Luisa Arraes: “Os celulares roubaram a nossa possibilidade de sentir tédio”
A atriz fala sobre seu novo filme, "Muito Prazer", a personagem Grace, os limites da intimidade e a relação com o tempo
Quando Rubem (Daniel de Oliveira) herda do tio um motel praticamente abandonado no Rio Grande do Sul, descobre que o imóvel vem acompanhado de uma espécie de “herança” inesperada: Grace. Vivida por Luisa Arraes, a ex-funcionária continuou morando em um dos quartos mesmo depois que o Motel Pérola fechou as portas — e não parece ter a menor pressa de mudar de vida.
O encontro dos dois dá início a Muito Prazer, novo filme de Jorge Furtado. Disposto a recuperar o negócio, Rubem se une a Grace e Nalva (Samantha Jones) em um plano nada convencional para levantar dinheiro: vender na internet imagens gravadas dentro dos quartos do motel. A ideia, porém, rapidamente sai do controle e coloca o trio no centro de uma confusão em que intimidade, exposição e sexualidade deixam de pertencer apenas à esfera privada.
Em meio a esse universo atravessado por telas e algoritmos, Grace chama atenção justamente por parecer viver em outro ritmo. Ela tricota, fotografa com filme, improvisa e encara até as situações mais absurdas a partir de uma lógica muito particular.
“Isso me relembrou muito de quando eu era criança e as coisas tinham mais tempo”, conta Luisa Arraes. Em entrevista à CLAUDIA, a atriz fala sobre o que encontrou de si em Grace, os improvisos no set de Jorge Furtado, sua relação com a exposição na internet e o que acontece quando a intimidade passa a existir sob a lógica das telas.
CLAUDIA: Grace é muito engraçada, mas também tem algumas falas que ficam na cabeça. Tem alguma frase ou momento dela que virou seu favorito?
LUISA ARRAES: “Eu amo a discussão dela com o Rubem, quando ele pergunta quantos hóspedes o tio tinha. Ela diz que ele os chamava de clientes. Aí ele pergunta: ‘Tá, mas quantos?’. E ela responde: ‘Nenhum’. Então ele fala: ‘Quem chamava de cliente?’. E ela: ‘Ué, ele chamava os clientes, que não tinha, de clientes, igual você chamou seus hóspedes e também não tem nenhum’.
Eu amo essa fala, essa lógica dela. Acho que foi uma das coisas que mais me marcaram: esse pensamento, não sei se meio Alice, de Alice no País das Maravilhas, mas que, ao mesmo tempo, parece muito coerente. Ela tem muita fé e muita certeza na própria lógica. Só que é uma lógica diferente — e é justamente por isso que acaba sendo tão engraçada.”
CLAUDIA: Você acabou de fazer a peça O Beijo no Asfalto, de Nelson Rodrigues, em que um gesto íntimo se transforma em uma narrativa pública e destrói uma família. Agora, em Muito Prazer, a intimidade também é filmada e monetizada. Você percebe algum diálogo entre trabalhos tão diferentes?
LUISA ARRAES: “Tem muita coisa em comum, principalmente essa questão da mídia em O Beijo no Asfalto, que hoje também poderia ser transportada para as redes sociais. Em Muito Prazer, existe essa questão da internet: o que está ali passa a ser verdade, independentemente de ser ou não.
Há uma rigidez na internet. Você coloca alguma coisa e aquilo fica lá para sempre. Então existe esse perigo do mundo digital, do qual Muito Prazer fala e O Beijo no Asfalto também. Se alguém publica alguma coisa, aquilo pode se tornar verdade e até destruir uma família. É o poder da informação e, principalmente, da divulgação dessa informação.
De certa forma, são temas muito atuais. Uma peça escrita em 1965 continua atual, enquanto um filme escrito hoje dialoga com essa mesma questão da informação, da circulação da imagem e de como essa imagem também pode ser distorcida.
No caso da Grace, pela comédia, ela não está nem aí para isso. Mas vai arrumar muito problema justamente por causa dessa ingenuidade, por achar que nada aconteceria com ela. E não é verdade: o que está na internet pode destruir a vida de uma pessoa.”
CLAUDIA: Você já falou sobre não gostar muito desse lugar de celebridade e também sobre ter parado de acompanhar o que dizem sobre você na internet. Como estabelece esse limite entre ser uma pessoa pública e não transformar a própria vida em conteúdo?
LUISA ARRAES: “Esse é um equilíbrio muito difícil. Tento expor o mínimo que posso e falar do trabalho o máximo que posso. Mas a internet e as redes sociais entraram de um jeito na vida que todo mundo tem um celular e quer saber de tudo. Então existe uma parte que já não está na nossa alçada — a não ser que a gente fique trancado numa masmorra.”
CLAUDIA: Você já contou como as personagens acabam ocupando muito espaço na sua vida enquanto está trabalhando. O que encontrou de seu na Grace e o que ela deixou em você depois que o filme terminou?
LUISA ARRAES: “Acho que o que encontrei de mim na Grace foi essa disponibilidade para experimentar coisas novas, para ir em direção ao desconhecido. Claro que ela tem uma disponibilidade muito maior do que a minha, mas improvisa, faz coisas que não conhece ou que não sabe fazer tão bem. Tem também essa coisa de amadora, né? Acho que nisso eu me identifico.
O que ela deixou em mim foi esse contato com um outro tempo, que os trabalhos manuais acabam trazendo: o tricô, a fotografia analógica. Isso me lembrou muito de quando eu era criança e as coisas tinham mais tempo, de ficar sentindo tédio e, a partir disso, criar coisas. Tive uma infância sem celular, então lembro de pegar fio de telefone, fazer grade, brincar na rua — coisas que hoje são mais raras.
Acho que eles estão ali brincando justamente com esse outro tempo. Então, Grace me deixou essa relação diferente com o tempo. De certa forma, ela trouxe isso de volta para mim.”
CLAUDIA: Você, Daniel de Oliveira e Samantha Jones têm uma dinâmica muito natural no filme. Quanto disso já estava no roteiro e quanto vocês construíram juntos no set? Havia espaço para improviso?
LUISA ARRAES: “O Jorge chega com um texto maravilhoso, mas também solta os atores, solta os palhaços. Então havia muito espaço para improviso e brincadeira. Vendo o filme, reconheci várias coisas que fomos criando e acrescentando.
Por exemplo, na cena em que estamos na loja da Nalva, o Daniel coloca a mão para cobrir a boca e depois eu faço a mesma coisa. Lembro que inventamos aquilo na hora.
A gente chega muito treinado, mas o Jorge falou uma coisa linda: ‘Estude muito, esqueça tudo’. Então ensaiamos bastante e, na hora, se surge alguma coisa nova e legal, ela acaba entrando. Vai se criando um clima quase de teatro. A gente entra nesse universo do Furtado, improvisando e criando junto.
É um ambiente muito fértil para criar. Você pode se divertir e experimentar sem medo, porque o que for bom acaba ficando.”
CLAUDIA: Você já comentou como Grace parece uma personagem de outro tempo e como muitas das ideias dela parecem nascer justamente do tédio. Hoje, com tantos projetos e dizendo que não consegue ficar muito tempo sem trabalhar, você ainda se permite ficar entediada? O que esse tédio produz em você?
LUISA ARRAES: “Hoje o tédio é mais difícil, não só por causa do trabalho, mas muito por causa dos celulares. É uma coisa que me incomoda: como eles roubaram a nossa possibilidade de sentir tédio. É algo que eu quero melhorar.
Os momentos em que consigo sentir tédio são gloriosos, mas é muito difícil, porque a gente é muito capturado. Qualquer tempo de espera parece precisar ser transformado em tempo útil, em um momento em que estamos vendo ou fazendo alguma coisa. Isso é muito ruim.
Por isso, o processo de criação, para mim, também é uma espécie de férias, seja escrevendo ou lendo. Existem trabalhos desgastantes, claro, mas criar também pode ser um descanso para mim. Quando estou pesquisando, lendo, escrevendo ou inventando alguma coisa, consigo me permitir mais esse estado. Caminhar pensando em algo, por exemplo, é quando muitas ideias aparecem.
Acho que essa é uma das grandes batalhas do contemporâneo: conseguir deixar uma brecha para o tédio entrar.”
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