Marjorie e Any Gabrielly revelam surpresa ao acompanhar julgamentos: ‘É teatral’
Marjorie Estiano e Any Gabrielly contam como se prepararam para "Habeas Corpus", primeiro drama jurídico brasileiro da Netflix
A série Habeas Corpus levou as atrizes Marjorie Estiano e Any Gabrielly a um universo pouco familiar para as duas: o sistema de Justiça. Para se preparar para os papéis, elas conversaram com advogados, acompanharam julgamentos e tiveram contato com integrantes do Innocence Project Brasil, organização dedicada à revisão de condenações injustas.
“Fiquei muito surpresa com os julgamentos. Não tinha me dado conta desse elemento performático. Às, vezes fica no limite da credibilidade”, diz Marjorie. “É teatral, né?”, acrescenta Any. “O palco, a plateia, o júri, o que está sendo definido. Para mim, foi muito impactante assistir a um julgamento, todo esse teatro da vida real, que tem um impacto estrondoso na vida de um cidadão”, concorda Marjorie.
No drama jurídico, ela interpreta a professora de direito Inês, que reúne um grupo de estudantes para tentar reverter a prisão de um jovem inocente. Entre eles está Marina, personagem de Any Gabrielly, que busca rever a condenação da própria mãe.
Em entrevista à CLAUDIA, as duas falam sobre a série, a preparação para os personagens e os dilemas levantados pela trama. A entrevista completa está disponível no YouTube da revista.
CLAUDIA: A relação delas me faz pensar sobre o perdão. Qual é a visão de vocês sobre o papel do perdão nessa história?
Any Gabrielly: Existe uma diferença de alguém que passa por algo muito violento e tem a oportunidade de pensar sobre, de tentar reparar, e a pessoa que pensa: “pô, eu tenho que pagar esse aluguel, eu tenho que estudar. Eu não tenho tempo para ficar aqui: ‘Ai, me perdoa, se perdoa, não se perdoa’.” A Marina já passou por cima dessa questão e, sem querer, ela se depara com esse perdão. Ela precisava trabalhar no outro dia, cuidar de um bebê, visitar uma parente que está presa.
Marjorie Estiano: Estudei bastante sobre a culpa. A Inês tem o desejo da reparação do erro que ela cometeu, e a culpa pode ter alguns papéis. Ela pode ser um lugar onde você se vitimiza e acaba não assumindo a responsabilidade, vivendo na culpa do ato que você fez, mas também pode ser mobilizadora. No caso da Inês, ela foi mobilizadora. Foi através desse senso de responsabilidade e da culpa que ela foi atrás de conseguir essa reparação, mesmo que fosse através de uma outra pessoa. Essa culpa a colocou em movimento e para frente, o que é fundamental para você se desfazer, se compreender e evoluir.
CLAUDIA: Marjorie, você interpretou Ângela Diniz e, agora, Inês, duas personagens impactadas pelo sistema judiciário de formas diferentes. O que elas trazem de pensamento para o Brasil em 2026?
Marjorie Estiano: A Ângela se deparou com a justiça depois de morta. A relação dela com a justiça era mais subjetiva no sentido dos julgamentos, das críticas, das regras. E a Inês é um instrumento da justiça. Ela é uma ferramenta para fazer aquela instituição funcionar, é parte do sistema. De maneira geral, elas trazem a importância da gente atualizar o sistema de justiça, porque ele é um raio X da nossa sociedade. Então, ela vai revelar o patriarcado, o racismo, a desigualdade, a vulnerabilidade da população.
CLAUDIA: Marina se envolve emocionalmente com os casos, às vezes ultrapassando certos limites. Como você enxerga esses dilemas da personagem?
Any Gabrielly: Ela é parte desse grupo que é invisibilizado. Naturalmente, quando encontra alguém que a enxerga, existe essa conexão que, às vezes, vai além da frieza do profissional. Mas eu acho também que a nossa série foge dos heróis e dos vilões. A Marina pode estar lutando por algo importante, com um objetivo final moralmente aceitável, mas ela é humana. Então, também falha, erra, é egoísta, é mentirosa. Às vezes, é completamente lúcida, assim como a Inês, assim como todos os nossos outros personagens. Somos humanos, todos nós temos muitos motivos para cometer os erros e os acertos que a gente comete.
CLAUDIA: A série também fala sobre mudança, inclusive através da Inês. Marjorie, você acredita na possibilidade de transformação de uma pessoa?
Marjorie Estiano: Eu acredito. Sempre precisa haver uma disponibilidade, um interesse na mudança. Não acho que você aprende inevitavelmente, é uma condição de aprendizado, e o aprendizado é um interesse. Você aprende se você estiver disponível e se transforma a partir disso. Eu reconheço isso em mim, em pessoas próximas a mim, na estrutura da nossa sociedade. A gente, enquanto sociedade, se transformou muito. Eu diria: ainda tem muito para modificar, mas eu reconheço uma mudança.
CLAUDIA: Marjorie, você costuma escolher personagens que provocam reflexões sobre a sociedade e, ao mesmo tempo, também recebe críticas por se posicionar politicamente, como aconteceu no caso com Juliano Cazarré. Como lida com essas críticas?
Marjorie Estiano: Tenho um carinho especial por projetos que têm uma função coletiva, mas eu adoraria fazer uma comédia só para o público se divertir, sem nenhuma necessidade extrema de profundidade, porque isso também é um serviço público, o entretenimento, a leveza, a risada. Nós somos seres políticos, e a gente não tem que se desculpar. Acho que discussão política sobre posicionamento é construção de sociedade. Isso tem um preço, principalmente quando você está num momento tão polarizado quanto o mundo está. Asssumo esse preço quando eu acho que vale a pena.
Não sou a mais adepta da discussão em rede social, porque eu acho ela muito trabalhosa e pouco efetiva no que diz respeito à comunicação, a esclarecer pontos de vista. Ela acaba sempre ficando num lugar de Fla x Flu, mas eu sou muito ativa na minha vida, nas minhas relações. Esse é um aspecto da minha personalidade muito presente e que eu preservo.
CLAUDIA: Quando conversamos sobre Ângela Diniz, no começo do ano, você falou sobre a vontade de deixar coisas positivas para o elenco mais jovem em Habeas Corpus. Agora, com as gravações encerradas, o que você sente que deixou para eles e o que eles deixaram para você?
Marjorie Estiano: Acho que eu podia ter sido melhor. Uma coisa que eu fico sempre pensando é sobre como eu sou absorvida com a demanda, o compromisso, a responsabilidade, o quanto eu usufruo menos da leveza, da distração, que é parte importante do processo. Mas eu fiquei muito feliz, muito emocionada de ver uma geração, e me projetei também naqueles atores que estavam começando.
Any Gabrielly: Não, eu vou precisar interromper ela agora. Você é uma pessoa que se preocupa. Não no sentido de tensão, mas você se importa. É desafiador você estar no set com alguém que tenha a sua carreira e a sua expertise, mas você é uma atriz generosa. É uma pessoa focada, uma pessoa que está presente. E, acima de tudo, quando alguém precisa, você estende a mão.
CLAUDIA: Any, e qual a importância de falar sobre as injustiças do sistema judiciário em 2026?
Any Gabrielly: A arte tem esse poder de falar com o subjetivo, com o íntimo das pessoas, de trazer um assunto que é complexo de uma forma um pouco mais humana. A justiça é um alicerce da nossa sociedade, algo que tem o poder de mudar a vida de alguém, seja para destruir, seja para salvar. É algo em que a gente tem que poder confiar. Acho que nunca existirá um ideal. Então, é importante poder discutir para deixar isso cada vez melhor para as gerações futuras e para a geração atual também.
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