Fala sobre maquiagem e afazeres domésticos coloca premiê do Japão no centro de polêmica
A primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, expõe sobrecarga feminina ao revelar horas extras em tarefas domésticas e cuidados pessoais.
A primeira ministra do Japão, Sanae Takaichi, virou alvo de críticas após afirmar que por ser mulher, as tarefas domésticas e cuidados pessoais, consomem de três a quatro horas a mais de seu dia em comparação aos seus antecessores homens. A declaração foi feita na quarta-feira (14), durante uma sessão do Parlamento japonês, e provocou discussões sobre desigualdade de gênero e a divisão das responsabilidades domésticas no país.
“De manhã, tomo banho, preparo o café da manhã e depois lavo a louça. Sem falar em me maquiar… Quando chego em casa, se estou maquiada, preciso remover a maquiagem com demaquilante, tomar banho de manhã, preparar o café da manhã, me arrumar e depois me maquiar novamente. Fazendo essas coisas, sinto que gasto três ou quatro horas a mais do que os primeiros-ministros homens”, afirmou Takaichi, segundo a Associated Press.
A declaração ocorreu após o parlamentar Fumitake Fujita, integrante do partido aliado ao governo, questionar e confrontar a primeira ministra sobre as longas jornadas que os primeiro ministros costumam cumprir no Parlamento. Em resposta, Taikachi afirmou que sua rotina torna mais difícil que ela encontre momentos para refletir sobre os planos de longo prazo para o país.
A ministra também contou que sua equipe, composta por homens, incialmente não reservava tempo suficiente em sua agenda para que ela pudesse se preparar para aparições na televisão.
Maquiagem e tarefas domésticas ainda são uma cobrança sobre as mulheres?
A repercussão das declarações dividiu opiniões no Japão e na mídia global. Enquanto alguns apoiadores consideraram que Takaichi chamou atenção para as exigências adicionais enfrentadas pelas mulheres em cargos de grande influencia, críticos apontaram que sua fala poderia contribuir para naturalizar papéis tradicionais de gênero.
Em entrevista ao The New York Times, a senadora de oposição Yoshiko Kira criticou a maneira como a primeira ministra apresentou essas responsabilidades, argumentando que expectativas relacionadas a aparência e ao comportamento feminino não deveriam ser tratadas como condições imutáveis.
A discussão ganha outra dimensão diante das normas de apresentação pessoal presentes na sociedade japonesa, conhecidas como midashinami. O conceito a aparência considerada adequada em ambientes sociais e profissionais, incluindo regras sobre roupas, cabelo e maquiagem. Mesmo que essas expectativas também existam para os homens, as mulheres japonesas costumam enfrentar exigências mais rigorosas em relação a própria imagem.
A partir desse contexto, é possível enxergar no episódio duas questões diferentes que ficam em evidencia: a pressão estética que acompanha a presença feminina japonesa em espaços de poder e a divisão desigual das responsabilidades domésticas.
A desigualdade que vai além da rotina da primeira ministra
Os números ajudam a dimensionar essa realidade para além da rotina de Takaichi. Segundo o relatório OECD Economic Surveys: Japan 2026, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), as mulheres japonesas dedicam, em média, 178 minutos a mais por dia ao trabalho doméstico e de cuidado não remunerado do que os homens. A diferença supera a média de 126 minutos registrada entre os países da organização.
A OCDE também destaca que essa distribuição desigual afeta as oportunidades profissionais femininas, já que responsabilidades familiares e domésticas podem limitar a disponibilidade para jornadas integrais e o avanço na carreira.
O cenário se reflete na presença de mulheres em posições de liderança. Apesar da chegada histórica de Takaichi ao governo, em outubro de 2025, o Japão ocupa a 117ª posição entre 145 países no Global Gender Gap Report 2026, levantamento do Fórum Econômico Mundial que avalia a desigualdade entre homens e mulheres em áreas como economia, educação, saúde e participação política.
A própria Takaichi já havia chamado atenção por sua relação com o trabalho. A primeira ministra afirmou anteriormente que dorme poucas horas por noite e chegou a convocar reuniões com assessores às 3h da manhã, alimentando as discussões sobre equilíbrio entre vida pessoal e profissional na vida das mulheres.
A repercussão da fala coloca em discussão por que tarefas cotidianas continuam ocupando uma parcela tão desigual do tempo de homens e mulheres. No caso japonês, a questão ganha um significado particular ao partir justamente da primeira mulher a ocupar o cargo político mais importante do país.
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