Tainá Maranhão: “As meninas passaram por tanta coisa para que hoje a gente possa desfrutar”
Aos 21 anos, atacante do Palmeiras e da Seleção Brasileira faz parte de uma nova geração do futebol feminino que cresceu em meio à expansão da modalidade
Tainá Maranhão ainda se considera uma das “meninas mais novas” do futebol feminino. Entre passes, chuteiras e uma grande bagagem esportiva, aos 21 anos, a atacante do Palmeiras já veste a camisa da Seleção Brasileira, coleciona títulos e se tornou referência para outras garotas que sonham em viver do esporte.
Em entrevista exclusiva à CLAUDIA, a futebolista, que acaba de se tornar o rosto da Centauro, loja de artigos esportivos, conta como é perceber que também passou a ocupar um lugar de referência na construção da história do futebol feminino.
“Eu ainda me vejo como a menina mais nova”, diz sobre jogar no Palmeiras. “Só que eu vejo também que tem outras meninas que se espelham em mim. Então, isso para mim ainda é um multiverso muito novo.”
Nascida em 18 de agosto de 2004, Tainá começou a jogar futebol aos 15 anos e percorreu rapidamente o caminho até a Seleção principal. A primeira convocação para a equipe Sub-17 veio em 2019. Em outubro de 2025, apareceu pela primeira vez na lista da Seleção principal. Já em 2026, ganhou espaço na equipe comandada por Arthur Elias e marcou seu primeiro gol com a Amarelinha na vitória por 5 a 2 sobre a Costa Rica, em fevereiro.
O crescimento da jogadora acontece em paralelo a uma transformação mais ampla do futebol feminino brasileiro. Segundo levantamento divulgado pela Confederação, em julho de 2026, o número de competições femininas adultas e de base passou de seis, em 2021, para nove em 2026. No mesmo período, a quantidade de clubes participantes aumentou de 58 para 79, enquanto o número de partidas saltou de 398 para 712 — um crescimento de 79%.
Para Tainá, entretanto, os números representam algo que vai muito além das estatísticas. “Eu digo que eu peguei a parte boa do futebol feminino”, afirma. A jogadora reconhece que a possibilidade de viver profissionalmente do esporte é resultado de uma trajetória construída por mulheres que enfrentaram períodos em que sequer havia espaço para jogar.
“Elas foram muito guerreiras, as meninas, para hoje o futebol feminino estar onde está”, diz. “As meninas passaram por tanta coisa para que hoje a gente possa desfrutar.”
O novo futebol feminino
A expansão do futebol feminino também aparece na estrutura das competições. Em 2026, o Campeonato Brasileiro Feminino A1 passou a contar com 167 partidas, transmitidas por diferentes plataformas, entre elas Globo, SporTV, TV Brasil, GE TV, N Sports, CBF TV e UOL. A premiação para o campeão também aumentou para R$ 2 milhões, R$ 500 mil a mais do que na edição anterior.
A CBF anunciou ainda, para a temporada de 2026, um novo calendário, com mais clubes, datas e partidas, além de investimentos de R$ 685 milhões destinados ao futebol feminino. Entre as medidas está também um programa de apoio a atletas mães e lactantes, com a possibilidade de levar os filhos em viagens custeadas pela entidade.
O movimento acontece em um momento especialmente simbólico: em 2027, o Brasil será sede da Copa do Mundo Feminina da FIFA pela primeira vez. O torneio será realizado entre 24 de junho e 25 de julho, com 32 seleções e 64 partidas distribuídas por oito cidades brasileiras. O Maracanã receberá tanto a abertura quanto a final.
Para Tainá, disputar uma Copa do Mundo no próprio país pode representar mais um capítulo na transformação da modalidade. “Eu acho que é uma boa oportunidade para a gente realmente dar a cara do futebol feminino brasileiro”, afirma. “A gente está tendo essa oportunidade dentro de casa, com o nosso país sediando uma Copa do Mundo.”
A expectativa da jogadora é que o evento ajude a aproximar ainda mais o público do futebol praticado por mulheres. “Depois disso, a gente finalmente vai ter mais olhos para a modalidade, mais pessoas apoiando a modalidade”, diz.
Referência de craque
Se antes Tainá olhava para jogadoras mais experientes em busca de inspiração, hoje percebe que também ocupa esse lugar para meninas que estão começando. É uma responsabilidade que ainda causa certo estranhamento.
Sua principal referência, por exemplo, é Bia Zaneratto, uma de suas companheiras no Palmeiras. “Há um tempo atrás eu olhava e pensava: ‘A Bia joga comigo, que isso?’”, conta. “Eu sempre gostei muito do estilo de jogo dela.”
A convivência com a ídola se tornou parte da rotina, mas não eliminou a admiração. Ao contrário: Bia continua sendo uma referência profissional para Tainá, que, ao mesmo tempo, passou a construir sua própria trajetória dentro da equipe paulista.
No Palmeiras, a atacante encontra um ambiente que, segundo ela, representa o atual momento de evolução da modalidade. “O Palmeiras é um dos times no Brasil que abraçou sua modalidade, em relação à estrutura, enfim, em relação a tudo”, afirma. Para Tainá, outros clubes podem seguir o mesmo caminho e ampliar as oportunidades oferecidas às jogadoras.
Para além das chuteiras
Apesar da cobrança e da necessidade de superar obstáculos diariamente, Tainá não quer que sua história seja lembrada apenas pelos títulos e gols. Ela deseja deixar uma marca também pela maneira como encara o futebol.
“Eu levo futebol como a minha vida, mas eu acho que eu levo ele principalmente com muita alegria, ousadia, felicidade”, afirma. “Eu espero que as pessoas lembrem de mim como essa pessoa que sempre está dando risada, que sempre está pulando, que sempre está sendo brasileira.”
A leveza, no entanto, não significa desconhecer as dificuldades da profissão. A jogadora reconhece que viver do futebol exige renúncias e uma capacidade constante de se reinventar. “O futebol é complicado. A gente tem que se superar todos os dias e abrir mão de muitas coisas para viver dele.”
Ainda assim, prefere enxergar essa cobrança como parte do privilégio de viver aquilo que outras gerações não puderam experimentar. “Eu levo como uma honra e não como uma dificuldade.”
É justamente entre a responsabilidade e a alegria que Tainá parece enxergar seu lugar no futebol feminino. Ela pertence a uma geração que chegou a um esporte mais estruturado, mais transmitido e mais valorizado, mas que ainda carrega a tarefa de ampliar esse caminho para quem vem depois.
E, quando pensa no legado que quer deixar, a resposta não se resume a números. “Além de muitos títulos, muitos gols, eu espero deixar alegria para as meninas que estão vindo agora.”
Para uma jogadora que ainda se considera uma das mais novas, talvez esse seja o sinal mais evidente de que sua trajetória já começou a ultrapassar as quatro linhas.







