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Ana Claudia Paixão

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A jornalista Ana Claudia Paixão (@anaclaudia.paixao21) fala de filmes, séries e histórias de Hollywood

O que a música que você ouve quando está sozinha revela sobre você

Desvende o que suas playlists revelam sobre seus sentimentos mais profundos, suas memórias e seu inconsciente

Por Ana Claudia Paixão 14 jun 2026, 15h00
Mulher loira de cabelo médio e franja, sorrindo, usando camisa vermelha estampada e brincos, em meio a uma multidão em evento ao ar livre
O filme Greatest Hits aborda a maneira em que a música consegue influenciar nossa mente e estado de espírito  (Divulgação/Divulgação)
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O que você escuta quando está sozinha? Não é a música que toca no elevador, no supermercado ou durante uma corrida, mas aquela canção que você procura quando está feliz, triste, apaixonada, nostálgica ou simplesmente tentando entender o que está sentindo. Essa pergunta pode revelar mais sobre nós do que imaginamos.

Canções são a trilha sonora de nossas emoções

Mais do que entretenimento, as canções acabam se tornando uma espécie de trilha sonora da nossa vida emocional. Criamos playlists para viagens, para términos de relacionamento, para momentos de concentração e para celebrações.

Algumas músicas desaparecem rapidamente das nossas vidas, mas outras permanecem conosco por décadas. Elas sobrevivem às mudanças de cidade, de emprego, de amizades e até mesmo de identidade. Continuam ali porque parecem guardar algo que vai além do gosto musical.

O algoritmo e o mapeamento dos nossos hábitos emocionais

Uma curiosidade dos nossos tempos é que os algoritmos parecem ter entendido antes de nós que somos criaturas de repetição. Mesmo que não saibam tudo sobre quem somos, certamente sabem bastante sobre os momentos em que procuramos conforto, energia, nostalgia ou simplesmente companhia.

No fundo, as plataformas não estão apenas catalogando músicas. Estão mapeando hábitos emocionais.

Um casal jovem, com fones de ouvido no pescoço, encosta as testas e sorri sob luzes neon roxas e rosas em um evento noturno
Greatest Hits explora como uma canção pode guardar dentro dela uma história de amor inteira (Divulgação/Divulgação)

Não é por acaso que os serviços de streaming conseguem prever nossos gostos com uma precisão desconcertante. Uma música ouvida uma vez pode ser apenas um acaso. Aquela que retorna regularmente, especialmente em determinados momentos da vida, começa a revelar algo mais profundo. 

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Essa relação, porém, não é tão simples quanto parece. Nem sempre escolhemos músicas tristes porque estamos tristes, da mesma forma que nem toda canção alegre é sinal de felicidade. Às vezes, fazemos justamente o contrário. Recorremos à energia de uma música animada para tentar mudar o humor depois de um dia difícil. Em outras ocasiões, procuramos uma balada melancólica não para sofrer mais, mas porque ela parece dar voz a uma emoção que ainda não conseguimos nomear.

A música pode transformar nossos sentimentos

Isso ajuda a explicar por que a música ocupa um lugar tão singular em nossas vidas. Ela não apenas reflete o que sentimos. Também pode transformar, organizar ou até aliviar aquilo que estamos vivendo. Em certo sentido, usamos as canções para nos acompanhar, nos consolar e, ocasionalmente, para nos reinventar.

É por isso que tantas pessoas se reconhecem na experiência de ouvir uma música e serem imediatamente transportadas para outra fase da vida. Uma antiga paixão. Uma amizade que se perdeu. Uma viagem. Um período feliz. Ou até uma versão de si mesmas que parecia ter ficado para trás.

A relação entre música e memória é tão profunda que determinadas canções acabam se tornando inseparáveis das pessoas, dos lugares e das fases da vida que as acompanharam.

O que a psicanálise diz sobre a nossa conexão com as canções

A psicanálise oferece uma pista interessante para compreender esse fenômeno. Ela sugere que nossa relação com a música não é apenas estética. Também é emocional, afetiva e profundamente ligada ao inconsciente.

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Sigmund Freud escreveu relativamente pouco sobre música, mas admitiu que determinadas composições o emocionavam sem que conseguisse explicar racionalmente por quê.

Para alguém que dedicou a vida a investigar os mecanismos ocultos da mente, havia algo de fascinante na experiência de ser atravessado por uma emoção cuja origem nem sempre podia ser traduzida em palavras.

Mulher jovem de cabelo loiro e franja, usando camiseta branca com estampa de tigre e colares, sorri levemente olhando para a direita em uma livraria com prateleiras cheias de livros e pôsteres na parede
No filme, os vinis e as canções são portais para memórias que ela se recusa a abandonar (Divulgação/Divulgação)

Uma explicação possível é que a música alcance regiões da experiência psíquica que existem antes mesmo da linguagem. Antes de aprendermos a falar, já respondíamos a ritmos, pausas, vozes e melodias.

O bebê ainda não compreende o significado das palavras que escuta, mas reconhece a musicalidade da voz de quem cuida dele.

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Existe uma experiência sonora do mundo que antecede a fala e continua nos acompanhando por toda a vida.

‘Greatest Hits’: a música como um portal para o passado

Essa ideia inspirou Greatest Hits, filme lançado em 2024 e que está na Disney+. Na trama, a protagonista descobre que determinadas músicas têm o poder literal de transportá-la para o passado, permitindo reviver momentos ao lado do homem que perdeu.

Embora a premissa seja fantástica, a experiência emocional por trás dela é familiar para quase todas nós. Quem nunca voltou instantaneamente para uma fase específica da vida ao ouvir os primeiros acordes de uma canção?

Essa capacidade da música de acessar regiões profundas da experiência humana fascinou diferentes pensadores ao longo do século 20.

Carl Jung via nela uma linguagem capaz de tocar imagens e símbolos compartilhados coletivamente.

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Erich Fromm acreditava que a arte oferecia uma forma de conexão em uma sociedade cada vez mais marcada pelo isolamento.

Donald Winnicott, por sua vez, entendia a experiência cultural como uma ponte entre a realidade externa e a vida interior.

De maneiras diferentes, todos apontavam para a mesma direção: a arte é capaz de alcançar partes de nós mesmas que nem sempre conseguimos acessar pela razão.

Afinal, o que as suas playlists secretas revelam sobre você?

A resposta é menos óbvia do que parece porque o inconsciente raramente se manifesta de forma direta. No fim das contas, nossas playlists revelam menos sobre os artistas que amamos e mais sobre aquilo que desejamos, do que sentimos falta e das perguntas que ainda estamos tentando responder.

Jovem loira de rabo de cavalo e moletom vermelho abraça um homem barbudo de camiseta cinza, ambos se olhando intensamente, próximos a uma janela com persianas
Greatest Hits: a protagonista usa a música para revisitar o amor que perdeu (Divulgação/Divulgação)
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E, nesse sentido, as músicas que escolhemos quando ninguém está olhando podem ser uma das formas mais íntimas — e inesperadas — de conversar com o nosso inconsciente. E fazer descobertas incríveis.

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