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Match pseudo-iluminado: “A minha ex vivia de luz”

Sem saber, a arquiteta Simonne* acabou encontrando um espírito de uma dimensão paralela no Tinder

Por Kalel Adolfo Atualizado em 8 abr 2022, 18h51 - Publicado em 8 abr 2022, 08h42

“Assim que terminei um relacionamento heterossexual que durou quatro anos, baixei o Tinder e pensei: ‘O que eu não peguei de mulher até agora, eu vou pegar’. A primeira pessoa com quem dei match foi a Júlia.* Começamos a conversar bastante e, quando nos encontramos, eu já estava absurdamente apaixonada. Decidi me assumir para a minha mãe, porém, a reação dela não poderia ter sido pior.

Não poder levar a Júlia em casa por conta da falta de aceitação dos meus pais era de cortar o coração. Isso me fez correr atrás de um emprego para sair de casa o quanto antes. Juntei todas as minhas economias e fui morar sozinha. Precisava ter um lar para recebê-la, sabe? Mas, a partir do momento em que saí de casa, comecei a levar vários foras. Ela não queria mais me ver aos finais de semana, dizia que precisávamos ter vidas separadas. Não entendia o motivo, já que nós passávamos a semana inteira distantes por conta do meu trabalho – para completar, ainda morávamos em cidades diferentes.

As justificativas dela eram necessidade de mais tempo para se dedicar aos estudos espirituais e à meditação. Segundo ela, estava no meio de um ‘despertar’ que lhe traria um salto evolutivo gigantesco. Depois disso, as coisas foram ficando cada vez mais bizarras. Certo dia, estávamos deitadas na cama e ela disse que os meus guias espirituais estavam ao meu lado tentando se comunicar comigo.

Eu cozinhava algo com carinho, mas ela recusava, explicando que a alimentação dela teria que ser apenas de luz

Simonne

Daí parou de me olhar nos olhos, afirmando que a minha aura a distraía. Quando eu cozinhava algo com carinho, a menina recusava, explicando que já não era mais capaz de se apropriar da energia de outros seres. A alimentação dela teria que ser apenas de luz. Se eu sentisse ciúmes, ela me repreendia, falando que era tudo da minha cabeça: ‘Seu espírito precisa evoluir, porque ciúmes é coisa do plano 3D e eu já estou no 4D’. Até hoje não sei o que isso significa. Apesar de tudo, tive a ideia de pedi-la em namoro assim que ela viesse visitar o apê que aluguei –pensando em nós duas, detalhe – pela primeira vez.

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Como ainda não havia móveis no local, preparei um piquenique no chão do quarto e comprei um par de anéis, que precisei parcelar em cinquenta vezes. Ela pegou um ônibus até a minha cidade e, ao chegar na rodoviária, foi ao bar com a ex-namorada, me deixando sozinha no apartamento com os anéis e tudo.

Quando finalmente apareceu de madrugada, eu já estava morta de ódio e fome. Mesmo assim, fiz o pedido… A resposta dela foi uma enorme cara de enterro! O resto do fim de semana transformou-se num pesadelo: se eu tentava beijá-la, ela se afastava dizendo que já havíamos nos beijado o suficiente.

Se íamos transar, ela mandava eu parar, se não o espírito dela ia sair do corpo. Eu não conseguia nem encostar nela sem que minhas mãos fossem empurradas. Passado o final de semana, ela começou a demorar para me responder, ficar distante… Duas semanas após o pedido de namoro, recebi uma notícia agradável pelo WhatsApp: ela queria terminar comigo. O motivo? Na próxima reencarnação, o espírito dela ia ascensionar e ficar próximo de Jesus e Buda(???). Por isso, a sua alma já não era mais apropriada para relacionamentos terrenos do plano 3D.

Ela estava evoluída demais para alguém como eu. Fiquei destruída, porque saí do armário por causa dela. A cada móvel novo que chegava no meu apartamento, eu morria de raiva. Como se não bastasse, ainda precisei passar meses pagando as parcelas dos anéis. A vontade era de me jogar da janela! O tempo passou, voltei a usar o Tinder de novo e, logo no primeiro match, conheci a mulher que hoje é a minha noiva.”

*Os nomes foram alterados para garantir o anonimato de quem deseja escancarar o coração aqui no Papo Aberto.

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