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Cynthia Nixon questiona desejo de mulheres de voltar a papéis tradicionais: “Há medo por trás disso”

Atriz de 'Sex and The City' reflete sobre movimentos que defendem o retorno das mulheres a papéis tradicionais

Por Lorraine Moreira Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 3 nov 2026, 20h36
Mulheres e homens em trajes de gala do século XIX, em um salão opulento. Duas mulheres em primeiro plano usam vestidos longos, uma dourada e outra roxa, ambas com luvas brancas. Ao fundo, outros convidados em vestidos claros e um homem de terno preto interagem.
Cynthia Nixon fala sobre os movimentos de mulheres que idealizam o passado (Foto/Divulgação)
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Cynthia Nixon está acostumada a interpretar personagens complexas. Conhecida por dar vida a Miranda Hobbes, em Sex and the City, a atriz agora enfrenta o desafio de viver uma mulher do século 19. Na série A Idade Dourada (HBO), interpreta Ada Brook, que, ao longo das temporadas, deixa de ser uma figura tímida e submissa à autoridade da irmã para conquistar sua própria voz.

A série ganhou popularidade ao retratar as tensões entre a aristocracia tradicional e os novos ricos — os chamados old money e new money. A trama se passa em um período em que os Estados Unidos viviam uma aparente era de prosperidade, mas cuja riqueza era sustentada por desigualdades sociais.

Na época, os chamados barões ladrões, magnatas dos setores de petróleo, aço e ferrovias, acumularam fortunas sem precedentes. Enquanto isso, trabalhadores enfrentavam jornadas exaustivas, salários baixos e condições precárias de moradia.

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Na quarta temporada, que começou a ser exibida neste mês, a série promete aprofundar esse retrato. Em entrevista coletiva da qual participou a Revista CLAUDIA, Cynthia Nixon falou sobre desigualdade social, os movimentos de mulheres que idealizam o passado e os paralelos entre a Era Dourada e os dias atuais.

Hoje, existe um movimento crescente de mulheres que desejam voltar à época retratada em A Idade Dourada. Aqui no Brasil, por exemplo, temos uma política que afirma que o feminicídio não existe. Como você entende esse movimento?

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Cynthia: Aqui nos Estados Unidos, existe um movimento que defende que as mulheres devem se dedicar exclusivamente à criação dos filhos. Há também quem diga que as mulheres não deveriam ter direito ao voto, porque isso gera conflitos na família. Segundo essa ideia, deveria haver apenas um voto por residência, e esse voto deveria ser do homem da casa.

Não quero falar em nome de mulheres que pensam de maneira diferente da minha, mas acredito que deve existir algum tipo de medo por trás desse desejo. Se você acredita que seu marido ou o homem da sua vida não é forte o suficiente para lidar com o fato de que você tem uma opinião, para ouvi-la sem se sentir intimidado ou ficar irritado, acho que isso diz muito a respeito desse homem.

Mulher de cabelo preso, vestindo um longo vestido vermelho com detalhes amarelos, olha pela janela em uma sala com cortinas rosadas, um cavalete com pintura e uma escultura de mármore
“A Idade Dourada” retrata os Estados Unidos do século 19 (Foto/Divulgação)
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Você acha que a sociedade americana ainda vive, ou voltou a viver, em uma Era Dourada?

Cynthia: Sem dúvida vivemos em uma Era Dourada, na qual pouquíssimas pessoas no topo acumulam quantidades inimagináveis de riqueza. Tanta riqueza que nem sabem o que fazer com ela. Enquanto isso, a grande maioria das pessoas mal têm o suficiente para sobreviver. E acredito que hoje isso seja ainda mais evidente do que naquela época, 

Houve mudanças enormes depois da Era Dourada, justamente para tentar desmantelar os monopólios. E certamente são medidas que precisam acontecer novamente agora. Não podemos esperar que milionários e bilionários controlem seus próprios apetites e excessos. Precisamos fazer isso por meio do governo e da força da sociedade.

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Você acha que os empresários da tecnologia são os barões ladrões dos dias de hoje?

Cynthia: Esses barões não eram boas pessoas, mas deixaram muitas coisas para trás das quais podemos desfrutar: muitos museus, salas de concerto, bibliotecas e melhorias para a sociedade. Gostaria que os bilionários da tecnologia percebessem que fazem parte da sociedade, e não que estão acima dela.

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Ada só encontrou o amor, o casamento e uma posição de poder mais tarde na vida. O que a trajetória dela nos ensina sobre conquistar independência em uma fase mais avançada da vida?

Cynthia: Quando você chega à idade de Ada, pensa que sua vida já está relativamente definida e que sabe como ela será dali em diante. 

E, quando a vida lhe apresenta uma reviravolta inesperada, seja maravilhosa ou terrível, talvez seja mais difícil lidar com isso do que para uma pessoa jovem, que geralmente está mais disposta a aceitar mudanças, experimentar coisas novas ou ser corajosa.

Acho que é ainda mais difícil para alguém da idade de Ada sair dos padrões aos quais está acostumada. Arriscar tudo aquilo que possui e que considera seguro em troca de algo possivelmente maravilhoso que está por vir, sem saber como vai terminar.

E acho isso muito admirável. Não estou dizendo que devemos simplesmente jogar tudo para o alto, mas acredito que podemos aproveitar muito mais a vida quando realmente não temos medo de correr riscos por algo que desejamos.

Cinco pessoas em uma sala de estar vitoriana. Um homem idoso de terno preto e gravata borboleta branca está em pé à esquerda. Duas mulheres loiras sentadas em sofás, uma de costas e outra de frente, vestindo roupas escuras. Uma mulher de vestido laranja sentada e outra mulher negra em pé, de casaco marrom e chapéu, segurando uma bolsa de couro.
Cynthia Nixon fala sobre relações familiares (Foto/Divulgação)

O que Ada Brook poderia aprender com Miranda Hobbes, de Sex and the City, e vice-versa?

Cynthia: Acho que Ada poderia aprender com Miranda a aproveitar mais a vida, acreditar em si mesma e entender que não há problema em lutar por si própria, ser um pouco agressiva ou, às vezes, até mais do que um pouco.

E acho que existem outras coisas que ambas já sabem: suas amigas mulheres e, neste caso, os familiares são as pessoas que sempre estarão ao seu lado quando você precisar delas.

Miranda é muito impaciente. Quer as coisas do jeito e na hora que deseja. Acho que Ada é um pouco mais sábia, e sua vida transcorre em um ritmo mais lento. Às vezes, precisamos esperar pelo momento certo. Não podemos simplesmente dizer: quero isso aqui e quero agora.

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