Larissa Nunes fala de amor, casamento e apagamento em ‘Justino’
Atriz discute casamento, desejo e o limite silencioso entre dedicação e apagamento
Há uma pergunta particularmente cruel que costumamos fazer às mulheres depois que um casamento acaba mal: “Como ela não percebeu?”.
É confortável para quem observa a história quando ela já terminou e enxerga, em retrospecto, todas as red flags. Para quem estava dentro daquela relação, porém, a realidade dificilmente se apresentou com a mesma clareza.
É nesse espaço entre a vida que uma mulher desejou construir e aquilo que acabou vivendo que Larissa Nunes encontrou Graça, sua personagem no filme Justino – Nos Bastidores do Reino. A primeira decisão da atriz foi não começar pela vítima que sabemos que Graça se tornaria.
“No processo do filme, fiz a escolha interna de não começar a construir uma personagem a partir da dor dela. Nenhuma mulher é somente a dor que vive ou a frustração que sofre”, explica.
Graça existiu. Foi esposa de Mário Justino e mãe de seus filhos. Larissa teve poucas informações sobre ela além de algumas fotografias. Antes de pensar no que daria errado naquele casamento, precisava imaginar quem era aquela mulher. “Ela queria amor, casamento, filhos, fé, família.”
Mas havia também a ideia de que, depois de dizer sim a determinada vida, uma mulher passa a carregar a responsabilidade de fazê-la funcionar.
“O que poderia ser somente uma história que pode ou não dar certo, muitas vezes se internaliza como uma promessa: a promessa de que aquele casamento vai dar certo, de que a maternidade vai dar certo, de que aquela escolha precisa dar certo. Como se o sucesso daquela relação dependesse somente dela”, diz Larissa.
Essa talvez seja a chave para entender por que o “como ela não percebeu?” incomoda tanto. Nós fazemos a pergunta conhecendo o final e transformamos em ingenuidade aquilo que, naquele momento, podia ser uma escolha legítima.
Graça é uma jovem baiana no final dos anos 1980 quando conhece um pastor neopentecostal promissor, apresentado a ela por uma figura de autoridade da igreja. Ela se encanta, o relacionamento avança e o casamento parece representar a vida que deseja.
“Ela entra naquela relação de maneira legítima e acredita que está fazendo uma boa escolha. E a gente sabe que nem todas as red flags são óbvias”, lembra Larissa.
Perceber alguma coisa errada, porém, não significa saber imediatamente o que fazer. “O fato de uma mulher permanecer na situação não significa necessariamente que ela não percebeu nada. Às vezes, significa que ela esteve o tempo todo tentando elaborar o que fazer com aquilo que viu.”
Existe ainda o peso do contexto. Durante gerações, mulheres foram educadas a pensar o casamento como estabilidade e reconhecimento.
Larissa lembra que, em determinadas instituições religiosas, essa pressão pode ser ainda maior para mulheres pobres ou negras. E rejeita transformar a consciência de hoje em instrumento para julgar gerações anteriores.
“A agenda do feminismo pra mim, essencialmente, não se baseia em julgar mulheres por terem feito escolhas diferentes das que eu faria. Se eu só julgo e aponto o dedo, eu não transformo a realidade dela.”
Talvez seja fácil demais perguntar por que uma mulher não foi embora. Mais difícil é perguntar o que lhe disseram durante toda a vida sobre ficar.
Em Justino, há outra camada importante: o casamento que Graça acredita estar construindo por amor também ajuda a construir a respeitabilidade pública do marido. Ser casado e chefe de família contribui para a imagem de estabilidade de um homem em posição religiosa de destaque.
Mas Larissa afasta a ideia de que Graça seja apenas uma fachada. “Ela acredita que está construindo, junto com ele, a vida que também deseja para si.”
A ruptura começa quando ela percebe que está sozinha naquela parceria. Justino se distancia, mente e deixa de oferecer algo fundamental: afeto. Graça quer ser amada, desejada e reconhecida dentro do próprio casamento, enquanto, para quem olha de fora, aquela relação ainda pode parecer bem-sucedida.
É aí que aparece uma violência silenciosa. “Muitas vezes, essa mulher não consegue falar sobre isso porque expor a fragilidade do casamento também pode significar prejudicar a imagem do marido, expor sua falha como esposa, ainda mais para a igreja. Então ela acaba acreditando que preservar o silêncio é uma maneira de proteger o casal.”
O silêncio protege o marido, a família, a instituição e a aparência de normalidade. Só não necessariamente protege a mulher.
Há uma palavra central na construção de Graça: dedicação. “Nós, mulheres, precisamos estar sempre atentas à diferença entre dedicação e anulação. Eu posso me dedicar a alguém e continuar tendo desejo, opinião, projetos, ambição, sexualidade e voz própria.”
O apagamento raramente acontece de uma vez. Pode começar num silêncio, numa vontade que deixa de ser expressa, na espera por uma demonstração de amor. Muitas pequenas concessões podem mudar o espaço que alguém ocupa dentro da própria vida.
Larissa encontra uma definição precisa para esse momento: “Durante a construção da Graça, fui identificando justamente esse momento em que o amor deixa de ampliar a vida e começa a estreitá-la.”
Isso não significa condenar a dedicação, que ela considera uma das formas mais bonitas de amar. O limite aparece quando aquilo que oferecemos voluntariamente passa a exigir que diminuamos nossa própria existência.
Graça chega também num momento de transformação na trajetória de Larissa. Depois de uma carreira ligada à televisão e ao streaming, o cinema passou a ocupar mais espaço.
Justino – Nos Bastidores do Reino tem previsão de chegar aos cinemas em 2027, e a atriz vê o filme como parte da construção de uma carreira mais madura no cinema.
“Sinto que estou num momento em que posso dar passos mais ousados, falar com outras mulheres o que penso, mobilizar pessoas e fazer com que esses passos acompanhem a mulher que estou me tornando”, diz.
Talvez por isso Graça seja tão significativa. Não porque ofereça uma explicação simples, mas porque nos obriga a questionar a facilidade com que julgamos escolhas depois que sabemos como tudo terminou.
“Como ela não percebeu?” talvez nunca tenha sido a pergunta certa. Mais justo é tentar compreender o que ela desejava, o que acreditava estar construindo e quanto lhe ensinaram que deveria suportar para fazer aquela vida dar certo.
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