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Marília Garcia fala sobre luto, doença e as mulheres que atravessam seu novo livro

A herança que a poesia inventa em "Lia, Mira, Maria"

Por Luisa Destri 20 out 2026, 15h40
Mulher de cabelos curtos e cacheados, com brincos pequenos, olhando para a câmera com um leve sorriso, em preto e branco. Ela veste uma blusa escura e o fundo é liso e claro. Uma área desfocada aparece no canto esquerdo da imagem
A poeta Marília Garcia fala à CLAUDIA sobre seu novo livro (./Divulgação)
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O trabalho da paulistana Marília Garcia, uma das principais vozes da poesia contemporânea, sempre teve dimensão autobiográfica. “A matéria da escrita, para mim, é a vida”, conta a poeta, que estreou em 2007 com 20 poemas para o seu walkman. Mas Lia, Mira, Maria, seu livro mais recente, amplia essa experiência, já que retrata o processo de luto diante da morte de sua mãe e de uma amiga, além da descoberta de um câncer de mama agressivo — dificuldades que se somam e, no trabalho poético, vão encontrando um caminho próprio de compreensão e elaboração.

Nesta entrevista, Marília, que também é tradutora, ensaísta e editora, fala sobre o processo de criação e reescrita do livro, que começou como um texto sobre o luto e, em sucessivas leituras públicas, foi se transformando ao incorporar a doença, a maternidade e uma linhagem de mulheres. Ela comenta, ainda, a relação com a filha, Rosa, a permanência das perdas depois do tratamento e a maneira como a escrita

pode transformar a experiência e, também, a herança.

CLAUDIA: Como tem sido para você acompanhar a reação das pessoas a esse seu trabalho?

Marília Garcia: É um sentimento um pouco ambíguo, tanto em relação às apresentações quanto ao objeto livro, que circula e foi feito pela designer com todo o cuidado. Não sou eu esse objeto que circula. Mas foi muito dolorido: um livro difícil de escrever e uma apresentação difícil de fazer. Foram várias performances, que, assim como o texto, foram crescendo a cada vez. Fico feliz, mas estou falando de luto, morte, ausência e doença.

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CLAUDIA: Seus poemas sempre dialogaram com sua vida pessoal. O que é diferente desta vez?

Marília Garcia:  A matéria da escrita para mim, além da leitura e da literatura, é a experiência, a vida.
Isso sempre foi muito claro. Mas esse livro é muito pessoal porque traz doenças e mortes. É uma experiência íntima. Tive dúvidas se deveria trazer essas questões para um livro. Mas a publicação as transforma em outra coisa. É minha experiência, mas também não é: o livro agora fala de uma experiência que outras pessoas podem estar enfrentando. São experiências comuns, coletivas.

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CLAUDIA: Como esse livro surgiu?

Marília Garcia: Logo depois que minha mãe morreu, recebi um convite para um evento no Centro de
Formação e Pesquisa do Sesc cujo tema era o trabalho. Na época, vivia um luto duplo, pela morte da minha mãe e da Nazaré, a Maria do título. Dois lutos atravessados pela obra de Mira Schendel, amiga de Maria. Decidi escrever sobre o trabalho de luto. Havia uma primeira versão, interrompida quando precisei devolver as monotipias de Mira Schendel para o inventário. As obras voltaram no início de 2024, mas, em julho, veio o diagnóstico, que me levou à versão apresentada no Cultura Artística em maio

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de 2025.

CLAUDIA: A versão apresentada em São Paulo foi a primeira após o câncer. O que aconteceu com o poema entre esses dois momentos?

Marília Garcia: Foi um tratamento muito pesado, durante o qual o texto ficou parado. Fiz seis meses

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de quimioterapia, cirurgia e radioterapia. Retomei o texto pouco antes da apresentação, em abril. No fim, uma ponta se juntou à outra: a morte dessas mulheres e a minha doença se embolaram. O livro deu forma a essa experiência, e os processos se misturaram.

CLAUDIA: Mas também se ajudaram. O texto faz associações entre corpos, os efeitos da quimioterapia e os incêndios. Ao colocar as experiências lado a lado, vai também “desembolando”.

Marília Garcia: Sim, o livro consegue dar forma para as experiências a partir desse jogo de imagens

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que vão se desdobrando.

CLAUDIA: Como está, hoje, seu processo de luto em relação à doença?

Marília Garcia: Acho que os traumas ficam. A gente vai aprendendo a lidar, mas eles ficam. A doença
ainda está muito próxima. Ainda tenho várias sequelas do tratamento. Estou bem, trabalho, mas há coisas que ficaram. Acho que ainda vivo essas perdas. É como os outros lutos: vai se transformando. Não sei se existe um momento em que fica mais apaziguado. Continuo sentindo próximas essas mortes, essas perdas. Cada passo é um momento; não sei se passa. O livro é mais um momento, assim como nomear a doença e associar esses lutos.

CLAUDIA: Sua filha, Rosa, está bastante presente nesse poema. Como foi o envolvimento dela com esses processos de luto?

Marília Garcia: Rosa está presente desde a primeira versão, que trazia, ao final, um desenho dela. Pouco depois da morte da minha mãe, ela fez um desenho meu: uma figura magrinha na lateral com uma bola gigantesca no meio. “É você preocupada com a vovó”, explicou. Quando perguntei o que estava ao centro, respondeu: “é seu coração, que é muito grande, não cabe dentro do peito”. Ela nomeou o luto.

CLAUDIA: O livro reproduz um desenho dela, uma representação que você chama de “generosa” porque não retrata os efeitos do tratamento sobre seu corpo. Como ela reagiu ao livro?

Marília Garcia: Ela sabia que havia desenhos nesta versão e, quando o livro chegou, quis entender o
que eu estava dizendo. Disse: “Quando eu fiz esses desenhos, eu não estava pensando na sua doença. Eu estava pensando em você, na nossa relação, na nossa convivência”. Foi muito difícil, mas ela me ajudou muito. No diagnóstico, ela tinha 6 anos. Claro que eu queria protegê-la, mas acho que as crianças entendem de outra maneira. Se a gente não fala e não nomeia, elas entendem; se não ajudamos, acabam criando fantasias. Eu achava que poderia morrer a qualquer momento. Que tipo de coisa eu podia falar
para ela? Tentei deixá-la o mais próximo possível disso. Quando meu cabelo começou a cair, na segunda semana de quimioterapia, compramos uma máquina e ela ajudou a raspar minha cabeça. Ter que estar bem para ela e cuidar dela no meio do tratamento foi importante para mim, com a ajuda da família e de todo mundo que ficou próximo.

CLAUDIA: Você chegou a nomear o câncer para ela? Teve receio de que ela associasse a doença que levou sua mãe ao que você estava enfrentando naquele momento?

Marília Garcia: É uma questão. Quando recebi o diagnóstico, a experiência que eu tinha era justamente a da minha mãe, que descobriu um câncer em metástase, já muito avançado, fez quimioterapia e foi morrendo. É esse processo rápido que conto no livro. Vivi isso com muito medo de não aguentar. Mas não me lembro se ela entendeu que era isso e se eu nomeei.

CLAUDIA: Você acredita que os aplausos do público, muito calorosos, à apresentação no Cultura Artística, tenham sido não só para o poema, mas também para o que você enfrentou?

Marília Garcia: Talvez sim. Talvez seja também uma reação à própria coisa, que não costuma ser tão
dita. Em geral, as pessoas se escondem. Eu, por exemplo, saía sem cabelo na rua, e as pessoas ficavam me olhando. Existe um tabu em torno da doença, mas acho que existe também um outro tabu em relação à morte. A gente não fala tanto — não fala muito, aliás.

CLAUDIA: No livro, você diz, sobre o diagnóstico, que não era essa a herança que você queria. A escrita é também uma forma de produzir a própria herança?

Marília Garcia: A escrita transforma a nossa experiência. Quando a gente escreve, reinventa a origem
ou inventa a experiência no meio, porque, ao mesmo tempo que “desembola”, também inventa essa possibilidade de herança. Mas, ao mesmo tempo, eu só escrevi depois de conseguir terminar esse percurso. Essa versão só chegou aqui depois de eu ter conseguido refazer essa herança, transformá-la. Então, é a herança, mas também é outra coisa.

CLAUDIA: Essa herança é feminina, já que você está tratando de uma linhagem de mulheres…

Marília Garcia: Inicialmente, não tinha a ideia de escrever sobre essas mulheres. Queria falar do
trabalho de luto pela morte da minha mãe e de Maria, da Nazaré, ligadas a Mira Schendel pelas obras, que também eram um trabalho. Mas, conforme eu escrevia, ficou claro que falava de três mulheres importantes para mim. Mira também remonta a um momento de formação. Na versão anterior, pensei em trazer Rosa e minha avó para essa linhagem. Mas o livro foi para outro lugar: começa com Mira e termina com Lia.

CLAUDIA: Na verdade, termina com você, com a cena em que você está vestindo a saia da
sua mãe.

Marília Garcia: Ah, você tem razão. O texto termina no presente.

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