Solteira no sofá: a reflexão que toda mulher precisa ler depois de um término
A escritora Liana Ferraz reflete sobre o retorno de voltar para si — e não para pista — depois de ficar solteira
Este texto só poderia ser escrito por alguém bastante implicante com expressões e termos naturalizados. Prazer, aqui estou. Minha implicância de hoje é com os termos “de volta ao mercado” e “voltar pra pista” utilizados quando alguém fica solteiro. Explico (ou complico, como preferir).
Terminar um relacionamento longo é um movimento imenso, cheio de nuances e possibilidades. Ainda assim, sinto que tendemos a colocar tudo no mesmo saco e a imaginar a vida de solteira a partir de uma espécie de hipersexualização, como se o sucesso dessa fase estivesse na quantidade de parceiros sexuais que você consegue acumular logo depois de “voltar pra pista”. (Não tenho certeza se a pista aqui é a de dança ou a de corrida.) De qualquer forma, sinto uma tremenda preguiça da imagem da mulher solteira ser associada a algo como um reset: volta pro jogo, gata, que agora você precisa avançar as casas de novo até achar alguém ou até garantir publicamente que é uma mulher intensa que coleciona parcerias sexuais. Isso pode até funcionar para algumas mulheres, mas será que todas são assim?
Eu afirmo (não sem medo de parecer careta) que não sou e me sinto muitas vezes mal por isso. Como se eu tivesse fracassado como esposa (já que me separei) e fracassado como solteira (já que não estou “aproveitando”). Para complicar ainda mais, quando penso em “de volta ao mercado”, considero impossível desvincular a expressão da leitura de A Prateleira do Amor, da Valeska Zanello, e não relacionar as prateleiras aos valores atribuídos às mulheres quando o assunto é a exibição do próprio corpo e disponibilidade para os parceiros.
Na prateleira do amor, o valor da mulher está relacionado à sua juventude, ao formato do seu corpo, à sua adequação a determinados padrões de beleza, entre outros critérios absolutamente excludentes. Voltar ao mercado também carrega a ideia de voltar à lógica dessa dinâmica misógina. Não é incomum ver mulheres solteiras entrando numa batalha imensa para parecer cada vez mais jovens, mais alegres, mais dispostas às loucuras, às viradas de noite, a tudo aquilo que parece fazer parte de uma determinada ideia de liberdade. Repito: isso pode até funcionar para algumas mulheres, mas tenho certeza de que muitas não se sentem representadas.
Mulheres que, depois de muitos anos casadas, descobriram justamente que estar disponível para atender ao desejo do outro, custe o que custar, custa a própria vida. É muito natural que, num relacionamento longo, a gente se funda ao outro. Que adquira gostos muito parecidos, que passe a pensar até a se comportar de maneiras semelhantes. É uma ruptura radical quando acaba. Ficar solteira tem muito mais a ver com voltar para mim do que para o “mercado”. É me perguntar de novo como funciona o meu quarto, a minha casa, a que horas eu tenho fome, como essas novidades se relacionam com o meu corpo e com os meus afetos. Como organizo meu tempo, meu dinheiro, minha rotina, meus desejos. Isto exige algum silêncio e quem sabe eu precise estar menos na rua e na noite do que no meu sofá.
E talvez seja mais dolorido também, já que preciso olhar com honestidade para o fato de que eu posso ter esperado demais das relações afetivo-sexuais; eu posso ter me deixado de lado por muito tempo e será preciso lidar com um vazio que não será preenchido. Não há uma falta aqui que possa ser completada por um parceiro sexual ou por uma noite de loucura. Isso pode até ser uma escolha para um dia ou outro, mas, substancialmente, é preciso ir atrás de uma existência que não seja tão dependente de dar check em padrões inventados para “aproveitar a vida”.
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