O maior sonho de todos

Após vestir tantas noivas, será que Macida também terá o seu dia?

Macida terá o seu dia de noiva?
Ilustração: Ana Bento

Quando a marcha nupcial começou, ela não conseguiu segurar a emoção. Lágrimas salpicaram o véu do vestido. A cada acorde, suas mãos tremiam. Olhou para frente. Não havia nenhum noivo à sua espera. Apenas um enorme espelho. Virou-se para mim e sorriu: “Macida, acho que precisa de um ajuste aqui na lateral, mas ficou como eu queria”.

Desde que havia começado a trabalhar naquela loja de vestidos de noiva, há cinco anos, eu sempre via mulheres chorando ao provar seus figurinos. Quando tocávamos a marcha nupcial no velho aparelho de som do ateliê, todas caíam aos prantos. A futura noiva deixou a loja e fiquei olhando o vestido branco, cheio de rendas e brocados. Igual ao que eu sonhava usar um dia. Mais tarde, uma ruiva entrou no ateliê. Ao ver seu vestido pronto, emocionou-se. Enquanto ajeitávamos o modelo, ela continuava soluçando. “Você quer que a gente aumente o decote?”, perguntei, enquanto fazia algumas marcações na roupa. “Sim, aqui e aqui”, disse, empolgada. “O Marcos vai adorar!”, completou, provavelmente pensando no futuro marido, tarado por seus seios fartos e sardentos.

O dia em que conheci o Dr. Paulo

Acordei aquela manhã com muita dor de cabeça. “Menina, vá ao posto de saúde ver o que você tem!”, ordenou mamãe. Como estava mal de verdade, acatei o conselho. “Bom-dia”, disse o jovem doutor de cavanhaque bem aparado e cabelos penteados. Ele começou a me examinar e, por fim, disse que eu estava apenas estressada. Enquanto escrevia minha receita, comecei a olhar sua mesa. Havia uma foto de um garotinho bonito sorrindo. Meus olhos procuraram outros porta-retratos: não, não havia a foto da mãe. “Macida, tome esses remédios da maneira como prescrevi, o.k.?”, falou. Então, me deu uma piscada e se despediu. Aqueles gestos me deixaram estranhamente empolgada. Mais do que deveria ficar com um médico.

Será que ele é?

Na loja, mais tarde, pensava no Dr. Paulo. Fiquei com a imagem dele em minha cabeça por todo o dia. Dormi com ela e acordei da mesma maneira. Decidi fazer uma loucura: voltei ao posto de saúde! Ao me ver, ele sorriu e logo perguntou se estava tudo bem. Disse que eu ainda me sentia mal. Ele me examinou novamente. Durante o procedimento, notei que me olhava com certa curiosidade. “O que você faz da vida?”, quis saber. Foi a brecha que eu precisava para falar de meu trabalho na loja. “Então, você é uma especialista em vestidos de noiva, é isso?”, brincou. Sorri, inibida. Terminada a consulta, não resisti: “É seu filho?”, indaguei, apontando para o quadro. “Meu sobrinho, Zeca”, disse, sacando minha intenção. Será que ele era gay? Afinal, por que um homem tão interessante e gentil como ele não teria uma esposa?

Sozinhos dentro da loja

Na mesma tarde, fiquei sem chão: ele me ligou! “Você esqueceu seu guarda-chuva aqui. Tenho de passar aí perto. Se quiser, deixo no seu trabalho”, falou. Um pouco antes de a loja fechar, Dr. Paulo surgiu. “Aqui está!”, disse ao me esticar o objeto. Agradeci e me apressei em dispensá-lo, com vergonha das outras vendedoras. Ele se antecipou e começou a olhar a vitrine. Pior: pediu que eu explicasse sobre os modelos. Era a primeira vez que eu fazia isso com um homem. Enquanto eu (tentava) mostrar as roupas, senti ele me despir com os olhos. “Por que um cara como ele me olha desse jeito?”, pensava. “Um dia ainda vou comprar um para uma gata…”, soltou, quase sem querer. Na tarde seguinte, Paulo apareceu no mesmo horário. Eu me assustei. “Errr… Só passei para saber se você tinha melhorado!”, desculpou-se ao me ver. O outro vendedor havia saído mais cedo e eu estava encerrando o expediente do ateliê. “Se quiser, lhe dou uma carona”, continuou. Fechei a porta da loja e pedi que esperasse enquanto eu guardava um vestido. “Ele ficaria bonito numa mulher como você”, soltou, todo safadinho. “Obrigada, mas acho que não serve em mim”, devolvi. Ele respirou fundo e abriu um sorrisão. “Por que não prova?”. Diante de minha hesitação, insistiu: “Prove e eu prometo que digo se fica bom ou não”.

Fiz amor usando um vestido de noiva

Eu deveria recusar a proposta e expulsá-lo dali. Mas fiz o contrário: corri até o provador. “Que loucura, Macida!”, repetia a mim mesma. O traje era bem decotado. Ri diante de tanta doidice, mas não podia voltar atrás. Voltei para o salão e ele me secou dos pés à cabeça. Ao se aproximar, senti calafrios. “Ficou ótimo em você.” Achei que fosse desmaiar, mas ele me amparou e me beijou.

Sua língua tocou a minha e provocou uma descarga elétrica em todo meu corpo. Delicadamente, abaixou o decote e sorveu meus mamilos já eriçados. Eu estava sem sexo havia tanto tempo que mal lembrava de como se fazia. Mas ele me relembrou. E bem! Sem tirar o vestido de noiva, me tocou intimamente. Eu retribuí, acariciando-o por cima de sua roupa branca. Não falávamos nada. Éramos apenas duas pessoas precisando uma da outra. Ele tirou toda a roupa, mas não me deixou tirar o vestido! Com a saia levantada, se posicionou e me penetrou ora com delicadeza, ora com pegada. Eu joguei a cabeça para trás e ele me penetrou mais fundo. Entreguei-me por completo.

Olhando-me no espelho eu o vi atrás de mim, possuindo-me com todo o desejo que sempre sonhei poder causar em um homem. Sentia a saliva escorrer de sua boca e pingar em minhas costas. Minhas unhas procuravam seu corpo: eu precisava fincá-las nele. Apesar de tanta luxúria, ficamos atentos para que a roupa branca e imaculada fosse poupada de nossos fluidos do amor. Assim que terminamos, esperei que fosse embora, talvez, correndo. Mas ele ficou ali, alisando meus cabelos. “Sei que isso parece loucura, mas eu estou feliz por ter acontecido”, sussurrou em meu ouvido. “Eu também gostei”, devolvi.

O meu vestido, o meu homem

E assim começamos a ficar. Durante muito tempo, a loja se tornou nosso ponto de encontro. “Por que eu?”, perguntei numa dessas ocasiões. “Porque você é uma mulher normal, assim como eu. Nós não somos super nada. Somos simples. E, além do mais, adoro seu bumbum”, devolveu. Num desses encontros, pediu que eu usasse o vestido mais lindo da vitrine. Eu, que tinha o maior medo de ser flagrada, topei a fantasia. Paulo pediu que eu enfiasse minha mão no bolso da calça dele. “Safado!”, murmurei. Mas, não foi só um membro rígido que senti. “É todo seu!”, falou, enquanto eu olhava para o a aliança reluzente que acabara de sair dali. “E o vestido também!”, disse, me abraçando. “E o marido também”, completou em meu ouvido.

Sonho realizado

Hoje, entrando nessa igreja tão decorada, lembro-me de todas essas coisas que contei aqui. Paulo está no altar me esperando ao lado do padre. Logo, serei oficialmente sua mulher. Sonhei por muito tempo com esse dia. E confesso que demorei demais para perceber que, na vida, sonhar é bom, mas lutar para tornar nossos desejos realidade é o que nos mantém vivas!