House of the Dragon: 3ª temporada vai reabrir feridas de Game of Thrones
As protagonistas de Game of Thrones e House of the Dragon mostram como continuamos desconfortáveis com personagens femininas ambíguas
Hoje estreia a nova temporada de House of the Dragon e basta falar em Westeros para que um velho debate volte à tona. Se Daenerys Targaryen dividiu o público no final de Game of Thrones, sua ancestral Rhaenyra parece caminhar para uma armadilha semelhante. E talvez seja justamente por isso que a série esteja prestes a nos colocar diante das mesmas perguntas que muitos fãs ainda evitam responder.
Fantasma de Game of Thrones retorna em House of The Dragon
Ao longo de oito temporadas, parte dos espectadores se apaixonou pela imagem de Daenerys como libertadora, rainha justa e símbolo de esperança. A personagem interpretada por Emilia Clarke se transformou em um ícone capaz de inspirar devoção quase religiosa.
O problema é que, muitas vezes, o encanto pela lenda acabou obscurecendo a mulher por trás dela. A tragédia final de Daenerys continua sendo debatida até hoje, mas sua queda não surgiu de repente em King’s Landing.
George R. R. Martin sempre espalhou pelo caminho sinais de uma personalidade marcada pela solidão, pela sensação de destino e pela convicção de que apenas ela seria capaz de construir um mundo melhor.
Rhaenyra seguirá os passos de Daenerys?
É justamente aí que a trajetória de Rhaenyra começa a ecoar a de sua descendente. Desde a primeira temporada, a personagem de Emma D’Arcy foi abraçada como uma vítima de um sistema patriarcal e como a herdeira legítima de um trono usurpado.
E ela é, de fato, ambas as coisas. Mas isso não significa que esteja imune ao ressentimento, ao isolamento ou às consequências de uma guerra que consome não apenas exércitos, mas também a identidade daqueles que a travam.
Será curioso acompanhar a Rhaenyra da série se aproximando da mulher que George R. R. Martin descreveu em Fire & Blood: uma rainha cada vez mais isolada, desconfiada e consumida pelo conflito. E essa desconstrução pode colocar House of the Dragon diante do mesmo problema que dividiu o público de Game of Thrones.
Talvez porque continuemos esperando das mulheres que admiramos uma coerência moral impossível: elas podem ser fortes, desde que permaneçam compassivas. Podem ser ambiciosas, desde que não pareçam sedentas por poder. Podem liderar, desde que não se tornem implacáveis. Quando essas fronteiras são ultrapassadas, a admiração muitas vezes dá lugar ao desconforto. Me faz lembrar a música da Madonna, What it Feels Like For a Girl.
Apenas homens podem ser contraditórios?
Curiosamente, homens contraditórios povoam a cultura pop há décadas. Tony Soprano, Walter White, Don Draper ou Logan Roy jamais precisaram ser exemplos de virtude para despertar fascínio. Suas falhas fazem parte do que os torna interessantes.
Com personagens femininas, no entanto, a relação costuma ser mais complicada. Ainda parece haver uma tendência a dividi-las entre heroínas e vilãs, mártires e monstros, como se houvesse pouco espaço para zonas cinzentas.
Daenerys e Rhaenyra compartilham outra característica em comum: ambas foram transformadas em símbolos.
A Mãe dos Dragões se tornou a libertadora.
A Rainha dos Pretos virou a representação da mulher injustiçada.
Mas símbolos são mais fáceis de amar do que seres humanos porque não decepcionam, não mudam e não nos obrigam a confrontar contradições.
Os órfãos de Daenerys abraçaram sua rainha com a mesma devoção com que muitos fãs hoje defendem Rhaenyra. A diferença é que, desta vez, todos sabemos como essa história termina. Ou, pelo menos, como George R. R. Martin a escreveu.
Talvez seja justamente por isso que a jornada de Rhaenyra tenha potencial para obrigar os espectadores a encarar as mesmas verdades desconfortáveis que muitos ainda rejeitam sobre Daenerys. Não porque as duas mulheres sejam idênticas, mas porque ambas representam algo que continua causando estranhamento dentro e fora da ficção: mulheres que se recusam a permanecer apenas heroínas.
E talvez o verdadeiro teste para os fãs não seja decidir se Rhaenyra ou Daenerys estavam certas. Talvez seja aceitar que personagens tão fascinantes quanto elas nunca precisaram ser.
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