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Daniel Nolasco e Lucas Drummond revelam os segredos por trás do aclamado “Apenas Coisas Boas”

Conheça "Apenas Coisas Boas", filme queer ambientado em Goiás, e a entrevista exclusiva com diretor e ator

Por Ana Carolina Palermo 14 jul 2026, 12h58
Um homem de barba e bigode, com olhos fechados, abraça uma pessoa de cabelo cacheado, ambos envoltos em um cobertor de crochê colorido, em um campo verde ao pôr do sol
Liev Carlos e Lucas Drummond em Apenas Coisas Boas  (Olhar Distribuição/Divulgação)
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O filme “Apenas Coisas Boas” oferece um olhar íntimo sobre vivências marginalizadas, contando a história de dois homens que se apaixonam e ficam juntos por mais de 40 anos, tendo como cenário Goiás, um dos estados mais conservadores do Brasil. Uma reflexão intimista é proposta sobre como conquistas sociais e mudanças no comportamento e na percepção da sociedade contemporânea influenciam a vida cotidiana de um casal homoafetivo.  

No município de Catalão, em uma paisagem rural, Antônio, interpretado por Lucas Drummond, é um fazendeiro que vive sozinho e isolado, cuidando dos afazeres de sua pequena fazenda. Seu destino cruza com o de Marcelo, vivido por Liev Carlos, um motociclista solitário que sofre um acidente ao passar pela região. Desacordado, ele é resgatado por Antônio, que cuida de seus ferimentos e o abriga durante sua recuperação, dando início a uma história de amor que transforma e provoca rupturas em cada um deles. 

Dirigido por Daniel Nolasco, considerado um dos nomes mais relevantes do cinema queer brasileiro, o filme teve sua estreia mundial no Festival de Guadalajara, no México, em 2025. No Brasil,  foi lançado no 14º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba, na Mostra Competitiva Brasileira, levando os prêmios de Melhor Roteiro, Melhor Som e Melhor Direção de Arte. A produção ainda foi premiada no Frameline Completion Fund, fundo norte-americano destinado a filmes com temática LGBTQ+.

Em entrevista à CLAUDIA, Daniel Nolasco e o ator Lucas Drummond falaram sobre a experiencia de ambientar a história no interior goiano, o processo de construção do protagonista e a importância da representatividade na equipe de filmagem.

Um homem de barba e bigode, com olhos fechados, abraça uma pessoa de cabelo cacheado, ambos envoltos em um cobertor de crochê colorido, em um campo verde ao pôr do sol
Liev Carlos and Lucas Drummond em Apenas Coisas Boas (Olhar Distribuição/Divulgação)

CLAUDIA: Goiás aparece como cenário e também como personagem, de certa forma. Qual relação você tem com a região e o que ela oferece que outro lugar não daria?

Daniel Nolasco: “Sou da região de Goiás onde filmamos. Na área rural em que gravamos ainda vivem muitos familiares meus, e algumas das locações eram casas de tios e primos. Eu sempre quis narrar uma história de amor gay que se passasse naquelas paisagens.

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Quando me mudei para o Rio de Janeiro, percebi que muita gente achava impossível existir uma vivência LGBTQIA+ em uma cidade do interior. Foi aí que nasceu a vontade de contar essas histórias e mostrar que essas experiências também existem fora dos grandes centros.”

CLAUDIA: Como foi o seu primeiro contato com o roteiro e com Antônio? O que aproximou você do personagem?

Lucas Drummond: “Foi o roteiro que me encantou desde o início. Primeiro, porque apresenta um universo muito diferente do meu. Nasci e cresci no Rio de Janeiro e morei a vida inteira em uma cidade grande. Ter a oportunidade de interpretar alguém que vem de uma realidade rural, com um cotidiano totalmente diferente, me interessou muito.

Também me chamou atenção o encontro entre Antônio e Marcelo, que é super transformador porque são dois homens solitários que encontram, um no outro, a possibilidade de uma vida a dois e de ter companhia.

Além disso, o filme trabalha com muitos elementos do imaginário do faroeste e policial, dois gêneros muito heterocentrados. A possibilidade de interpretar um personagem gay dentro desse universo me encantou de imediato.”

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CLAUDIA: Antônio é um personagem isolado e que guarda muito do que sente. Como você encontrou esse jeito mais contido de estar em cena?

Lucas Drummond: Não acredito muito nessa ideia de querer fazer um personagem totalmente diferente de mim. Acho que sempre precisamos nos encontrar no personagem e também acabamos levando muito de nós para ele.

Sou um homem gay, então o primeiro ponto de conexão talvez tenha sido a sexualidade. Mesmo vivendo em uma cidade grande, a experiência também pode ser muito solitária. Apesar de sermos de universos diferentes, essa solidão foi o primeiro ponto de conexão que me fez compreendê-lo e começar a construir o personagem.”

CLAUDIA: Houve algum tema ou cena que foi mais difícil de escrever e dirigir?

Daniel Nolasco: “A cena mais difícil foi o encontro de Antônio com o pai, Tavares, e a relação com a sexualidade dele. É um confronto em que, o tempo todo, o público espera que a situação termine em violência física. Desde o início, essa expectativa está colocada.

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Eu queria provocar uma quebra de expectativa também na forma como esse confronto acontece. É um diálogo bastante cruel, mas conduzido de maneira civilizada. O desafio era fazer uma cena direta e crua sem recorrer à violência explícita.”

CLAUDIA: E como ator, qual foi a cena mais desafiadora de gravar?

Lucas Drummond: “A perseguição com a espingarda foi uma das mais desafiadoras. Havia uma demanda física e, tecnicamente, a cena exigia muita precisão. Eu precisava correr por um terreno que não era próprio para isso e, quando parava para mirar e atirar, a câmera, que estava em um carro, me perdia. Demoramos algumas tomadas para entender o que estava acontecendo.

Em um dos takes, começou a chover ao fundo e surgiu um arco-íris, muita gente pode pensar que é um efeito, mas não é. Foi um desses momentos mágicos do cinema.”

Homem de bigode, vestindo regata cinza e jeans com cinto laranja, segura uma espingarda e olha para trás em uma floresta densa com árvores e folhagem verde
Lucas Drummond como “Antônio” em Apenas Coisas Simples (Divulgação/IMDb)
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CLAUDIA: Como foi a relação entre vocês no set durante a construção do personagem?

Lucas Drummond:Daniel tem uma grande virtude como diretor: ele é muito objetivo e sabe exatamente o que quer. Tivemos uma semana de ensaios em Goiânia para entender a relação entre os personagens, destrinchar o roteiro e trabalhar as cenas.

Depois, fomos para a fazenda, onde eu aprendi a tirar leite, fazer queijo e atirar. Também precisei conviver com as vacas para que os animais não se assustassem com a presença de um estranho.

Tudo era muito ensaiado e marcado. Para mim, chegar ao set sabendo o que era esperado e o que eu precisava fazer trazia um conforto muito grande e criava espaço para entregar o meu melhor.”

CLAUDIA: O filme reúne muitos profissionais LGBTQIA+ e goianos na equipe. Por que era importante levar essa representação também para os bastidores?

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Lucas Drummond: “Vemos muitas produções filmando fora do eixo Rio–São Paulo, mas levando uma equipe inteira desse mesmo eixo. Acho que isso perde um pouco o propósito. Uma das possibilidades de filmar em outra região é também fortalecer uma indústria local.

É um ‘filme viado’, um filme com diversidade. Trabalhamos com representatividade gay em diferentes faixas etárias. É importante que essa diversidade esteja representada também atrás das câmeras, e não apenas na narrativa.”

CLAUDIA: O que vocês esperam que permaneça com o público depois da sessão?

Daniel Nolasco: Espero que as pessoas sintam prazer nas imagens, no som e na experiência estética. Acho que, com o passar dos anos, o cinema ficou muito centrado na narrativa.

Para mim, é importante assistir a um filme e encontrar um plano que te encante. Não necessariamente pela história, mas pela experiência estética. Espero que o público aproveite a experiência que estamos propondo.

Lucas Drummond: É um filme que não responde a todas as perguntas, e acho que isso é uma virtude. Ele gera debate depois da sessão, gera uma conversa em uma mesa de bar. Isso é o que há de mais rico em um filme ou em uma peça teatral.

Hoje existe uma tendência de explicar tudo. Mas, quando entregamos tudo de mão beijada, explicadinho, não há o que discutir nem sobre o que refletir. Espero que as pessoas saiam do filme querendo conversar sobre ele, discutir o que entenderam e compartilhar suas diferentes interpretações.

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