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Como é o apartamento-ateliê de Toia Lemann em São Paulo: arte, moda e nada de minimalismo

A empresária e artista revela os ambientes onde vive e trabalha, marcados por coleções de objetos, obras de arte e uma relação intuitiva com a decoração

Por Marina Marques Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 18 jul 2026, 09h00
Mulher de cabelos castanhos, vestindo roupa bege clara, sentada descalça em um sofá listrado, lendo um livro. Ao fundo, uma estante branca com objetos decorativos e um quadro abstrato azul na parede
A artista Toia Lemann revela o apartamento-ateliê onde vive em São Paulo, um espaço que reflete sua relação com a arte, moda e paixão pelo garimpo (Mayra Azzi/CLAUDIA)
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Em seu ateliê, Toia Lemann trabalha em silêncio. Diante da mesa, alterna entre pinturas, desenhos e colagens num processo que define como imprevisível.

O chão carrega respingos de tinta acumulados ao longo do tempo, enquanto bisnagas de tintas, pincéis e pigmentos se organizam com precisão ao redor.

Mulher de cabelos castanhos, vestindo um casaco bege, sentada e pintando em um caderno com um pincel. Ao fundo, duas telas abstratas com tons de azul, vermelho e preto, e uma caixa com tubos de tinta e pincéis na mesa
É no ateliê que Toia gosta de passar a maior parte de seu tempo. Ali, nascem suas estampas e trabalhos criativos (Mayra Azzi/CLAUDIA)

As paredes são brancas e funcionam como suporte para suas telas, estudos e composições em andamento. É ali que a empresária carioca passa a maior parte do tempo quando está em São Paulo.

“Meu ateliê é meu cômodo favorito, é onde fico imersa”, revela sobre a rotina em seu apartamento no Itaim Bibi.

Tubos de tinta a óleo de diversas cores e uma pintura abstrata com formas geométricas e tons pastel
Detalhes de seu ateliê, instalado no próprio apartamento em São Paulo (Mayra Azzi/CLAUDIA)

O espaço ocupa um lugar central na vida que construiu na cidade, onde passou a viver há cerca de dois anos e meio, entre idas e vindas constantes para o Rio de Janeiro. A mudança se deu pela abertura da unidade paulistana da loja de sua marca, Toia Lemann (@toialemann_), no Shopping Iguatemi.

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No início, a artista se hospedava em um flat, que chegou a decorar dentro das limitações do espaço. Mas, à medida que as viagens se tornaram mais frequentes, decidiu alugar um apartamento. Queria algo com “cara de casa”.

Sala de estar com sofá branco, poltronas bege, mesa de centro de madeira escura e tapete claro. Quadros abstratos coloridos na parede, luminárias pendentes e plantas decoram o ambiente aconchegante
Detalhes do estar do seu apartamento repleto de obras de arte e coleções (Mayra Azzi/CLAUDIA)

O endereço atual se impôs logo na primeira visita. “Eu me encantei com as árvores. As janelas desse apartamento são todas verdes, o que é muito raro”, conta.

A partir dali, o que seria apenas uma base de apoio ganhou outra escala. Vieram as aulas de pintura e gravura, a academia, os encontros com amigos e uma rotina que hoje sustenta sua permanência na cidade.

“Primeiro eu vim por causa da loja. Depois, eu criei hábitos por aqui. Agora, venho por causa da rotina de que gosto muito.” 

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Mesa de madeira escura com um vaso de madeira e uma caixa transparente com cubos decorados. À direita, um arranjo de sementes e elementos naturais em tons terrosos e avermelhados sobre uma superfície branca
O coração de sementes é obra da amiga Márcia Martins e o galho de porcelana, de Efrain Almeida para Bordallo Pinheiro (Mayra Azzi/CLAUDIA)

Foi assim que o novo lar deixou de ser provisório. “Adoro receber. Fico em casa, chamo os amigos, encontro as pessoas que moram aqui.”

A casa acompanha essa mudança. Sem grandes reformas, Toia construiu o espaço com intervenções pontuais e um repertório próprio. Pintou paredes, instalou estantes e trouxe seus móveis preferidos, pensados para circular com ela.

Mulher de cabelos castanhos, vestindo roupa bege clara, sentada descalça em um sofá listrado, lendo um livro. Ao fundo, uma estante branca com objetos decorativos e um quadro abstrato azul na parede
A artista Toia Lemann revela o apartamento-ateliê onde vive em São Paulo, um espaço que reflete sua relação com a arte, moda e paixão pelo garimpo (Mayra Azzi/CLAUDIA)

“Quando eu me mudo, carrego tudo e reproduzo em outro lugar.” O resultado é um ambiente que ecoa sua casa no Rio de Janeiro e, sobretudo, sua maneira de habitar. “Essa casa está bem parecida com a do Rio. É do jeito que arrumo as minhas casas.”

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Longe de qualquer minimalismo, o espaço se organiza pelo acúmulo, mas com muita organização e propósito. “Adoro um cacareco. Sou zero minimalismo. Acho um estilo lindo, mas não consigo.”

Esse “cacareco” — palavra que ela repete com gosto — aparece em objetos garimpados em feiras, brechós e lojas de museu.

Ambiente interno com poltrona de couro marrom e pufe combinando, sobre tapete claro. À esquerda, um quadro abstrato e luminária de chão. À direita, três quadros coloridos na parede e um pendente de teto, com vaso de galhos secos sobre mesa redonda
A poltrona Jangada está no mesmo ambiente da colagem do artista Manoel Fernandes. As obras de Manabu Mabe colorem o hall ao lado de uma luminária de papel da dpot (Mayra Azzi/CLAUDIA)

Copos, xícaras e pequenos itens do cotidiano vêm de lugares improváveis, escolhidos mais pelo gesto do que pelo valor. “Não gosto de visitar antiquário chique, não. É loja de cacareco mesmo”, dá risada ao ver as amigas concordarem com veemência.

A composição dos ambientes segue a mesma lógica intuitiva que orienta seu trabalho artístico. Quadros ocupam as paredes em arranjos densos, pensados por ela.

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Entre as obras, há trabalhos próprios, peças da mãe e produções de amigos artistas, como Lena Bernstein, Sergio Fingermann e Marcelo Valls, que convivem com memórias pessoais. A presença da mãe, Maria de San Tiago Dantas Barbosa Quental, conhecida como Tote Quental, permeia tanto a casa quanto sua trajetória profissional.

Parede branca com diversas obras de arte emolduradas, uma estante iluminada com nichos cheios de objetos decorativos e livros, e um tamanduá de madeira no chão
À esquerda, a dupla de quadros no centro da parede são aquarelas de sua mãe, Tote Quental (Mayra Azzi/CLAUDIA)

Psicanalista e artista, ela manteve uma produção de pinturas e colagens que mais tarde se tornaria base para o trabalho da filha.

Foi a partir das obras de sua genitora que Toia estruturou o início da marca, lançada em 2018 sob o nome Anna Vic — apelido derivado de Anna Victoria Lemann, seu nome de batismo.

As primeiras estampas nasceram diretamente desse acervo. Mais recentemente, com o trabalho cada vez mais autoral, a marca passou a levar seu nome.

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Antes disso, seu caminho era outro. Formada em psicologia, com especialização em psicanálise, trabalhou durante anos em clínica.

Mulher de meia-idade, cabelos castanhos e sorriso discreto, usando blusa verde-limão, kaftan vinho com estampa dourada e colares de contas verdes e pretas. Ela segura uma xícara de chá em um ambiente com parede de tijolos e quadros decorativos
Carioca, Toia Lemann agora passa também alguns dias em São Paulo para tocar sua marca homônima (Mayra Azzi/CLAUDIA)

“Acho que o meu olhar para o mundo é psicanalítico. É uma forma de enxergar a vida”, diz.

“Vem da minha mãe e, no caso, até do meu avô materno. O pai da minha mãe foi um pioneiro. Ele era médico e foi fazer formação psicanalítica lá atrás, nos primórdios”, conta sobre a influência presente em suas raízes.

Ambiente decorado com poltrona de vime e manta colorida, plantas verdes ao fundo. Na parede de tijolos, um quadro com folhas secas, dois pratos de palha trançada e peças de cerâmica rústica
A cadeira de palha é da @capivaradovalee, conhecida pela curadoria de artesanato brasileiro, e o tecido é da @galeriahathi, de Ipanema (Mayra Azzi/CLAUDIA)

Ela conta que a profissão moldou sua percepção de mundo, mas o peso da prática começou a perder espaço com o tempo.

“A vida de psicanalista é muito fechada. Você fica ali no consultório, precisa de muita vocação.” Assim, a inquietação levou à mudança: “E a minha vocação foi diminuindo… Queria sair, andar, fazer outras coisas”.

A virada aconteceu por volta dos 40 anos, após a morte da mãe. “Entrei numa crise existencial. Foi aí que reorganizei tudo.” O que começou como uma aproximação pela moda rapidamente se deslocou para a arte.

Mulher de cabelos castanhos e blusa vinho com detalhes verdes, sorrindo e olhando para a direita, em ambiente com papel de parede de pássaros azuis e luminária de madeira. À direita, um quadro abstrato com tons pastel e texturas
De sua autoria, a obra acima foi criada a partir da técnica de pintura, colagens e de papéis rasgados após serem aplicados (Mayra Azzi/CLAUDIA)

“Foi uma mudança de órgãos de sentido: antes eu estava no ouvido, de repente fui ficando mais visual. Eu não ligo para tendências, nada disso. Mas gosto da roupa, como objeto mesmo, sempre gostei.”

Hoje, a marca opera nesse território híbrido entre o vestuário e a expressão artística, seguindo a regra das peças serem confortáveis e feitas em tecidos fluidos. “Se pudesse, andaria sempre de pijama, assim, confortável”, confessa a empresária.

As estampas desenvolvidas por ela partem de pinturas e colagens e preservam a lógica do quadro. “A gente tende a fazer um rapport grande, como se fosse uma reprodução da obra. Não é uma estampinha. É como se fosse um quadro em peça de roupa.”

O processo envolve sucessivas adaptações e nem tudo funciona, mas Toia tem claro o fato de que isso faz parte. “Você pode gostar e ninguém gostar. Às vezes você faz uma coisa achando que vai ser incrível e não acontece nada. Mas mesmo quando dá errado, dá certo de algum jeito. Eu corto, refaço, colo de outro jeito. Sempre vira outra coisa”, explica.

Quarto com papel de parede azul-marinho estampado com flores brancas e folhas claras, combinando com o teto. Uma cama com lençóis brancos e manta bege, e uma escrivaninha de madeira escura com detalhes em marchetaria ao lado. Cortina branca translúcida na janela.
Maximalistas e autorais, os papéis de parede ocupam diversos cômodos da casa, inclusive seu quarto (Mayra Azzi/CLAUDIA)

Essa mesma liberdade aparece em seu lar. Os papéis de parede, por exemplo, surgiram como extensão de sua pesquisa visual. Criados por ela, ocupam diferentes ambientes do apartamento como um laboratório de arte.

“Eu quis testar em escala maior, ver como ficava.” As estampas vão de flores claras sobre fundos escuros a composições com insetos — tema recorrente em seu trabalho.

Banheiro com papel de parede preto estampado com borboletas azuis e libélulas douradas. À direita, bancada de mármore bege com pia branca, torneira cromada e um vaso branco com galhos secos. Sobre a bancada, dois frascos de sabonete líquido em uma bandeja redonda. À esquerda, vaso sanitário branco e um móvel de madeira clara com detalhes verticais. Um espelho grande reflete a porta branca do banheiro
No lavabo, o papel de parede também é assinado pela moradora (Mayra Azzi/CLAUDIA)

“Os insetos se prestam a ser desenhados, pela forma, pela cor, pelas linhas. Dá para trabalhar mancha, geometria”, descreve. Para equilibrar, ela recorre a uma base neutra. “A parede branca é uma tela. Senão ficaria demais.”

Mulher de meia-idade, cabelos castanhos, sorrindo e sentada na beirada de uma cama com cabeceira de vime. Ela veste um conjunto verde-oliva com calça larga e blusa de mangas compridas, e um colar de contas grandes. O quarto tem papel de parede azul-marinho com flores brancas, dois quadros de flores na parede e uma mesa de cabeceira de vime com um abajur de cerâmica
Os quadros de flores feitos por Toia viraram inspiração para o papel de parede (Mayra Azzi/CLAUDIA)

A casa também é lugar de encontro. Toia gosta de receber, mas à sua maneira. Prefere pequenos grupos, conversas longas e um ambiente sem ruído.

“Gosto muito dos encontros pequenos e informais. Acho que a gente conversa mais, não tem barulho, isso traz intimidade.”

Caseira, reconhece a importância do espaço doméstico na sua rotina. Ao mesmo tempo, não cultiva apego fixo aos lugares. Quando muda, leva consigo os objetos e reconstrói o ambiente. “Eu me apego ao novo lugar, mas não fico com nostalgia em relação à casa anterior. Me apego mais aos objetos que me acompanham.”

Entre duas cidades, Toia Lemann conseguiu criar refúgios em diferentes lugares a partir de seu olhar apurado para o detalhe e criando uma decoração com personalidade, onde quer que esteja. No ateliê, na sala ou nos pequenos objetos espalhados, tudo responde a um mesmo padrão: o de construir, continuamente, um espaço onde arte e vida não se separam.

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