Daniel Nolasco e Lucas Drummond revelam os segredos por trás do aclamado “Apenas Coisas Boas”
Conheça "Apenas Coisas Boas", filme queer ambientado em Goiás, e a entrevista exclusiva com diretor e ator
O filme “Apenas Coisas Boas” oferece um olhar íntimo sobre vivências marginalizadas, contando a história de dois homens que se apaixonam e ficam juntos por mais de 40 anos, tendo como cenário Goiás, um dos estados mais conservadores do Brasil. Uma reflexão intimista é proposta sobre como conquistas sociais e mudanças no comportamento e na percepção da sociedade contemporânea influenciam a vida cotidiana de um casal homoafetivo.
No município de Catalão, em uma paisagem rural, Antônio, interpretado por Lucas Drummond, é um fazendeiro que vive sozinho e isolado, cuidando dos afazeres de sua pequena fazenda. Seu destino cruza com o de Marcelo, vivido por Liev Carlos, um motociclista solitário que sofre um acidente ao passar pela região. Desacordado, ele é resgatado por Antônio, que cuida de seus ferimentos e o abriga durante sua recuperação, dando início a uma história de amor que transforma e provoca rupturas em cada um deles.
Dirigido por Daniel Nolasco, considerado um dos nomes mais relevantes do cinema queer brasileiro, o filme teve sua estreia mundial no Festival de Guadalajara, no México, em 2025. No Brasil, foi lançado no 14º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba, na Mostra Competitiva Brasileira, levando os prêmios de Melhor Roteiro, Melhor Som e Melhor Direção de Arte. A produção ainda foi premiada no Frameline Completion Fund, fundo norte-americano destinado a filmes com temática LGBTQ+.
Em entrevista à CLAUDIA, Daniel Nolasco e o ator Lucas Drummond falaram sobre a experiencia de ambientar a história no interior goiano, o processo de construção do protagonista e a importância da representatividade na equipe de filmagem.
CLAUDIA: Goiás aparece como cenário e também como personagem, de certa forma. Qual relação você tem com a região e o que ela oferece que outro lugar não daria?
Daniel Nolasco: “Sou da região de Goiás onde filmamos. Na área rural em que gravamos ainda vivem muitos familiares meus, e algumas das locações eram casas de tios e primos. Eu sempre quis narrar uma história de amor gay que se passasse naquelas paisagens.
Quando me mudei para o Rio de Janeiro, percebi que muita gente achava impossível existir uma vivência LGBTQIA+ em uma cidade do interior. Foi aí que nasceu a vontade de contar essas histórias e mostrar que essas experiências também existem fora dos grandes centros.”
CLAUDIA: Como foi o seu primeiro contato com o roteiro e com Antônio? O que aproximou você do personagem?
Lucas Drummond: “Foi o roteiro que me encantou desde o início. Primeiro, porque apresenta um universo muito diferente do meu. Nasci e cresci no Rio de Janeiro e morei a vida inteira em uma cidade grande. Ter a oportunidade de interpretar alguém que vem de uma realidade rural, com um cotidiano totalmente diferente, me interessou muito.
Também me chamou atenção o encontro entre Antônio e Marcelo, que é super transformador porque são dois homens solitários que encontram, um no outro, a possibilidade de uma vida a dois e de ter companhia.
Além disso, o filme trabalha com muitos elementos do imaginário do faroeste e policial, dois gêneros muito heterocentrados. A possibilidade de interpretar um personagem gay dentro desse universo me encantou de imediato.”
CLAUDIA: Antônio é um personagem isolado e que guarda muito do que sente. Como você encontrou esse jeito mais contido de estar em cena?
Lucas Drummond: “Não acredito muito nessa ideia de querer fazer um personagem totalmente diferente de mim. Acho que sempre precisamos nos encontrar no personagem e também acabamos levando muito de nós para ele.
Sou um homem gay, então o primeiro ponto de conexão talvez tenha sido a sexualidade. Mesmo vivendo em uma cidade grande, a experiência também pode ser muito solitária. Apesar de sermos de universos diferentes, essa solidão foi o primeiro ponto de conexão que me fez compreendê-lo e começar a construir o personagem.”
CLAUDIA: Houve algum tema ou cena que foi mais difícil de escrever e dirigir?
Daniel Nolasco: “A cena mais difícil foi o encontro de Antônio com o pai, Tavares, e a relação com a sexualidade dele. É um confronto em que, o tempo todo, o público espera que a situação termine em violência física. Desde o início, essa expectativa está colocada.
Eu queria provocar uma quebra de expectativa também na forma como esse confronto acontece. É um diálogo bastante cruel, mas conduzido de maneira civilizada. O desafio era fazer uma cena direta e crua sem recorrer à violência explícita.”
CLAUDIA: E como ator, qual foi a cena mais desafiadora de gravar?
Lucas Drummond: “A perseguição com a espingarda foi uma das mais desafiadoras. Havia uma demanda física e, tecnicamente, a cena exigia muita precisão. Eu precisava correr por um terreno que não era próprio para isso e, quando parava para mirar e atirar, a câmera, que estava em um carro, me perdia. Demoramos algumas tomadas para entender o que estava acontecendo.
Em um dos takes, começou a chover ao fundo e surgiu um arco-íris, muita gente pode pensar que é um efeito, mas não é. Foi um desses momentos mágicos do cinema.”
CLAUDIA: Como foi a relação entre vocês no set durante a construção do personagem?
Lucas Drummond: “Daniel tem uma grande virtude como diretor: ele é muito objetivo e sabe exatamente o que quer. Tivemos uma semana de ensaios em Goiânia para entender a relação entre os personagens, destrinchar o roteiro e trabalhar as cenas.
Depois, fomos para a fazenda, onde eu aprendi a tirar leite, fazer queijo e atirar. Também precisei conviver com as vacas para que os animais não se assustassem com a presença de um estranho.
Tudo era muito ensaiado e marcado. Para mim, chegar ao set sabendo o que era esperado e o que eu precisava fazer trazia um conforto muito grande e criava espaço para entregar o meu melhor.”
CLAUDIA: O filme reúne muitos profissionais LGBTQIA+ e goianos na equipe. Por que era importante levar essa representação também para os bastidores?
Lucas Drummond: “Vemos muitas produções filmando fora do eixo Rio–São Paulo, mas levando uma equipe inteira desse mesmo eixo. Acho que isso perde um pouco o propósito. Uma das possibilidades de filmar em outra região é também fortalecer uma indústria local.
É um ‘filme viado’, um filme com diversidade. Trabalhamos com representatividade gay em diferentes faixas etárias. É importante que essa diversidade esteja representada também atrás das câmeras, e não apenas na narrativa.”
CLAUDIA: O que vocês esperam que permaneça com o público depois da sessão?
Daniel Nolasco: Espero que as pessoas sintam prazer nas imagens, no som e na experiência estética. Acho que, com o passar dos anos, o cinema ficou muito centrado na narrativa.
Para mim, é importante assistir a um filme e encontrar um plano que te encante. Não necessariamente pela história, mas pela experiência estética. Espero que o público aproveite a experiência que estamos propondo.
Lucas Drummond: É um filme que não responde a todas as perguntas, e acho que isso é uma virtude. Ele gera debate depois da sessão, gera uma conversa em uma mesa de bar. Isso é o que há de mais rico em um filme ou em uma peça teatral.
Hoje existe uma tendência de explicar tudo. Mas, quando entregamos tudo de mão beijada, explicadinho, não há o que discutir nem sobre o que refletir. Espero que as pessoas saiam do filme querendo conversar sobre ele, discutir o que entenderam e compartilhar suas diferentes interpretações.
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