Após 18 anos, Beatriz Milhazes retorna à Pinacoteca com mostra inédita e histórica
Com nova mostra dedicada às gravuras, a artista Beatriz Milhazes resgata o período em que levou o Rio de Janeiro consigo para os Estados Unidos
“Beatriz, a sua vida vai ser isso.” É o que me diz uma das maiores damas da arte brasileira, Beatriz Milhazes. Do outro lado da câmera, via Zoom, do Rio de Janeiro, ela lembra do tempo de estudos na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, momento em que entendeu que a arte seria seu caminho.
“Olhando para trás, eu era muito jovem, mas parece que recebi uma missão”, recorda. A conversa acontece na semana da abertura da exposição Beatriz Milhazes: Gravuras do Acervo da Pinacoteca de São Paulo, em cartaz na Pina Estação, na capital paulista
Um retorno dezoito anos após Beatriz Milhazes: Pinturas e Colagens, retrospectiva de seu trabalho com cerca de 30 quadros e intervenções coloridas nos vidros da instituição, que marcou a memória de muitos e parece, como ela diz, “como se tivesse acontecido recentemente”.
Pela primeira vez, a artista apresenta uma mostra que se debruça sobre as 27 gravuras produzidas entre 1996 e 2019, resultado da colaboração com Jean-Paul Russell, fundador da Durham Press, estúdio e editora de artes, nos Estados Unidos.
Reunidas em uma mesma sala, as obras revelam um período particularmente prolífico da trajetória da carioca e sua experiência de trabalhar em outros meios, sempre interessada em expandir a própria linguagem sem se afastar dela.
Nas gravuras feitas com serigrafia, cores hipnóticas se dissolvem em sobreposições de formas geométricas vibrantes; círculos sugerem movimento contínuo, enquanto arabescos e mandalas ocupam toda a superfície da obra.
Mas, por trás de cada uma delas, há uma longa história.
A começar pelo cenário da década de 1990, quando decidiu que, apesar de seu tronco ser a pintura, a técnica de serigrafia poderia fazer parte do seu universo. “A origem da serigrafia se relaciona com meus interesses. No mundo das gravuras, ela era considerada inferior, porque vinha do universo da publicidade”, comenta.
Os astros se alinharam durante sua primeira exposição individual. Ela ocorreu na galeria que a representava à época, a Edward Thorp Gallery, onde conheceu Jean-Paul, que tinha um estúdio que inovava em técnicas de impressão desde 1988.
O que começou em Manhattan se deslocou geograficamente para duas horas dali. O processo de imersão na serigrafia durou dois anos, em uma área rural, com aprendizado, inclusive, do idioma — o seu inglês era o básico da escola.
“Eu estudei francês, porque meus pais preferiram, por razões políticas e idealistas”, lembra ela, quando conta sobre ter crescido durante a ditadura e a sorte de ter pais que sempre foram contra o regime. “Quando comecei minha carreira internacional, tive que fazer um intensivo, porque uma coisa é visitar o país, a outra é trabalhar e encontrar uma galeria”, lembra.
“Era curioso, porque a minha vida não poderia existir fora do Rio, não só a vida pessoal, mas como artista. Eu senti que perderia algumas referências importantes”, confessa.
Quando, no entanto, teve que desenvolver gravuras na Durham Press, foi surpreendida. Em comum, percebeu uma forte conexão com a natureza. “Mesmo com grandes diferenças, acabei criando um vínculo com o cenário rural de lá e o natural daqui”, explica ela, que sentiu que a decisão de retornar à sua cidade foi absolutamente intuitiva.
“Foi uma escolha crucial para tudo que se seguiu na minha trajetória.”
A começar pela cartela cromática. “A cor entra na minha obra pela mão humana, por uma observação da natureza, através dos chamados artesãos, a arte popular como um todo. Também pela arte indígena, que usei como referência desde os anos 1990.”
O povo indígena Kadiwéu serviu como ponto de partida para um trabalho de 1997, batizado Madame Kaduvel. “As mulheres tinham uma pintura corporal no rosto, que eram arabescadas em preto, como se fosse uma tatuagem. Quando me deparei com um livro sobre essa etnia, logo estabeleci uma conexão.” Para a artista, toda indumentária que vem da natureza, aliada ao contexto do que aprendia no Parque Lage, “chamava para a história”.
“Quando você estuda pintura, o olhar vai para os europeus, para os norte-americanos. Como a minha mãe era professora de história da arte, aprendi arte brasileira em casa. Mas isso não aparece na hora em que se vai realmente estudar”, diz ela.
Ao olhar para as obras de Matisse, é possível entender a construção dos modernistas que influenciaram sua obra, com um diferencial. “No meu ateliê no Jardim Botânico, que sempre foi lá e continua sendo, eu não tenho como pensar como Matisse, um europeu ou um norte-americano, porque o meu contexto é completamente outro.”
O contexto, claro, é o Brasil que Beatriz carrega em si.
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