“Todo dia eu chorava”: Mini Kerti fala sobre série dedicada à amiga Preta Gil
A diretora coloca a intimidade em evidência ao retratar a vida de brasileiros extraordinários, como Preta Gil
Há cineastas que encontram potência em casos verídicos, outras constroem na ficção um mundo que instiga reflexões tão contemporâneas que atravessam as fronteiras das telas. Mas a diretora Mini Kerti compõe sua filmografia entre esses dois territórios.
Marcados por um olhar delicado e atento às relações humanas, seus roteiros nascem da intimidade para falar sobre temas universais, como a música, os dilemas do amor e a rotina difícil de médicos da instituição pública. Em vez de recorrer a grandes reviravoltas narrativas, ela investe na observação atenta para evidenciar os pequenos detalhes de seus personagens.
“Durante minha trajetória, aprendi a escutar porque a sensibilidade vem daí. Você se disponibiliza a entender o outro naquele lugar em que ele está, sem se impor. Só assim consegue captar o que há de essencial nele”, explica.
Nos documentários, dramas ou comédias, isso se traduz em diálogos naturais, enquadramentos contemplativos e uma atmosfera de proximidade — elementos que fazem o público se sentir parte da exibição.
“Me interesso pelas pessoas porque elas são muito ricas. Tenho uma alma de documentarista que também levo para a ficção”, completa. “Apesar de amar distopias, meus filmes não são terror, contos mirabolantes ou surrealistas — são enredos de reconhecimento e estão ligados ao mundo real.”
Um sucesso após o outro
Mini iniciou sua carreira como produtora e assistente de direção em um momento decisivo para o audiovisual. Após a extinção da Embrafilme, no início dos anos 1990, o cinema nacional passava por um período de reconstrução, e foi na publicidade e nos videoclipes que ela encontrou espaço para desenvolver sua linguagem.
Nessa fase, dirigiu trabalhos para artistas como Gilberto Gil, Julio Iglesias, Daniela Mercury, Olodum, Lulu Santos, Ana Carolina e MV Bill.
O primeiro contato com documentários ocorreu ao integrar a equipe de Socorro Nobre, de Walter Salles. No curta-metragem, foi responsável por conduzir as entrevistas que acompanhavam a amizade por correspondência entre a detenta Maria do Socorro Nobre e o artista plástico polonês Frans Krajcberg.
“Ali aprendi, de fato, o poder da escuta”, relembra. Nas horas vagas, a protagonista escrevia cartas, listas de feiras e bilhetes para as colegas analfabetas da prisão, fato que inspirou o memorável Central do Brasil.
De lá para cá, o interesse da diretora por pessoas que ajudam a construir a cultura brasileira só aumentou. Em 2005, ela lançou o Chame Gente — A História do Trio Elétrico, que resgata a trajetória dos músicos Dodô e Osmar e o nascimento de uma das maiores tradições do Carnaval.
Já em Refavela 40, documentário indicado ao Emmy Internacional, ela revisita o impacto do álbum lançado por Gilberto Gil em 1977 e acompanha a criação de uma releitura contemporânea da obra. “Sou uma amante da arte brasileira, da música, da pintura… Me vejo como uma apaixonada pela cultura do nosso país.”
Em paralelo, Mini expandiu sua atuação na televisão ao cocriar e codirigir Sob Pressão, série reconhecida pelo retrato humanizado do sistema público de saúde e considerada uma das produções mais relevantes da TV brasileira nos últimos anos.
“Quando estreamos, tínhamos um certo medo porque os episódios eram muito realistas. A gente não sabia qual seria a reação do público. Conforme as temporadas foram passando, entendemos o valor social que ela tinha”, diz.
“O fotógrafo, o maquinista, o eletricista, a continuísta, o figurinista, os outros diretores… Todo mundo tinha muito orgulho de fazer uma série de utilidade pública.”
A curiosidade para os laços familiares e para as transformações do mundo feminino também moveram seus projetos e foram o foco de Juntas & Separadas, série da Globoplay que narra a vida de um grupo de mulheres que está passando por transformações e perrengues inesperados.
“Percebi uma identificação de outras mulheres com as questões da menopausa, da separação e da amizade. Você se reconhecer na tela e entender que não está só é algo muito reconfortante. O mais importante, para mim, é acreditar no que estou fazendo e estabelecer conexões com o espectador.”
Amizade que vai além: o documentário de Preta Gil
Essa capacidade de criar vínculos também atravessa seus projetos mais íntimos, como a recém-lançada série documental Meu Nome É Preta, que reconstrói o legado de Preta Gil a partir do olhar daqueles que compartilharam sua vida.
Para Mini, a obra também significa revisitar uma amizade antiga: as duas se conheceram no início da carreira de ambas, quando Preta apostou no talento da diretora e a convidou para montar uma produtora voltada à publicidade. Jovens, percorreram agências e gravadoras entre Rio de Janeiro e São Paulo em busca de trabalho.
“Ela acreditou em mim. Era uma pessoa muito atenta às novidades e ao que estava acontecendo no mundo”, conta. A proximidade, no entanto, tornou o processo de criação desafiador, já que começou a ser montado pouco tempo após a morte da artista. “Todo dia eu me pegava chorando. Foi emocionante entender a mulher que ela se tornou ao longo desses anos.”
Mais do que uma homenagem, se revelou um retrato complexo da amiga. Guiada por uma conversa com o empresário Marcelo Azevedo, que lhe contou que Preta lamentava não ser reconhecida plenamente por suas canções, a cineasta decidiu colocar sua voz no centro dos episódios — há apresentações ao lado de nomes como Gilberto Gil, Ivete Sangalo, Ana Carolina e Thiaguinho, reafirmando seu talento como intérprete, mas sem deixar de lado sua atuação no combate ao racismo, à gordofobia e à LGBTfobia.
“Quis mergulhar na Preta inteira, respeitando quem ela era, inclusive nas suas contradições.”
Ocupando espaços
Mini integra uma geração de realizadoras que apoiam a presença feminina atrás das câmeras, embora a desigualdade ainda seja uma realidade no cenário brasileiro. Dados da Ancine mostram que, apesar de as mulheres representarem 53% dos graduados em cursos de audiovisual, elas assinam apenas 15% da direção das obras brasileiras exibidas na TV por assinatura. No cinema, os números também são baixos: entre os longas nacionais lançados comercialmente em 2016, somente 19,7% tiveram direção feminina.
Na Casa Clã 2026, ela comentou que esse espaço é uma questão de diversidade de perspectivas. “É fundamental que o cinema seja plural e contemple o olhar das mulheres.”
Suas escolhas técnicas reforçam esse compromisso: há protagonistas que escapam dos estereótipos que resumem a vivência feminina a relações afetivas ou familiares. São mulheres complexas, atravessadas por desejos, contradições e processos de mudança, retratadas com a mesma profundidade dedicada aos personagens masculinos. “O cinema é um ofício coletivo. Nossa luta é eliminar fronteiras e poder contar histórias de todos os tipos.”
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