Casa minimalista com arte e aço corten prova que menos pode ser mais acolhedor
Aline Guella, diretora criativa da LINI, parte de uma base minimalista para construir um espaço marcado por uma forte presença arquitetônica
A cena não corresponde exatamente à ideia clássica de uma casa minimalista. Entre os vãos amplos e abaixo de um generoso pé-direito, um gato e dois cachorrinhos atravessam os ambientes com familiaridade e, com frequência, a casa se abre para encontros barulhentos que reúnem uma família numerosa.
É nesse cotidiano alegre, longe da formalidade excessiva, que Aline Guella constrói o equilíbrio do espaço onde vive com o marido, o empresário Eduardo Faci, na região metropolitana de São Paulo.
“É uma casa viva”, ela define. “Aqui sempre vem muita gente. Almoçamos juntos, e no final de semana é lotado, quando a família se junta.” Apesar de morarem a dois, a dinâmica do espaço está longe de qualquer ideal de composição intocável: há muito movimento, circulação e rotina compartilhada.
“Tem bichos, tem gente, então não dá para ter tudo perfeitamente como a gente gostaria”, diz ela, que, apesar da fala, admite adorar o som de casa cheia.
No amplo lar, predominam superfícies contínuas, tons neutros e uma escolha criteriosa de materiais. A sensação de respiro permeia toda a construção, com um mobiliário posicionado para deixar o espaço livre e a circulação fluida. O imóvel passou por uma reforma conduzida por Eduardo antes de se tornar o espaço que hoje compartilham.
Aos poucos, Aline foi inserindo um quadro aqui, outro ali, e construindo cantinhos que traduzem seu repertório.
“Gosto de uma base minimalista, com menos informação e uma paleta mais sóbria, porque isso me permite trabalhar melhor os pontos de cor na decoração. Prefiro trazer esses elementos nos detalhes, nos objetos, nos quadros — acho que assim o ambiente ganha mais personalidade e sem ficar carregado”, explica.
A fala se materializa nos contrastes sutis que percorrem os ambientes. Se por um lado predominam tons de off-white, cinza, marrom e materiais densos, por outro, pontos de cor surgem em todos os cômodos.
Nas paredes, quadros trazidos de viagens — muitos deles de artistas independentes — introduzem uma camada mais espontânea. “São mais irreverentes, coloridos”, comenta.
Neles estão personagens famosos, composições gráficas e intervenções urbanas que convivem com a base neutra da arquitetura. Na sala, chamam atenção obras do pintor italiano Angelo Accardi, conhecido por misturar a cultura pop a cenários urbanos realistas, além de pinturas adquiridas pelo casal em viagens, como peças garimpadas em feiras de rua em Madri, assinadas por artistas locais.
Esse acúmulo, no entanto, nunca corre o risco de se transformar em excesso. A própria moradora descreve o processo como algo em construção: “A decoração é como se fosse o styling da casa”, diz. “E eu estou aprendendo, me arriscando mais.”
A relação entre força e leveza também aparece na escolha dos materiais. O aço corten é um dos protagonistas do sobrado. Na área externa, surge em um revestimento vazado que filtra a luz e cria uma textura variável ao longo do dia, a depender do sol. Já nas portas, aparece em chapas espessas, que se impõem quase como esculturas.
“Gosto muito desse material, ele traz uma força”, afirma. “Eu sento no sofá e fico olhando a casa, acho esse efeito da luz muito bonito.”
Arquitetura que inspira
Essa forma de pensar o espaço ecoa diretamente no trabalho de Aline à frente da LINI, sua marca de roupas fundada em 2022 ao lado de Eduardo. “Ela começa de uma maneira totalmente despretensiosa”, conta.
O projeto surgiu de uma conversa informal, em um momento de transição de carreira, quando ela deixa o interior de São Paulo — onde atuava no setor de beleza — para se estabelecer na capital.
A mudança de trajetória aconteceu de forma orgânica, mas ganhou corpo com a entrada do marido no negócio. “Ele é o apoiador master”, declara. Com olhar estratégico e experiência empreendedora, Eduardo passa a conduzir o crescimento da marca, enquanto Aline assume a direção criativa. Hoje, a parceria se desdobra tanto no trabalho quanto na vida pessoal.
Na LINI, o processo criativo parte sempre de um tema. “Eu trago a inspiração, a gente estuda e vai construindo tudo com a equipe”, explica. As referências vêm do cotidiano, mas principalmente das viagens e até da linguagem arquitetônica. “Eu me inspiro muito na arquitetura, nessa ideia de estrutura, de simetria, de como as coisas se organizam. Isso influencia diretamente o desenho das peças.”
Ao longo do tempo, a marca encontrou na alfaiataria seu principal território. O caminho não foi planejado desde o início (a etiqueta chegou a explorar outras vertentes, como o beachwear), mas se consolidou a partir da afinidade da empresária com esse universo. “Eu me identifico com a alfaiataria, foi natural a gente se aprimorar nisso”, afirma.
Ainda assim, o interesse não está no clássico em si, mas na possibilidade de deslocá-lo. “Trazemos uma bossa. Gosto sempre de mostrar algo diferente, seja num aviamento, num recorte, um botão, alguma coisa que saia do básico.” O gesto sutil define a linguagem da marca: peças estruturadas, com intervenções pontuais que alteram a leitura sem comprometer a atemporalidade.
A premissa se reflete nas coleções mais recentes, como a de inverno, intitulada Rebélia, em que a marca explora uma estética inspirada na atmosfera gótica, com tecidos estruturados, cores profundas e uma construção mais escultural das silhuetas.
“Buscamos desenvolver peças que acompanhem a mulher em diferentes momentos da vida, sem se esgotar em uma única temporada. A ideia é que ela tenha no guarda-roupa por muito tempo, que não seja algo datado”, define. Desde sua criação, a LINI vem ampliando a presença no mercado, vestindo nomes como Rebeca Andrade, Jade Picon, Erika Januza e Camilla de Lucas, além de reunir grandes modelos, como Isabeli Fontana, em seus desfiles autorais.
Essa consistência também aparece na forma como a casa é vivida. A área externa, com piscina e forno de pizza, concentra os encontros mais animados, especialmente aos finais de semana, quando a casa se enche e o uso se expande para além da rotina.
“Aqui é meu canto. É onde a gente se renova, descansa, encontra a família”, afirma. Ao longo da semana, a dinâmica se recolhe, com a cozinha funcionando como ponto central. “Eu sou mais caseira, mas meu marido não. Ele gosta de movimento, não gosta de ficar em casa”, conta, bem-humorada.
Em meio à rotina acelerada, são poucos os momentos de pausa — mas, quando acontecem, ajudam a dimensionar o percurso. “São raros os momentos que tenho para refletir… hoje foi um deles. E me sinto muito feliz, realizada.”
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