Getty)/Reprodução)

O love bombing pode ser incrivelmente prejudicial à saúde mental da vítima por ser uma forma de abuso emocional: “Com isso, sua autoestima, identidade, independência e vigor vão sendo destruídos, até não restar nada além de uma dependência total da figura abusadora, que fica livre para manipulá-la como e quando quiser.” Os riscos desse tipo de abuso são vários, mas o primeiro deles é a decepção. 

A advogada Mayra Cardozo, no entanto, reforça que podem existir consequências piores do que apenas a decepção amorosa com o parceiro. “Pode ter situações mais severas, como é o caso de, por exemplo, vítimas do crime de violência psicológica contra a mulher ou do crime de estelionato amoroso.” As vítimas ainda podem desenvolver estresse pós-traumático.

Após passar por um abuso do tipo, é preciso que a vítima tenha uma rede de apoio forte e, ao mesmo tempo, auxílio profissional. “É preciso buscar ajuda para trabalhar esse trauma. Se possível, busque um profissional psicoterapeuta que seja especializado em traumas, em relações abusivas. Passar pela fase do luto, da desconstrução do love bombing, reconstruir a própria identidade e autoestima fazem parte do processo de cura. Para cada um há um tempo, uma intensidade. É um processo difícil e doloroso, mas necessário”, finaliza Vanessa. 

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