Como é o apartamento-ateliê de Toia Lemann em São Paulo: arte, moda e nada de minimalismo
A empresária e artista revela os ambientes onde vive e trabalha, marcados por coleções de objetos, obras de arte e uma relação intuitiva com a decoração
Em seu ateliê, Toia Lemann trabalha em silêncio. Diante da mesa, alterna entre pinturas, desenhos e colagens num processo que define como imprevisível.
O chão carrega respingos de tinta acumulados ao longo do tempo, enquanto bisnagas de tintas, pincéis e pigmentos se organizam com precisão ao redor.
As paredes são brancas e funcionam como suporte para suas telas, estudos e composições em andamento. É ali que a empresária carioca passa a maior parte do tempo quando está em São Paulo.
“Meu ateliê é meu cômodo favorito, é onde fico imersa”, revela sobre a rotina em seu apartamento no Itaim Bibi.
O espaço ocupa um lugar central na vida que construiu na cidade, onde passou a viver há cerca de dois anos e meio, entre idas e vindas constantes para o Rio de Janeiro. A mudança se deu pela abertura da unidade paulistana da loja de sua marca, Toia Lemann (@toialemann_), no Shopping Iguatemi.
No início, a artista se hospedava em um flat, que chegou a decorar dentro das limitações do espaço. Mas, à medida que as viagens se tornaram mais frequentes, decidiu alugar um apartamento. Queria algo com “cara de casa”.
O endereço atual se impôs logo na primeira visita. “Eu me encantei com as árvores. As janelas desse apartamento são todas verdes, o que é muito raro”, conta.
A partir dali, o que seria apenas uma base de apoio ganhou outra escala. Vieram as aulas de pintura e gravura, a academia, os encontros com amigos e uma rotina que hoje sustenta sua permanência na cidade.
“Primeiro eu vim por causa da loja. Depois, eu criei hábitos por aqui. Agora, venho por causa da rotina de que gosto muito.”
Foi assim que o novo lar deixou de ser provisório. “Adoro receber. Fico em casa, chamo os amigos, encontro as pessoas que moram aqui.”
A casa acompanha essa mudança. Sem grandes reformas, Toia construiu o espaço com intervenções pontuais e um repertório próprio. Pintou paredes, instalou estantes e trouxe seus móveis preferidos, pensados para circular com ela.
“Quando eu me mudo, carrego tudo e reproduzo em outro lugar.” O resultado é um ambiente que ecoa sua casa no Rio de Janeiro e, sobretudo, sua maneira de habitar. “Essa casa está bem parecida com a do Rio. É do jeito que arrumo as minhas casas.”
Longe de qualquer minimalismo, o espaço se organiza pelo acúmulo, mas com muita organização e propósito. “Adoro um cacareco. Sou zero minimalismo. Acho um estilo lindo, mas não consigo.”
Esse “cacareco” — palavra que ela repete com gosto — aparece em objetos garimpados em feiras, brechós e lojas de museu.
Copos, xícaras e pequenos itens do cotidiano vêm de lugares improváveis, escolhidos mais pelo gesto do que pelo valor. “Não gosto de visitar antiquário chique, não. É loja de cacareco mesmo”, dá risada ao ver as amigas concordarem com veemência.
A composição dos ambientes segue a mesma lógica intuitiva que orienta seu trabalho artístico. Quadros ocupam as paredes em arranjos densos, pensados por ela.
Entre as obras, há trabalhos próprios, peças da mãe e produções de amigos artistas, como Lena Bernstein, Sergio Fingermann e Marcelo Valls, que convivem com memórias pessoais. A presença da mãe, Maria de San Tiago Dantas Barbosa Quental, conhecida como Tote Quental, permeia tanto a casa quanto sua trajetória profissional.
Psicanalista e artista, ela manteve uma produção de pinturas e colagens que mais tarde se tornaria base para o trabalho da filha.
Foi a partir das obras de sua genitora que Toia estruturou o início da marca, lançada em 2018 sob o nome Anna Vic — apelido derivado de Anna Victoria Lemann, seu nome de batismo.
As primeiras estampas nasceram diretamente desse acervo. Mais recentemente, com o trabalho cada vez mais autoral, a marca passou a levar seu nome.
Antes disso, seu caminho era outro. Formada em psicologia, com especialização em psicanálise, trabalhou durante anos em clínica.
“Acho que o meu olhar para o mundo é psicanalítico. É uma forma de enxergar a vida”, diz.
“Vem da minha mãe e, no caso, até do meu avô materno. O pai da minha mãe foi um pioneiro. Ele era médico e foi fazer formação psicanalítica lá atrás, nos primórdios”, conta sobre a influência presente em suas raízes.
Ela conta que a profissão moldou sua percepção de mundo, mas o peso da prática começou a perder espaço com o tempo.
“A vida de psicanalista é muito fechada. Você fica ali no consultório, precisa de muita vocação.” Assim, a inquietação levou à mudança: “E a minha vocação foi diminuindo… Queria sair, andar, fazer outras coisas”.
A virada aconteceu por volta dos 40 anos, após a morte da mãe. “Entrei numa crise existencial. Foi aí que reorganizei tudo.” O que começou como uma aproximação pela moda rapidamente se deslocou para a arte.
“Foi uma mudança de órgãos de sentido: antes eu estava no ouvido, de repente fui ficando mais visual. Eu não ligo para tendências, nada disso. Mas gosto da roupa, como objeto mesmo, sempre gostei.”
Hoje, a marca opera nesse território híbrido entre o vestuário e a expressão artística, seguindo a regra das peças serem confortáveis e feitas em tecidos fluidos. “Se pudesse, andaria sempre de pijama, assim, confortável”, confessa a empresária.
As estampas desenvolvidas por ela partem de pinturas e colagens e preservam a lógica do quadro. “A gente tende a fazer um rapport grande, como se fosse uma reprodução da obra. Não é uma estampinha. É como se fosse um quadro em peça de roupa.”
O processo envolve sucessivas adaptações e nem tudo funciona, mas Toia tem claro o fato de que isso faz parte. “Você pode gostar e ninguém gostar. Às vezes você faz uma coisa achando que vai ser incrível e não acontece nada. Mas mesmo quando dá errado, dá certo de algum jeito. Eu corto, refaço, colo de outro jeito. Sempre vira outra coisa”, explica.
Essa mesma liberdade aparece em seu lar. Os papéis de parede, por exemplo, surgiram como extensão de sua pesquisa visual. Criados por ela, ocupam diferentes ambientes do apartamento como um laboratório de arte.
“Eu quis testar em escala maior, ver como ficava.” As estampas vão de flores claras sobre fundos escuros a composições com insetos — tema recorrente em seu trabalho.
“Os insetos se prestam a ser desenhados, pela forma, pela cor, pelas linhas. Dá para trabalhar mancha, geometria”, descreve. Para equilibrar, ela recorre a uma base neutra. “A parede branca é uma tela. Senão ficaria demais.”
A casa também é lugar de encontro. Toia gosta de receber, mas à sua maneira. Prefere pequenos grupos, conversas longas e um ambiente sem ruído.
“Gosto muito dos encontros pequenos e informais. Acho que a gente conversa mais, não tem barulho, isso traz intimidade.”
Caseira, reconhece a importância do espaço doméstico na sua rotina. Ao mesmo tempo, não cultiva apego fixo aos lugares. Quando muda, leva consigo os objetos e reconstrói o ambiente. “Eu me apego ao novo lugar, mas não fico com nostalgia em relação à casa anterior. Me apego mais aos objetos que me acompanham.”
Entre duas cidades, Toia Lemann conseguiu criar refúgios em diferentes lugares a partir de seu olhar apurado para o detalhe e criando uma decoração com personalidade, onde quer que esteja. No ateliê, na sala ou nos pequenos objetos espalhados, tudo responde a um mesmo padrão: o de construir, continuamente, um espaço onde arte e vida não se separam.
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