Nudez não é o problema: o que a campanha de Sydney Sweeney revela sobre luta das mulheres no esporte
Campanha com Sydney Sweeney reacende debate sobre a hipersexualização de mulheres no esporte e o longo caminho por reconhecimento
Imagine você, atleta, passar uma vida inteira tentando provar seu valor para além da aparência. Treinar pesado, participar de competições, abrir mão de momentos de lazer e dedicar anos à construção de uma carreira esportiva.
Tudo isso para demonstrar que mulheres podem ocupar o esporte por sua força e desempenho. Então, de repente, uma campanha publicitária ligada a esse universo volta a colocar o corpo feminino no centro da conversa.
Foi assim que muitas atletas receberam a nova campanha da plataforma de apostas esportivas Novig, protagonizada por Sydney Sweeney.
Nas imagens, a atriz aparece nua ou seminua em diferentes contextos esportivos. A repercussão foi imediata, e atletas de diferentes modalidades passaram a criticar a publicidade por considerá-la um retrocesso na forma como mulheres são representadas no esporte.
Mas talvez a pergunta que paire sobre a cabeça de algumas pessoas seja: por que algumas cenas de nudez incomodam tanto? O problema, neste caso, não está simplesmente em uma mulher aparecer nua, e sim na finalidade e no contexto histórico em que essa imagem é colocada.
O problema não é uma mulher escolher ser sensual
Em alguns comentários sobre a campanha, é possível ver pessoas questionando tamanha indignação. Afinal, foram anos de luta para que mulheres pudessem fazer o que quisessem com os próprios corpos e utilizar sua sensualidade como bem entendessem.
Só que o problema aqui está menos na nudez e mais no entendimento sobre o papel que se ocupa, para quem aquela imagem foi construída e como ela dialoga com discussões que mulheres no esporte vêm tentando fazer avançar há décadas.
Mulheres, inclusive atletas, podem posar nuas e da maneira que bem entenderem. Aliás, essa foi uma das respostas levantadas após a polêmica.
Sweeney compartilhou imagens de esportistas que já participaram de ensaios nus ou sensuais, como forma de argumentar que nudez e esporte não são necessariamente incompatíveis. E realmente não são.
Só que existe uma diferença importante entre uma atleta decidir mostrar o próprio corpo dentro de uma narrativa sobre força, identidade ou autonomia e uma publicidade ligada ao esporte utilizar uma atriz sexualizada como principal ferramenta para chamar a atenção.
Tudo é sobre contexto.
Quando uma atleta posa nua, ela não deixa de ser atleta. Seu histórico, suas conquistas e aquilo que faz continuam sendo parte central de sua imagem.
Já em uma publicidade na qual bolas, tacos e outros equipamentos aparecem quase como acessórios de uma cena sensual, o esporte corre o risco de virar apenas cenário para uma fantasia sexual.
E talvez seja justamente por isso que a reação de tantas atletas tenha sido tão intensa. Algumas, inclusive, responderam à campanha criando a trend de suas próprias conquistas, em uma tentativa de mostrar o que poderia significar uma mulher no esporte.
O corpo feminino ainda precisa disputar espaço com o desempenho
Outro questionamento que se deve levantar é sobre o imaginário esportivo. Quando você pensa nos uniformes utilizados por atletas olímpicas, qual imagem vem à cabeça? E quando pensa nos homens? A diferença começa aí.
A hipersexualização de mulheres no esporte é questionada há décadas porque, enquanto os homens costumam ser apresentados prioritariamente como atletas, elas ainda precisam lidar com uma cobrança constante sobre aparência, feminilidade e exposição do próprio corpo.
Um exemplo recente aconteceu antes das Olimpíadas de Paris, em 2024. Um dos modelos apresentados pela Nike para o atletismo feminino dos Estados Unidos tinha um corte extremamente cavado, muito diferente da versão masculina, e provocou críticas de atletas que questionaram por que uma roupa de competição precisava expor tanto o corpo feminino.
Outro caso semelhante apareceu no futebol inglês em 2023. Jogadoras demonstraram desconforto com uniformes que, ao acumularem suor durante as partidas, ficavam excessivamente colados, aumentando a preocupação com a exposição diante das câmeras.
Dois anos antes, no Campeonato Europeu de Handebol de Praia, a seleção feminina da Noruega foi multada em 1.500 euros por disputar uma partida usando shorts em vez da parte de baixo do biquíni, então exigida pelas regras da modalidade.
As atletas já haviam manifestado desconforto com a obrigação de competir daquela maneira e decidiram utilizar uma peça que consideravam mais adequada à prática esportiva.
São situações diferentes, mas que acabam desembocando na mesma pergunta: por que o corpo de uma mulher precisa ocupar tanto espaço na conversa antes mesmo de seu desempenho?
Quando o esporte feminino ainda precisa provar que é esporte
Existe ainda uma camada que torna tudo isso mais incômodo. O esporte feminino continua lutando por audiência, investimento, patrocínio, espaço na mídia e reconhecimento profissional. Nesse cenário, a representação importa.
Meninas que começam a praticar esportes precisam conseguir olhar para mulheres nas quadras, pistas, piscinas e campos e enxergá-las como referências de força, disciplina e possibilidade de carreira, em vez de receberem novamente a mensagem de que sua principal função pública é parecer atraente.
Existe uma diferença enorme entre ensinar que uma mulher pode escolher exibir seu corpo e reforçar que ele continua sendo uma das formas mais eficientes de fazê-la receber atenção.
Por isso, reduzir a crítica à campanha a um puritanismo contra a nudez é simplificar demais o debate. A questão não é esconder corpos femininos, mas permitir que eles existam sem que precisem ser constantemente transformados em produto.
E talvez seja essa a pergunta que a publicidade deveria ter feito antes de ir ao ar: em 2026, depois de tudo o que mulheres já precisaram reivindicar dentro do esporte, era realmente essa a imagem que ainda precisávamos colocar no centro do jogo?
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