De ‘A Substância’ a ‘Insaciável’: por que os filmes de terror agora atacam a obsessão pela magreza?
Em "Insaciável" e outras produções, o body horror revela a violência da pressão estética feminina na busca pelo corpo perfeito.
Até onde você iria pelo corpo que deseja? Em Insaciável, novo terror dirigido por Natalie Erika James, a resposta de Hana (Midori Francis) começa por uma decisão duvidosa. A história começa familiar: uma estudante de medicina presa em uma relação conturbada com a própria imagem.
Quando vê uma colega emagrecer rapidamente, decide recorrer ao mesmo método utilizado pela amiga, um tratamento baseado em pílulas misteriosas para perda de peso. Há apenas um detalhe: os comprimidos são feitos de cinzas humanas, informação que deveria ser suficiente para fazer Hana desistir — mas não é.
A premissa é absurda, nojenta e, como um bom filme de terror, perturbadora. Mas é importante perceber que a decisão de Hana nasce de um sentimento muito menos chocante: a ideia de que sempre existe algo no corpo das mulheres que precisa ser corrigido.
Afinal, por que o corpo feminino combina tão bem com o body horror?
O corpo feminino é bonito, desde que obedeça às regras
Sangue, suor, pelos, rugas, gordura, secreções, cicatrizes: poderia ser a lista de elementos de uma cena de terror. Ao mesmo tempo, são características de qualquer corpo vivo — ainda que raramente apareçam na descrição de uma mulher que aprendemos a considerar bonita.
Há uma contradição na maneira como aprendemos a enxergar o corpo feminino. Ele é constantemente exibido, desejado e transformado em objeto de fascínio, mas tudo aquilo que evidencia sua natureza ainda é cercado de tabus. A menstruação existe, mas pouco se discute sobre a repulsa que ainda provoca em muitos homens. Pelos crescem, mas é como se ninguém pudesse vê-los. O peso pode até oscilar, desde que permaneça sob controle.
Body horror como metáfora para vivências femininas
No body horror, a lógica parece ser justamente o oposto desse imaginário coletivo. O gênero encontra diferentes maneiras de falar sobre a experiência feminina ao dar forma ao medo de habitar um corpo que muda, sangra, deseja e nunca está completamente sob nosso controle.
Em Ginger Snaps (2000), por exemplo, tornar-se mulher significa virar um monstro — literalmente. A primeira menstruação de Ginger coincide com o início de sua transformação em lobisomem. Puberdade, sangue, pelos e agressividade surgem juntos, fazendo da passagem para a vida adulta uma metamorfose monstruosa.
Já em Possessão (1981), Anna, vivida por Isabelle Adjani, grita, se contorce e sangra enquanto seu casamento e vida emocional deixam de ser o que eram.
O body horror, portanto, nunca precisou inventar o medo relacionado ao corpo feminino: menstruação, gravidez, puberdade, sexo e envelhecimento já são rotuladas pela sociedade como algo a se temer. Mas existe um movimento diferente acontecendo agora.
O novo body horror
Desde o início da década, o gênero passou a explorar questões femininas ainda mais modernas: a impossibilidade de sentir satisfação com o próprio corpo, pois sempre existe uma versão melhor dele esperando para ser alcançada.
Impossível não lembrar de Elizabeth Sparkle (Demi Moore) no revolucionário A Substância. Elizabeth não está doente, está envelhecendo e, ainda assim, passa a enxergar o próprio corpo como algo que precisa ser substituído por uma versão mais jovem, firme e desejável.
No ano seguinte, A Meia-Irmã Feia, de Emilie Blinchfeldt, fez do conto de fadas de Cinderela um pesadelo corporal. Elvira, determinada a ofuscar sua bela meia-irmã, recorre a intervenções cada vez mais violentas para se aproximar da aparência necessária para conquistar o príncipe. O trabalho de maquiagem e cabelo do longa chegou a ser indicado ao Oscar de 2026.
Shell (2024), com Elizabeth Moss, também parte da promessa de uma intervenção estética capaz de melhorar a aparência e a carreira de uma atriz. Apesar da recepção fria, o ponto de partida também se aproxima de obras recentes com a mesma premissa: um corpo que precisa sempre ser aprimorado.
A pressão estética impulsiona a nova fase do gênero
O body horror com protagonistas femininas nunca foi uma novidade. O que parece ter mudado é a quantidade de filmes que usam suas ferramentas narrativas para denunciar a intensidade crescente da pressão estética entre as mulheres.
O movimento ganha força em um momento delicado, onde o culto à magreza volta a ocupar espaço nas discussões sobre beleza, medicamentos para emagrecimento ampliam as possibilidades de perda de peso e procedimentos estéticos prometem modificar partes do corpo que sequer imaginávamos que poderiam se tornar focos de insegurança.
Pesquisadores da University of the West of England já discutem os efeitos desse novo cenário sobre a imagem corporal para além do uso individual dos medicamentos GLP-1. Nadia Craddock e Katia Schneider propõem, em artigo publicado em 2026 na revista Body Image, estudos que acompanhem usuários antes, durante e depois do tratamento para emagrecimento, observando fatores como satisfação corporal, estigma relacionado ao peso e bem-estar psicológico.
À medida que corpos emagrecem cada vez mais rápido, essas transformações em massa impõem padrões de beleza cada vez mais difíceis de alcançar, intensificando a comparação social. Nesse processo, perder alguns quilos deixa de ser apenas uma decisão pessoal e passa a funcionar como uma nova régua de “sucesso” — uma meta que, quando alcançada, parece apenas abrir espaço para a próxima.
É possível compreender, então, por que a pressão estética se tornou um terreno tão fértil para o body horror. O gênero transforma violências psicológicas difíceis de enxergar em violências físicas impossíveis de ignorar.
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